MINHA ÚLTIMA VEZ
Já falei aqui
acerca das lorotas de um amigo leitor. De quando em quando, mas normalmente aos
sábados, a gente se encontra a fim de jogar conversa fora, molhar o bico e dar
uma corujada em certos cenários. Por vezes ficamos chumbados, porque de ferro
não somos, não é, gente? Sábado agora, em meio a levantamentos de copo, pitacos
no danado do mensalão, imaginações nas vizinhas de mesa, o debochado chutou
este aspeado:
“E aí, Tião.
Li teu texto intitulado de Minha Primeira Vez. (http://www.pocilgadeouro.com/2012/08/minha-primeira-vez.html)
Sabe o que acontece, bicho, estás ficando extremamente previsível com as
pegadinhas sem graça. As buchudas literatices já deram o que tinham de dá, meu.
De mais a mais – expressão que é a tua cara, Tião -, as barrigudas imagens nos
dizem que o autor está acima do peso literário. Mas deixa isso pra lá. Vamos
beber.”
O debochado
respeitou
a conclusiva pausa e sapecou: “Risível. Hei de admitir, Tião. Tua
prosa está risível paca.”
Ainda bem que
você classificou de bem-humorado o texto, disse, displicentemente
-inocentemente, porque o “hei de admitir” autorizava-me esse juízo, não é
certo, leitor? Em relação ao estilo presunçoso e gorduroso, continuei, não cabe
a mim contradizê-lo, meu nobre, pois tal opinião é contrapeso de sua bagagem
literária. Agora...
Falei e olhei
o focinho do aporcalhado com o intuito de dizer que muitos leitores me viam
magrinho, à Neymar, capaz, portanto, de certas firulas linguísticas. Olhei e vi
as ventas do quadrúpede soltando labaredas de ironia e os olhos cuspindo
excrementos de sacanagem. O idiota estava mangando de mim, pessoal. O risível
era sinônimo de ridículo. A opinião do peste era de sebo estragado, não de
sadios contrapesos.
Levantei-me
disposto a tudo. Antes do tudo, porém, pretendia lhe dizer que se submetesse a
uma lipoaspiração a fim de limpar as gorduras da ignorância. Somente assim ele
distinguiria literatice de literariedade e pegadinhas de contextualização.
Tencionava enfurecê-lo com o “de mais a mais” para avisar que ele tinha a opção
de não me ler. Seguiria à risca o que reza a lei da intriga. Mas, por sorte, a
Miraia chegou e jogou um pano branco no chão riscado.
A ruiva
Miraia, mulheríssima e linda, é a terceira ex do safadão. Passaram dois anos se
amando e arengando. Hoje são amigos. Deixaram de arengar, mas de tempo em tempo
se arengam, suponho.
Bem, com a
Mirainha na área, ficamos a levantar bolinhas de amenidade. Treinamos cerca de
50 minutos, ao cabo do qual nossa craque disse que ia embora. Meu crítico
ofereceu-lhe carona, piscou-me, pagou a conta. Miraia beijou-me o ego e
desafiou-me com a sarcástica sugestão:
“Ah, Tião,
amei a sua primeira vez. Gostei muito do verbo poetar. Crônica da melhor
qualidade, amigo velho. E aí, já escreveu sobre sua última vez?”
Passei horas
pensando na direta indireta da amiga. Indireta direta, sim, leitor. Senão, a
meiga voz da Mirainha e a provocante expressão corporal não teriam me
nocauteado na fortaleza machista.
Descrever
nossa primeira vez é moleza, visto a perspectiva da repetição deixar na memória
o logotipo de datas e circunstâncias. Difícil é expor a última vez. Até porque,
a rigor, a última vez é prerrogativa da morte. Algumas coisas vão escasseando à
medida que vislumbramos o poente, verdade seja dita, mas só quando o enxergamos
por inteiro é que a escassez se materializa. Mas aí, a menos que o fato tenha
sido extraordinário, a relação factual e a data da primeira vez já foram pro
beleléu.
No meu caso,
62 graus tortos pro crepúsculo, ainda me sinto à vontade para trepar na
bicicleta de minha primeira vez, vejo-me confortável para montar na jumenta da
puberdade, considero-me capaz de subir no coqueiro da juventude.
Pensava nessas
coisas numa tentativa de enganá-lo, leitor, e fugir do desafio proposto pela
Mirainha. Mas não seria justo com você, admito. Tenho uma última vez, não nego.
E a Mirainha foi privilegiadíssima testemunha do caso. Daí, peço-lhe atrasadas
vênias (mensalão, seu danado) por causa desta pobre digressão.
Do que agora
vou lhe fazer ciente já entrou na casa dos dois anos. Servidores federais
estavam em campanha salarial na capital do país (eta governo cruel). Estávamos
hospedados no mesmo hotel, em apartamentos triplos. Encerrada a convenção, a
turma foi se dispersando, viajando. Destino Natal, eu e a Mirainha
regressaríamos na manhã seguinte. Grana curtinha, ela liberal assumida, eu
roceiro todo, fechamos a conta, pegamos uma carona e pernoitamos num hotel
próximo ao aeroporto.
Convém
informar que, ao conversar com a Mirainha, homem algum sai do papo sem imaginá-la.
Nunca fui homem algum, de sorte que há tempos eu a imaginava. O apartamento
comum me pôs em parafuso, embora, repito, embora, minha matutice tenha feito
jura de não lhe soltar o menor cabimento.
Jantamos,
deitamo-nos e ficamos assistindo à novela. Cada um na sua. Cama, evidentemente.
Receoso de me trair, os olhos grudavam na TV. Terminada a novela:
“Vixe como
você está tenso, Tião. Vou tomar banho. Vai agora não?”
Olho-a e
vejo-a a desprender dois pontiagudos pecados. Ela olha e me vê pecador. Então
nos olhamos. Bom, acho melhor livrá-los dos detalhes sórdidos, não?
“Vixe como
você está tenso, Tião”, repetiu a Mirainha, tempo depois, acariciando-me o
braço.
Estava
realmente nervoso. Jamais ficara assim em situação semelhante. Relaxe, homem,
dizia a Mirainha, sentada coladinha a mim. Não tinha jeito, amigo. A mente
começava a encher-me de maus pressentimentos.
Esteja onde
estiver, tenha muito cuidado, leitor ou leitora, com os pensamentos que põe na
cachola. Se do bem, cultive-os; se do mal, expulse-os imediatamente. Coisa ruim
quer apenas um pé para se estabelecer. Em segundos, o pestinha lhe deixa no
estado mental de frustração. Assim eu me encontrava, pra baixo mesmo.
O terrível
presságio foi me invadindo, mas perfeitamente administrável durante os
procedimentos preliminares. Por fim, o bicho subiu feito um foguete. Mas antes
de estabilizar deu uma balançada ameaçadora e passou uns dez segundos descendo.
Nossa!, Mirainha, exclamei, depois de, com cara de choro, tê-la abraçada
fortemente.
“Tenha calma,
relaxe. Isso é normal, vai passar, homem. É a primeira vez que você fica assim,
Tião?” Não tive coragem de fitá-la. Simplesmente balancei o sim de cabeça.
Sentia-me um lixo, impotente pra tudo. As lágrimas chegaram e me murcharam de
vez. Voltara a ser criança. Tão criança, que a Mirainha julgou necessário me
aninhar em seus peitos, ficar massageando-me o pixaim e repetir o “tenha calma,
isso vai passar”. Mas não havia massagem, física ou mental, que fizesse minha
moral sorrir. Verde, amarelo, abestalhado. Amarelasse legal, Tião, confessou-me
mais tarde a Mirainha.
Disse a você,
meu nobre, que a Mirainha é ruiva. Não a decompus por não querer alargar o
texto. E não torná-lo erótico. Você, logicamente. Mas a Mirainha é aquele tipo
de mulher a quem chamamos de avião, entendeu? Pois foi no aconchego mamário
daquelas asas que fui indo, fui indo e terminei pegando uma madorna.
Um
solavanquinho, certamente o destrave do trem de pouso, pôs-me em alerta. O
bicho estava baixinho. Estávamos chegando a Natal. O pressentimento estava indo
embora. Eu nunca tivera tanto medo de morrer.
O avião
aterrissou numa boa. Descemos. Pedi desculpa a Mirainha em razão do
constrangimento e roguei-lhe segredo sobre a situação. Já imaginaram se os
colegas soubessem que, com medo de o avião cair, chorei nos braços de belíssima
mulher. Que sarro, hein!
“Essa foi
minha última viagem de avião, Mirainha”, disse-lhe.
“Nossa, Tião.
Pois adorei tua fobia. Não existe nada mais lindo para uma mulher do que ver um
homem chorar em seus seios. Teus uis e ais deixaram-me irrigada do mais
primitivo prazer e lembraram-me antiga promessa: ser aviadora. Achas que sou
capaz de fazer subir um avião? A gente se vê. Tchau.”
Bons voos pra
vocês e até outro dia,
Tião
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