O FILME
O cineasta queria fazer um filme sobre Andiroba,
continental país sul-americano. O filme mostraria o cotidiano andirobense e
seria rodado na praieira Cristal, nordestina cidade do país. Queria, mas parou
no orçamento. Por baixo, dois milhões de reais. Como levantar tamanha mufufa,
se potenciais patrocinadores balançavam o dedinho do não? Consultou o
travesseiro, confabulou com os botões, pediu conselho ao pijama. Nada.
Deram-lhe a indiferença como resposta. Cochilou. Aí o babão do lençol deu-lhe porreta
dica de produção.
Produção cuja
despesa seria mínima, pois faria sozinho a filmagem. De mais a mais, não
precisaria remunerar atores. Simas, o cineasta, logo pôs o babado conselho em
ação: esboçou um roteiro, muniu-se de camuflada filmadora, pegou um ônibus e
caiu em campo. Dali a quinze minutos: ordens violentas, arrastão, passageiros
em pânico, um tiro no motorista, dois assaltantes – pivetes – em disparada.
Tudo
filmadinho da silva.
Simas subiu
num táxi e seguiu a ambulância
em que foi socorrido o motorista. Supunha certos
cenários. Suposição confirmada: corredores servindo de ambulatórios, que
utilizavam macas como substitutas de camas, que formavam filas de desespero. O
hospital parecia uma arena de lamentação, tantas as dunas de gemidos.
Tudo filmado,
sim.
Choroso por
causa das cenas, mas sorridente em virtude do profissionalismo, Simas, foi
apanhar o filho no colégio. Chegou atrasadíssimo. O táxi andava dez metros e
parava, porquanto os donos de transportes opcionais, numa desastrada iniciativa
de pressão, acharam de colocar seus carros no meio das ruas mais transitadas de
Cristal.
- Toda a
esculhambação foi filmada, não? E aí? Quanto tempo você ficou filmando esses
negócios?
Bom, Simas,
leitor, conversava com o executivo da empresa encarregada de transformar as
filmagens em cinema oficial. Estavam num restaurante. Faziam hora para almoçar
e, como ocorre com quem já está com vários uísques na cabeça, reprisavam o
assunto. As duas perguntas aí de cima, por exemplo, Jorgel já tinha feito umas
duzentas vezes. Curtiam o futuro sucesso do filme, por assim dizer. Filme,
cujos atores não sabiam que iriam ganhar o oscar da espontaneidade.
- Tudo
filmado, sim. Fiquei dois anos nesse trabalho. Mas, como já tenho lhe dito,
demorei esse tempo todo porque julguei oportuno pesquisar certas autoridades.
Então a coisa ficou complicada. Descobri cabeludas mutretas, meu caro Jorgel.
Tenho gravadas mais de 120 horas de carcerárias bombas. As imagens e áudios são
de arrepiar. Vão bombar, sem dúvida.
- Não tem
medo, Simas? Você vai jogar caixas e mais caixas de maribondo caboco em cima
dessa gente, meu caro.
- Medo? Medo
de registrar a verdade? Jamé, Jorgel. Sou artista. Você teria?
- Da verdade,
não. Mas de um maribondo na testa, sim. Esse povo é cruel, amigo. Só espero que
as tais poderosas autoridades não procurem a Justiça a fim de sustar o filme.
- Torço por
isso, Jorgel. Já imaginou a propaganda que eles estariam fazendo do filme?
Aguardemos a jogada deles, certo? Vamos pedir o almoço?
Jorgel dá o
sim de cabeça e chama a garçonete. Simas, de olho nas curvas da moça, acha por
bem soltar um galanteio:
- Sabe, minha
jovem, você tem todos os atributos de uma atriz. Além de belíssima. Falo como
mestre no assunto. Sou cineasta e...
“Sei que é
cineasta. O senhor acertou em cheio. Sou atriz, sim”, disse a garçonete,
sorriso maroto, podo as mãos nos bolsos do avental. Do esquerdo tirou um
envelope vermelho e jogou na direção de Jorgel. Do direito sacou uma pistola e
atirou na testa de Simas.
Acertou em
cheio.
Atirou, sorriu
e correu para uma rua lateral, onde um automóvel a esperava.
Jorgel abriu o
envelope e empalideceu. Estavam lá cinco fotos da família e a mensagem:
“Entendeu o
que vai acontecer se não destruir a porra dessas fitas?”
Fevereiro/14
TC
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