VIM DE ONDE NUNCA FUI
Não fui porque
não quis, é certo. Convite e transporte não me faltaram. Nem me faltam. Basta
estalar o dedo. Mesmo assim não quero ir. Será que existem amor e prazer por
lá? Mas haverei de ir. É o meu destino.
Será que nunca fui mesmo? Pensando bem, se vim é
porque fui, não é verdade? O intelecto pode muito bem ter saído para um
rolezinho e ter se esquecido de registrar a minha escapulida. Mas talvez nem
intelecto eu tivesse quando fui. Nem quando vim. Certo é que hoje eu o tenho e ele
armazena tudo. Mas resta misterioso vazio entre o fui e o vim.
Não tive mais ânimo para filosofar. Apenas para
imaginá-la. Ela acabava de entrar no restaurante. Vestia seda vermelha,
coladinha ao corpo. Caminhava faceira, descolada de pudores. Olhava sedutora,
impregnada de paixão. E olhava exclusivamente pra mim!
O silêncio do
restaurante a reverenciava. Ela me curtia, marcava-me, não me compartilhava com
ninguém.
Caramba, exclamei, orgulhoso. Essa moça deve estar
me confundindo com alguém, pensei. Parte do público masculino também a
imaginava, percebi pelo olhar. Parte do feminino a invejava, notei pelo
sorrisinho irônico. Digo parte já que em todo lugar há os indiferentes. E os
contraditórios, o que é compreensível. Mas até esses seguiam a sedutora e despudorada
faceirice da dama sedosa. E, assim sedenta, ela se pôs diante de mim.
Abobalhado, fiquei a fitá-la, sem sequer me mexer.
Nisso, ela me dá um oi orgástico e estira a mão, no claro intuito de quem
queria afagos. Levantei-me, abracei-a, beijei-a. Beijamo-nos, aliás.
- Nossa, como você está compenetrado. Pensava em
quê? Conseguiu me dar um quinal, meu caro. Mas logo o encontrei. Está vindo de
onde?
- Estou vindo de onde nunca fui.
- Ah, é? Engano seu. Vir pressupõe um ponto de
partida, é lógico, mas não obrigatoriamente dum ponto de chegada. Você pode vir
sem ter ido, entendeu? Ao menos por vontade própria. Já voltar...
- Não é isso! Você acabou de concordar comigo. Vim
sem ter ido, entendeu? A propósito, estava papeando com os meus botões
exatamente sobre esse assunto quando você entrou. Perguntava-me por que havia
vindo ao mundo, como tudo começara, se já viera outras vezes e coisas que tais.
Pensava em amor, prazer, milagre da vida. Por não dispor das respostas,
respondi-lhe com o “estou vindo de onde nunca fui”.
Outra coisa... Bem, acho que você está me
confundindo com alguém, pois não a conheço. Então, para que não haja mal
entendido, é bom...
- Desculpe interrompê-lo. Primeiro, quero
parabenizá-lo pelo juízo da questão de ida e vinda. Você está certo. Foi
aprovado no teste. Desculpe a pegadinha. Segundo, suas dúvidas serão tiradas em
esplendoroso salão secreto. Mas ainda não chegou a hora. Terceiro, conheço-o
muito bem, sim. Sou apaixonada por você, destemido, bonitão e viril como
ninguém. Vivo na sua cola, policial Silva. Você é quem não me dá bola. Por
último, fui criada pelas forças cósmicas e vim lhe dar um presente. Quero gozar
junto com você.
- Quê? Qual é o seu nome?
A bonitona não respondeu, pois um arrastão estava
sendo anunciado. Mas riu do comando dos mascarados:
“Todo o mundo deitado. É um assalto”.
Quatro pistolas enquadravam os clientes. Uma
especificamente pra mim, como se o bandido soubesse que eu era policial.
Morrendo de rir, minha acompanhante começou a se virar para os meliantes, não
sem antes me segredar. “Esses vão para onde não deviam ter vindo”. Foi ela
acabar de se virar para os bandidos ficarem esperneando.
Puf! Caíram durinhos.
Restaurante de queixo caído. Ninguém entendia nada.
Somente eu. Mesmo assim porque, ao voltar-se pra mim, a dama passou uns dez
segundos para trocar a veste branca pela seda vermelha, a banguelice pela
perfeita dentadura, o queixo fino, chupado, os olhos fundos, sombrios, a
magreza total pela... Enfim. Ah, a foice era de mola. Cabia na palma da mão. Escondeu-a
na calcinha, notei. Branca. As duas. A foice e a calcinha.
A danada transmudou-se em dez segundos, rindo.
Também ri. Embora amarelo. Aí caiu a ficha. O gozar comigo que ela falara era a
mangoça que fazia dos caras. E o presente a que tinha se referido era a vida
que ela acabava de me dar. Mas não era nada disso. Ou não só apenas isso. Do
contrário...
“Agora vamos para o meu apartamento”, disse a
danadinha, dengosa toda.
“Mas volto?”, indaguei, sabe lá Deus de onde tirei
tamanha coragem.
Ela tornou a rir, piscou o olho, puxou-me pela mão.
Agora pergunto. Você, macho véi, teria coragem de
contrariar tão bela senhora?
Fui!
E vim.
Fevereiro/14
TC
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