A FUGA
Não.
Mas não, mesmo. Decidi. Não vou escrever hoje. Tampouco amanhã, nem depois, nem
depois, nem, nem. Só não digo mais nunca porque estou me lembrando do amigo
Jânio. Dizia ele, quando eu falava o mais antes do nunca: “Tião, nunca mais diga
mais nunca”.
A
origem dessa decisão é que estou tonto desde a tardinha de terça-feira, oito
deste sete. Não adianta torturar a mente. A tontura me apagou, bloqueou tudo. Menos
a desconcentração. Tenho a consciência de que é preciso falar, escrever,
desabafar. Há muita coisa a ser dita. Só dizendo,
pode-se construir a ponte
para o fazer e erguer o guindaste do destruir. E construir e reconstruir. Porque
nada se constrói se antes não se destrói. Assim é a vida. O contraditório binômio
está presente no luxuoso prédio, no monstruoso pensamento, no harmonioso pensar.
Sei muito bem disso, mas a fixação nela me impede de falar, escrever,
desabafar. Desculpem a repetição, já que essa foi a maneira que me ocorre de
dizer o já dito.
Só
penso em botar o matulão nas costas e sair por aí, sem lenço, sem planos, sem
documentos. Vou dar uma colher de chá ao
tempo, o senhor de tudo. Talvez vá à Pasárgada. Boa ideia. Finco lá a Bandeira
da desilusão, escancaro a boca cheia de dentes e espero o tempo passar.
Quanto
sofrimento a lourinha me impôs, gente. Era coisa de cinco meia da tarde de
terça-feira quando a vi pela última vez. Ela estava num barzinho com um bocado
de marmanjos. Carmen não levou em conta nossos encontros e esfregões
anteriores. Simplesmente me ignorou. Nem um olhar sequer dirigiu a mim. Era a insensibilidade
em pessoa. Passou-me pela autoestima feito um trator. Uma goleada de
indiferença.
A
blusinha avermelhada, presente meu, lembro-me bem, que encobria os algos de mim
tão íntimos, era agora a causa de meu amarelão, da apatia, das pernas trôpegas.
E sabem por quê? A danada estava trocando a blusinha com outra moça. Ainda gritei: Carmen! Mas Carmen não me deu ouvidos.
Não
devo pensar mais nisso. Acabo de decidir. Vou fugir. Vou para Pasárgada mesmo. Não
sei quando volto a escrever, não sou dado a previsões. Sou contrário a essas
estimativas temporais.
Então
até amanhã ou depois.
Julho/14
TC
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