A HOMENAGEM DE SIMIÃO NO DIA INTERNACIONAL DA MULHER
Hoje acordei com a sensação de que viveria
momentos incomuns. Porque previsíveis, abandonei os amáveis e protocolares
parabéns pelo Dia Internacional da Mulher. Certo é que a percepção foi confirmada
logo pela manhã no auditório da fábrica onde trabalho. Mas teve tudo a ver com
a data.
Meu nome é Clara. Trabalho de
costureira nas Confecções 1857, unidade/Cristal. A 1857 é a maior indústria de
confecções do país. E o dono, Dr. Simião, o melhor patrão do mundo. Opinião
compartilhada pelos quarenta mil funcionários da empresa. Ganhamos 20% a mais
que os demais empregados do setor, temos benefícios sociais ausentes em outras
fábricas e não somos simples registros trabalhistas. De mais a mais, inexiste
empregador mais atencioso que o Dr. Simião. Dr. Simião é daquelas pessoas
incapazes de fingir. Parece que quando Dr. Simião nos cumprimenta, o coração
fica dizendo que nos ama. Os homens não comentam essa impressão, mas as mulheres
fazem dessa visão uma festa.
Bom, acariciando rosas vermelhas, personalizadas
e distribuídas no acesso ao auditório,
estamos lá esperando Dr. Simião. Às nove
horas ele deve chegar acompanhado da mulher, D. Antônia, e ler a mensagem sobre
o Dia Internacional da Mulher. Depois será servido o café da manhã. Em seguida,
os funcionários – inclusive os homens –, terão o dia de folga. Nove horas em ponto
e nada de Dr. Simião. Às nove e dez chega um elegante e desconhecido casal e
acomoda-se na divisão elevada do auditório. Executivos de fora, imaginamos.
Após minutos de aflitivo silêncio, o
homem pega o microfone, apresenta-se e confirma a minha percepção de surpresa: o
casal estava vindo do hospital. Dr. Simião sofrera uma queda no banheiro e
quebrara a perna. Estava sendo operado. Não podia, pois, prestigiar a nossa
festa. A mensagem de felicitações pelo Dia Internacional da Mulher seria lida
pela senhora ao lado, a Dra. Alexandra. Mas, mesmo na maca, Dr. Simião redigira
umas linhas e recomendara que o bilhete fosse lido por uma funcionária. Dito
isso, o senhor Getúlio me chama para ler o bilhetinho.
Tímida, relutei, mas os gritos de
“Clara, Clara, Clara” deram-me força e comecei a ler o escrito. Com certa
dificuldade, é verdade, pois o texto era uma garrancheira só:
“Queridas
amigas, não posso estar com vocês. Levei um tombo no banheiro. Estou no
hospital. Dra. Alexandra vai ler a minha mensagem de congratulações pelo dia de
vocês. Espero que tenham um dia de sorrisos. Divirtam-se. Nossa empresa tem um
sonho: alcançar a completa harmonia comportamental entre homem e mulher.
Estamos chegando lá. Abracemo-nos, amigas, pois muito em breve a voz masculina
e a feminina da 1857 formarão belo discurso único, tornando irrelevante a
tonalidade da voz. Espero que essa igualdade também ocorra em seus lares e em
todos os ambientes deste amado país. Parabéns e um beijo no coração. Gostaria
de dizer mais umas coisinhas, mas a linda moça de branco aqui na minha frente
já está afiando a faca, doida para me cortar.”
Cessados os aplausos, Dr. Getúlio
agradeceu e passou a palavra à Dra. Alexandra, a quem competia ler o discurso
de Dr. Simião. Silêncio, agora de expectativa, a doutora tirou um papel da
bolsa e deu sonoro bom-dia.
A
princípio enchemos as bochechas, depois os sorrisos foram enchendo o auditório.
Aí nos juntamos às gargalhadas de Dr. Getúlio e de Dra. Alexandra. Gargalhada
feminina, a dele, e masculina, a dela, o que terminou amplificando a nossa.
Zorra total, a sala chorando de rir, o casal conferencista se abraça, se beija
e se revela: Dra. Alexandra é agora o Dr. Simião e o Dr. Getúlio é a esposa, a D.
Antônia.
Entre abocanhadas de melancia, mordidas de prazer,
talhadas de mamão, copadas de satisfação, ouvíamos a gozação de D. Antônia: “Ô
homem desastrado, esse meu marido. Passou um ano treinando, seis meses só para
se equilibrar nos saltos altos, mas, na hora agá, esquece que é mulher e dá
estrondoso bom-dia de homem”. A ideia, completava ela, era se despirem dos
personagens apenas no fim do café. Dr. Simião sorria e confessava que não tinha
a competência da mulher.
Um beijo e até o ano que vem,
Março/14
TC
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