A GRAMÁTICA POÉTICA DO COMBINADO FINGIMENTO
A gente finge que... Eles fingem
que... Tenho ouvido bastante essa combinação. A última, duma médica, numa
declaração dum jornal. Num momento de desabafo, mas bafejando a cheirosa
sinceridade. Engraçado, digitei sem pensar a combinação daqui de cima, a do
ouvido. O duma da médica, o numa, o dum e o num do jornal também vieram no
automático. Certamente, frutos da antiga gramática. Duma, dum, numa e num falados
até que são. Já escritos... Parece que o pessoal sente vergonha de escrevê-los.
Acreditam que sejam combinações mensaladas. Mas não foram revogadas, mesmo
porque estão longe de ser infringentes. Ou foram e são, François? Será que...
Agora, determinadas combinações e
algumas reticências deveriam ser revogadas da semântica brasileira. Semântica, todo
o mundo sabe, é palavreado de certas autoridades. Combinar e fingir é a mesma
coisa? Ou só combinação e fingimento o são? Combinar é verbo. Fingir é
advérbio. Oficial e de intensidade. Intensifica simulação. O pior dos piores é
quando o indivíduo finge que combinou.
Vou ser sincero, embora dela
vocês possam desconfiar. Deixei de fingir. Já fingi, sim. Não fingia bem, é
certo. Mas hoje não finjo mais. Pouco me importa se vocês acharem que a negação
é prosa minha. Não finjo, mas segunda-feira, no Roda Viva, da TV Cultura, quase
me dobrei quando vi a angelical poeta Adélia Prado, bandeira na voz, trombeta
nos gestos. Ele leu um poema (poema se lê, simplesmente?), tornou-se um rio de
emoção, os entrevistadores debateram-se na enxurrada e eu fiquei na margem da
ignorância, doido pra fingir. Queria deles o calor, mas nadica de nada de
nadar. Minha predisposição poética é pelega da penúria proficiente. Ideias tenho,
são amigas, mas, de acordo com JB e FP, colegas de copo, vivem emburradas com a
poesia. “Poesia é palavra, não partículas de pobres pensamentos. E você, Tião,
sabe disso”, dizem eles.
Até que sei, mas sinto dinossáurica
dificuldade de distinguir poéticas palavras de pensamentos pobres. Respondo desse
jeitinho. O FP se põe puto, pois pensa que palavreio pulhas. Você é uma pessoa fingidor
(ele adora discordar), rebate o poeste, normalmente com um murro na mesa. Porque
rascunho neste blogue, imaginam ele e outros que domino a arte maior. Não me é
alheia, é verdade, mas daí a amassá-la são outros versos. Falo com toda a pureza
da alma. Não percebo palavras se paramentando de poesia e pondo paixão na vida.
Sou incapaz do gozo orgástico daquela entrevistadora da AP. Nossa!
Certa vez, querendo paz, li isto
pro FP. “A lua majestosa passeia no tapete das nuvens na imensa quietude do
universo. E com seus raios argentinos rompe o véu negro da noite com claridade
branda e suava, e faz da terra um manto de virgem (Gil Dumont)”. “Isso não é
poesia, seu filho da puta. É uma lua de lugar comum, chulé da vaidade”, avaliou
ele, caindo na risada. Mas a risada saía porque eu também ria. Então o FP supôs
que eu estava gozando com a cara dele, porquanto já previra aquele julgamento,
entenderam? Aí deu-se o inusitado: FP ficou sério e disse que o poema era bom. Agradeci,
é claro.
Sabe o que penso, falou o João
Batista, o JB. Você, bicho, é perito em camuflagem. Finge que não conhece
poesia, mas joga nos textos os pês da poética. Como faz isso? Com jogo de potentes
palavras. Discordo, discordou o FP. Esse infeliz não sabe porra nenhuma de
poesia. O potente jogo de palavras a que se refere você, JB, é a tentativa de
fazer o incauto leitor imaginar que o azoreta é poeta. Cadê o lirismo? Cadê a
ruptura? Cadê a alma? Cadê a Carmen dele? Cadê o Bandeira dele? Cadê a Iracema
dele? Cadê o Gular dele? Cadê a Adélia dele? Cadê o Aduato dele? O gato comeu
tudo, JB?
Vamos combinar, né, JB? Esse sacana
é um tremendo gozador. E fingidor.
Março/14
TC
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