MINHA PRIMEIRA VEZ
Acabei de ler uma prosa supimpa, cujo autor nos deixa de água na boca ao relembrar os alfenins saboreados na meninice. Uma doçura, pessoal. O doce do
texto - e o texto do doce, naturalmente. Li, tomei água, naturalmente gelada, e
danei-me para a minha meninez.
Ponho-me a matutar acerca de meus ameninados doces.
Quero datas, mas de mim elas tentam fugir, como a brincar de esconde-esconde.
Imaginam que minha mãe rebolou no paul do Araçá os chipes alfinetados nas
fraldas de algodão. As fraldas do corpo, feitas de saco de açúcar, o futuro
abandonou; os chipes da memória, produzidos de batata e caldo de cana, o
presente aninhou.
Volto já ao assunto datas. Vou abrir alguns
parágrafos a fim de explicar uma coisinha aos amigos do além mar. Esta pocilga
é internacional, gente. Pensando o quê? Os brasucas podem pular os sete
recuados seguintes, tá legal?
Pelo contexto, vocês, americanos e alemães, já
notaram que sou da roça, caipiramente matuto. Resta-me apenas falar do Araçá, o
interior onde nasci. Caipira, roça, matuto, batata, caldo de cana, alfenim,
essas coisas o Dr. Gugo lhes explicará numa boa. Beleza?
Araçá, meus nobres, é distrito de Extremoz, cidade
olho no olho com Natal.
Natal... Ah, Natal. Natal vocês conhecem, não?
Instruídos que são, já devem ter visto nossa poética semelhança com o solo
lunar. Aliás, quando disse, lá da lua, que a terra era azul, o Gagarin estava
olhando as ruas de Natal. O que o gravador não captou, daí a terra não ter
tomado conhecimento, foi o complemento de nosso amigo Yuri: “E igualmente
esburacada”. Está soterrado de razão o poeta quando afirma que azul não é cor,
e sim distância. Se poeta eu fosse, diria que, ao menos para os meus
conterrâneos, azul é prazer. Senão, por que, pra eles, o conceito para os
sorrisos da vida é de que está tudo azul?
Perdi, amigos, o jeito de poetar. Na idade do
colégio, a depender do cenário e do estímulo das colegas, até que dava umas
poetadinhas, mas hoje, a imaginação mal faz jorrar uma prosinha. De mais a
mais, confesso, poesia sempre me pareceu algo escorregadio, irreal. Por ser
mais pujante, viva, prefiro me agarrar à prosa.
Natal... Ah, Natal. Talvez desconheçam, nobres
russos e chineses, que aqui as ambulâncias deixam de socorrer os doentes, visto
que, no mais das vezes, as macas, chorosas e enfadadas, deitam-se no corredor
do hospital e ficam a fazer as vezes de cama para os pacientes por elas
socorridos. Essa é a Natal que beija Extremoz, que cheira Araçá.
Extremoz é conhecida por causa de Genipabu, praia
singular, não só pelas gostosuras de ciobas, tainhas e agulhas, mas também
pelos camelos habitantes de sua brisa. Dizem até, vejam só, portugueses e
holandeses, que será em Genipabu que o camelo vai passar pelo fundo da agulha.
Araçá, disse há pouco, foi onde fui menino. É um
sítio simples, simpático. Araçá se pabula de ter memória de elefante. Por isso
estufa os peitos e estufa alto bom som o feito. Araçá é, pois, um lugar comum.
Bom, disse-lhes que sou bom de data. Tenho-a na
memória todas as primeiras vez (vezes é terrível). Entretanto, os tanto de
tanto de tanto, conquanto importantes, tornam-se irrelevantes neste instante.
Prefiro rimá-las com os andares da idade e o caminhar da alma.
Tinha doze anos quando andei de bicicleta pela
primeira vez. Foi numa merquesuísse amarelinha. Pense num prazer grande! Mas a
bicicleta perdeu para a bola de couro. Depois de passar pela de meia e a de
borracha, a bola de couro, nº 4, vermelhinha, escorregou legal no campinho de
Curral de Baixo, povoado beijoqueiro do da gente. Realizei-me com o gol da
vitória. Mas a bola perdeu para a Zefinha, a jumenta lá de casa. Aí eu tinha
quinze anos. Vou trepar na Zefinha, disse-me, reinando, e passei-lhe as mãos na
garupa. Zefinha não deu sinal de rejeição, mas não murchou as orelhas. Fiquei
cabrito, alisei-a novamente e pimba... A danada me deu um coice tão violento
que, se pega, sei não, amigos. Meus primos ficaram zoando comigo, e mãe disse
que eu precisava ficar amigo da Zefinha, porquanto nem sempre meus irmãos
estavam disponíveis para fazer os mandados da casa. Engraçado que com eles,
primos e irmãos, a Zefinha era dócil, dócil. Até murchar as orelhas ela
murchava. Mas é isso mesmo, nobríssimos. Não é toda vez que somos bem sucedidos
na primeira vez.
Agora, primeira vez braba foi a que me tornou homem,
na semana seguinte ao coice da Zefinha. Passou-se na tarde de um domingo. Chove
não chove, ventinho norte assanhando os cabelos da gente. Ventinho erótico,
porque nos assanhava de libertinagem, classifiquei-o, passadas algumas
ventanias. Aconteceu assim:
“Venha cá, meu filho. Dê uma voltinha por aí e traga
uns gravetos que é pra fazer o fogo da janta. Quando chegar, descasque umas
três macaxeiras pra gente jantar com caíco assado. Enquanto isso, vou ajudar
comadre Aurora na arrumação da capela. Frei Damião precisa encontrar tudo
arrumadinho. A porta da cozinha vai ficar encostada, viu? Vá logo, meu filho”.
Saio resmungando o “tudo é eu, tudo é eu, tudo é
eu”. Com meia hora, estou jogando um “móio” de lenha no pé do fogão. Pego uma
faca e começo a descascar as macaxeiras. Então me dá uma vontade do diabo de ir
à sala. Vou. De macaxeira na mão e tudo.
Gente, ao passar no quarto de mãe, a porta
entreaberta, vejo as pernas da cria de D. Conceição estiradas na cama. Dou um
empurrãozinho na porta e, estático, duro, fico a contemplá-la. Nossa! Parecia
uma santa, que Deus me perdoe. Boto a macaxeira dentro do calção e, trêmulo que
só vara verde, sento-me ao lado dela. Aliso-lhe o cós, acaricio os botões,
desabotôo-os (podem tirar o circunflexo), como a testá-la, passo o fura-bolo
numa preguinha, cheiro a sua braguilha - a dela, é lógico. Tiro o calção...
Aí mãe entra de porta a dentro:
“Pelo menos lave as mãos. Queria mesmo que você
provasse pra ver se ficou boa. A vista da Conceição não anda lá essas coisas.
Essa calça é de mescla Santa Isabel, meu filho. Custou uma fortuna. Tá
contente? Tá um homenzinho, né?”
No Araçá, meus nobres, a passagem de menino pra
homem ocorria quando vestíamos calça comprida. Vocês não imaginam os olhares
das meninas ao me verem de calça comprida na missão de Frei Damião.
Aquela foi a minha mais marcante primeira vez. Até
porque, lá pras tantas, fim do sermão, parque de diversão bombando, olhares se
cruzando, tomo o meu primeiro porre e pela primeira vez pergunto a uma menina
se posso pegar na mão dela. Dada a permissão, ingresso na confraria de beijados
e beijadores e... Levo a primeira surra por ter chegado bêbado em casa.
Aconteceu assim, sim. No meu Araçá, enquanto não
usasse calça comprida, menino era menino. Mesmo. Calça comprida faz um mal
danado ao homem. Aqui, acolá, penso assim. Juro.
Será que você vai botar este texto no lixo? Pela
primeira vez, meu nobre? Mas homem!
Até outro dia,
Tião
2 comentários:
Arretado...Essa da calça tá um achado! Parabéns. François Silvestre.
Ei, François, seu imeio não fica registrado aqui. Queria te falar uma coisinha em particular. Pode mandá-lo para tcarneiro@gmail.com?
Valeu! Um abraço,
Tião
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