MARX, KEYNES, TIÃO E O JOGO DO BICHO
Trabalhei muito tempo no jogo do bicho. Naqueles idos, uma atividade lúdica. Tornei-me experto e esperto no assunto. Formei-me em venda de bicho e me formei vendendo bicho. Saí do leão do jogo da lenda para o leão do imposto de renda.
Comecei a
decifrar o ser humano no jogo do bicho. Vivia logado a esse grande portal do
comportamento. Comprazia-me com a fidelidade, espantava-me com a insensatez, surpreendia-me
com a estratégia. Confabulava com todas. Com elas e seus opostos, naturalmente.
Anos depois, sorri ao ler este aforismo do Einstein: “O homem é inconsistente”.
Em termos de
fidelidade, o jogador do bicho é tão fiel ao cambista quanto ao barbeiro. Já
insensatez e bom senso convivem numa boa com o jogador, embora
a afoiteza de
apostar além do recomendado dê pequenina vantagem à insensatez. Artimanha comum
em qualquer jogador é a tática de adivinhar o bicho da sorte. A estratégia vai
do interpretar o sonho, passa pelo pitaco do cambista, transita pelas
combinações numéricas. Grande diversão, o jogo do bicho. E excelente
universidade no campo das relações humanas.
Deu-se no jogo
do bicho a minha programação sociocultural. Programação que se aliou à teimosia
da genética, ajudou a me autoprogramar e me transformou no insano e babaca processador
mental de hoje. Então, minhas nobres, as ressalvas ao meu comportamento devem
ser imputadas a esse trio programador que, a rigor, começa na jogatina do
bicho. Afinal, no jogo da vida, é impossível satisfazer a todo mundo. E, para
ser sincero, amigos, corro léguas de tamanha missão. Certamente viveria
envaidecido se de todos arrancasse sorrisos, mas, também certamente, viveria de
boca cheia de sapos, ouvidos encerados de bom senso, olhos esbugalhados de
conivência. Não fiquei estouvado como talvez esteja supondo você, leitor. Pelo
contrário, sou fundador da regra do um/dois. Daí eu ser extremamente sensato,
já ter engolido alguns sapos e ter sido conivente com algumas atitudes,
principalmente nas ilicitudes do amor.
Meu número preferido
no jogo do bicho era o dois, a águia. Dessa simpatia - e de tanto observar os fregueses
- criei a louca teoria do um/dois. O um é o comportamento linear, corriqueiro, esperado.
O dois é o desvio, o incomum, o atípico. Bom é viver no conforto do um, porém a
imprevisibilidade do dois é inevitável. Quem ainda não engoliu um sapinho
levante a mão direita. Levante a mão esquerda aquele ou aquela virgem de burlar
uma norminha. Agora levante as duas mãos os que nunca contrariaram a sensatez.
Estão vendo?
Há certos dois,
tipo o do sapo, de cujo arroto tentamos nos livrar. Em contrapartida, existem
uns, tipo o do bom senso, que é de bom alvitre (vixe!) contrariá-los. De tempos
em tempos, é lógico. Não vamos sair mundo a fora desmoralizando o razoável. Já
imaginou trafegar a vida inteira lotado do insosso bom senso, sem ao menos uma
aventurazinha? Precisamos de emoção, de sal. Emoção parida de uma
transgressãozinha, de preferência. Quão chata é uma vida morna, não? Em que forno
de seu dia a dia isso será aquecido é que são outros quinhentos. Um porre
daqueles? Uma improvisação daquelas? Uma... Uma... Você é quem sabe. Calma aí!
A transgressão
- e o correspondente risco -, nem sempre está explícita na atitude dois. O que precisa
estar presente é a fuga do lugar comum, a quebra de modelos, o afastamento da
manada. Mas isso tem custo: quem assim se comporta pode ser tachado de
excêntrico, teimoso e coisa e tal.
Usei o sistema
dois quando cursei Economia, à noite, na UFRN, no início dos anos oitenta (é o
novo!). Para desgosto de alguns colegas, que queriam me ver trabalhando em
atividades mais “nobres”, dei um chute na insípida normalidade, esmurrei o tolo
status, acariciei a bela ousadia, juntei-me aos mestres Marx e Keynes e
ficamos, os três, traçando mais valias, rascunhando gráficos de demanda e
jogando milhar invertida no birô do bicho. Imaginava que num emprego formal, em
que pese ganhar um pouquinho mais, o tempo de estudo seria absurdamente
reduzido, o que comprometeria a qualidade de minha formação. Não queria um
simples canudo. Queria fazer um curso bem feito. E fiz. O comportamento dois
deu certo.
É bom
compreender a atitude dois e mantê-la na cabeça a fim de que não haja precipitação
em certos julgamentos.
Falar em dois
e em cabeça, será que vai dar o dois - águia - na cabeça? O que vocês acham
Marx e Keynes?
Vão jogar do 1º ao 5º?
Boa sorte!
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