O PROGRESSO VERDE
DA DESORDEM AMARELA
Criei esta gamela para acomodar os meus vinagretes
mentais. Funciona assim. Agarro uma ideia, passo a dessecá-la, despejo o
picadinho literário no cocho e me ponho a imaginar o leitor rindo do desastrado
esforço de agradá-lo. Na minha cabeça, o hipotético leitor me visita depois da
janta e está simplesmente esperando a hora do futebol na TV. Também pode ser
uma leitora que fica cozinhando a visão para a leitura de um livro. Certo é que
sempre imagino o abençoado ou a divina a procura duma atividade que os
distanciem das contrariedades do dia a dia. Raramente consigo criar sorrisos,
mas isso são outros quinhentos.
Hoje vou
quebrar o modelo da amenidade. Vejam. No fim do ano passado, alguns torcedores
do América de Natal mataram um torcedor do ABC, clube também daqui. Um crime
entre vários. Vários que incluem abcedistas matando americanos. Agora acabo de
ler no Jornal de Hoje esta declaração da competente delegada
Alzira Veiga. Dizia ela, a respeito daquele crime: “Eles matam por instinto.
Matam por matar. Não existe um motivo específico”.
Matam por
matar. Minha nossa! Sei disso, delegada,
mas não deixei de me arrepiar com a
cruel verdade. Então botei a mão na queixada e comecei a matutar, pois é assim
que matuto matuta:
Há um ser
infernal zombando do povo brasileiro. O infeliz fica sentado num tronco de
maldade, esboça aquele risinho satânico e fica mangando da gente. Sente-se
feliz por ter espalhado - há séculos, diga-se - o granulado do mau precedente e
o pozinho da complacência.
Vejo somente
essa explicação para o Brasil estar acolhendo a insanidade com tamanho
entusiasmo. O azoreta lembra-se de como tudo começou: conhecido espertinho deu
tremendo trambique num honesto parceiro e saiu se gabando da desonesta
transação. O parceiro ficou na dele e foi à forra com outro desavisado. E esse
com outro. Estava aberto o precedente do jeitinho brasileiro, o levar vantagem
em tudo, eufemismos de roubalheira. Para deleite do infernal zombeteiro, de lá
pra cá tais atitudes só fizeram vitaminar o progresso da desordem verde
amarela.
Com a internet
o negócio se modernizou. O sujeito recebe uma carta comunicando-lhe que
determinada ação judicial lhe foi favorável (recebi uma, sim). Mas ele precisa
fornecer uma conta bancária e transferir certa quantia, como custas judiciais,
a fim de que a bolada seja depositada. Aí o demente transfere a mufufa na
presunção de se dar bem. Mas como receber a grana, se o abestalhado nem demanda
judicial tinha? Ladrões o golpista e o demente, não?
E as pirâmides
financeiras? Conheço gente que largou o emprego para investir no negócio.
Abocanhava três, cinco mil reais ao mês sem dar um prego numa barra de sabão.
Pode isso? Estava na cara que o sonso iria roubar dos futuros incautos, não?
Em ambos os
casos, o ser infernal cruzou os braços e ficou morrendo de rir, vangloriando-se
da pujança do granuladinho do precedente.
Só amarelou o
sorriso quando viu as ruas protestando contra as políticas de humilhação a que
o Estado estava submetendo a população. Então o nojento chamou uns cabras de
peia, soltou uma graninha, pediu que se disfarçassem, quebrassem vidraças,
soltassem rojões, incendiassem carros. Só restava aos reais manifestantes
saírem de cena, não é certo? Errado. Por que a autoridade maior não mandou prender
os disfarçados, já que estavam na rua tão somente para bagunçarem? Era só
prender os safados e deixar a democracia bater pernas. Por que não agiram
assim? Boa pergunta. Será que queriam abrir um precedentizinho?
O poder do
precedente é descomunal, gente. Viram o mensalão? O Sr. Genoino abriu uma
conta, então a turma abarrotou-a de dinheiro a fim de que o ilustre pagasse a
multa da condenação. Outro fez o mesmo, outro também e assim vai.
Precisa haver
um breque na primeira manifestação do mau precedente. Do contrário, o bicho
desembesta e pode se transformar em choro. Breque impossível no caso
brasileiro, pois aquele pozinho da complacência, o parceiro do precedente, não
deixa. Terrível a nossa situação. Infelizmente.
Falo sério,
gente. Visualizem este absurdo. O Supremo Tribunal Federal, o intocável
guardião de nossas leis, sendo ameaçado de invasão por uma turba de vestes
vermelhas e foice na mão. Perigosíssimo precedente, concordam? A turba foi
exemplarmente admoestada? Desmoralizaram o pozinho?
Não apenas
torcedores matam por matar, delegada Alzira. Rusguinhas, antes decididas no
tabefe, hoje são resolvidas com balas na testa? O precedente de não ir atrás do
criminoso há tempos zomba das famílias enlutadas. Por isso é que a morte
potiguar fica estirando a língua para a Justiça, com a boca funda mais
debochada do mundo. No nosso Rio Grande Sem Norte, somente 5% dos casos são
investigados, segundo os jornais. E o precedente dos assaltos? Nossa! Não faz
um mês, três meliantes montaram numa carroça, pegaram um facão e assaltaram uma
lanchonete. Depois saíram chupando o dedo. Pode um negócio desses?
Não apenas
torcedores matam por matar, delegada Alzira. O mais desapiedado matador
brasileiro é o Estado. Tira a vida nos hospitais, por carência de assistência
médica; assassina nas periferias, por delegar às drogas a formação da meninada;
mata o futuro da juventude, pela oferta de uma Educação de faz de conta.
A complacência
do Estado é estarrecedora. Zorra total. A população vive ao Deus-dará, a bangu.
O Estado desfunciona no improviso, na gambiarra. As instituições ficam no meio,
cambaleantes, de braços abertos, ora pendendo pra esquerda, ora pra direita,
ora um passo à frente, ora um passo atrás, feito o roceiro que quer pegar a
arisca galinha do almoço (fiz muito isso). Todos, enfim, ficam imitando aquela
coisa malcheirosa que se diverte balançando nas correntezas dos rios.
O Estado é
mera abstração. Mas abstração com nome e endereço. Orientem-se, governadores e
presidenta. Façam do palácio um matador da complacência. Convoquem os
auxiliares e deem um murro na mesa. Mas um murro irado, daqueles de quebrar a
pedra do anel. Olhe nos olhos dos caras e fale desta forma:
“Chega de
moleza! Peguem aspiradores e exterminem esses indecentes pozinhos que infestam
o país. De hoje em diante, de hoje em diante, de hoje em diante...”
Bom, daí em
diante o discurso fica com os senhores, senhores governantes. O importante é
que abram bons precedentes.
Desculpem,
pessoal, se criei o precedente do texto longo.
Fevereiro/14
TC
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