VOCÊ NÃO É VOCÊ
Você não é você, nobre Miraia. Você não é autêntica. É simples
pau-mandado.
- Que? Que disparate mais...
Não gosto dessas brincadeiras. Não lhe dou o direito, Simônidas, de...
Miraia ficou tão raivosa que
tomei a palavra e tentei segurar-lhe a mão. Frustrada a tentativa, sorri e
expliquei:
Escute. Estamos aqui numa
boa, eu vendendo meu joguinho de bicho, você despachando os clientes. E entre
um aposta na vaca e um cafezinho servido fazemos o jogo da sedução. Jogo pedras
de desejo, você empurra pedras de indiferença. Mas sua indiferença é só de faz
de conta, pois o malicioso sorriso e o provocante corpinho já me falaram tudo:
você me quer.
- Quê? Tá maluco? Vou lá
sair com um homem que me chama de falsa. Nem morta!
Então veja a prova de que é
embusteira, Miraia. Você estava
sorridente, mas bastaram três frasezinhas para
ficar faiscando de furor. Alguma coisa mandou você ficar assim, não? Quem é
você, afinal? A fascinante de minutos atrás ou a faiscante atual?
- Sou uma só, Simônidas.
Agora, não tenho sangue de barata. Reagi como qualquer ser normal reagiria ante
a tão brutal ofensa. Pau-mandado é a...
É claro que fisicamente você
é única. Belíssima, charmosíssima, mulheríssima. Você é única porque únicos são
os seus atributos e experiências de vida. A expressão “você não é você”,
Miraia, refere-se a seu comportamento. É uma declaração de realce a fim de
expor a natureza humana, embora a informação esteja pertíssima da verdade.
Você, eu, nós, osso e água, corpo inerte, somos simples seres adjetivados,
inúteis por assim dizer. Só somos substantivos e exibimos autoridade quando
emitimos juízos de valor e agimos. Pensamos e agimos, minha amiga, mas sem
garantia alguma de que sejam verdadeiros os pressupostos da ação. Decidimos em
face do que mentalmente nos é recomendado. Se assim é, pau-mandado somos,
concorda?
- Você está querendo é me
enrolar. Não dou a mínima para esse tal de corpo inerte.
Mas devia dar, Miraia. Não a
mínima, mas a máxima. Dei entonação tão especial ao “devia dar” que a espertinha
caiu na gargalhada, comprovando o ponto de vista de que a essência do indivíduo
é a conduta. Continuei jogando lábia pra cima dela:
Nada tem importância,
Miraia, exceto aquilo que importância você dá.
Você deu importância ao fato
de eu tê-la chamado de pau-mandado e julgou relevante a brincadeira do “devia
dar”. Da primeira nasceu afobação, da segunda, animação. Já sobre o meu juízo
filosófico, você disse que era enrolação e não deu a mínima. Sabe como concebeu
os três sentimentos, nobríssima Miraia?
- Taí o que quero saber, seu filósofo
de meia tigela.
Você
os concebeu por intermédio da audição, daquilo que ouviu de mim. Mas podia ser
pelo tato, paladar, olfato e pela visão. Esses bichinhos acomodam-se em seu
cérebro e formam específico estado mental. Agora vem o pulo do gato. O cérebro
não tem capacidade de processar todos os estímulos a seu dispor. Um número
descomunal a cada segundo. Além de não processar todos, o esforçadão ainda
corre o risco de acomodar aqueles intencionalmente instigantes, moleques,
conquanto verdadeiros, tal qual o meu de há pouco tempo, o do pau-mandado.
Resultado: seu momento mental, Miraia, pode não corresponder à realidade, o que
nos leva à seguinte afirmativa:
O
que você está imaginando não significa, necessariamente, a verdade daquele
evento. É tão somente a representação interna do que seu cérebro acolheu. Não é
aconselhável, pois, ficar demasiadamente triste – ou alegre – acerca do porvir,
do mais ou menos certo. Ou errado.
Estamos a mercê de estados
mentais. Somos paus-mandados deles, Miraia. E nem sempre eles são fidedignos.
Precisa ter isso em mente se quiser viver melhor. Não precisa fazer disso uma
obsessão. Basta entender o processo de formação desses pestinhas e ter
consciência de que está no comando de tudo. Você é a gerente de sua vida. Estou
certo, Miraia?
-
Mais ou menos certo, seu safadinho sedutor. Mas fique certo de que sou
autêntica. Nunca fui pau-mandado na vida, ainda que já tenha, já tenha...
A
reticência, as pupilinhas dilatadas, o alisadinho no cabelo e o risinho sacana
diziam tudo. Mas Miraia achou por bem mostrar quem era o pau-mandado dali e
ordenou com toda a autoridade do mundo:
-
Venha me apanhar às oito. Em ponto.
-
Sim senhora.
Março/14
TC
Obs. Texto transcrito do
romance A Senhora 2 e o Senhor 2, de Tião Carneiro.
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