Olá, gente,
Postei um texto ontem, cujo título era a SENHA. A postagem
ficou truncada. Comeu um bocado de texto. Estou republicando a estrambelhada com
novo título. Fiquem à vontade para fazer dela o que quiserem. Mas se for ler, tenha
paciência. A bicha é grandona, tem quatro páginas. E desaconselhável para
algumas pessoas.
Obrigado e boa leitura. Ou boa não leitura.
Tião Carneiro
O PRAZER SUPREMO E AS
SENHAS DO HOMEM
Escrever é uma danação.
Um vício de descabeçado. Vivo falando nisso há tempos. O sujeito começa
rabiscando e quando menos espera está viciado. Tirem a prova dos nove: são 9 e
9. Acabei de jantar. Passeei no jornal, fiquei enjoado. Andei pela televisão,
enjoado fiquei. Viajei num livro, aí é que fiquei mesmo. Entediei-me legal. E
em apenas 39 minutos.
Entediado todo, ligo-me a
uma redinha, ligo o computador, ligo-me na literatura.
O jeito é escrever algo.
Mas que algo?
O próprio algo, penso. Algo dá excelente crônica. Algo nos diz
muita coisa. Aqui acolá a gente não diz que “algo me diz...”
“Grande
babaquice essa de escrever sobre algo, meu. Criar assunto da falta de assunto
tornou-se risível. Ninguém suporta mais a manjada ideia”, advertem-me meus
fiéis botões.
Discordo.
Falarei a respeito do amigo Algo, sim.
Mas quer
saber? Antes verei se algum incauto culto acessou meu blogue, o http://www.pocilgadeouro.com/. O bicho
pegou, gente. Cadê me lembrar da senha de acesso à porcaria? Não me lembrava de
jeito e qualidade. Então me lembrei de inusitada sugestão lida numa revista.
A sugestão é que devemos
nos distrair e esquecer aquilo que esquecemos. Faz de conta que o ato falho não
ocorreu, sacou? Feito isso, o esquecido é recordado. Tirei a prova no Banco do
Brasil. Eram somente três letrinhas. O esquecimento chegou no momento em que
enfiava o cartão no terminal. Acabei de enfiar o bicho e nadica de nada de me
lembrar das bichinhas. Virei, mexi, olhei pra cima. Breu total. A fila já me
vendo burro, dedei uma senha de araque e disse ao cabra atrás de mim: “O
teclado tá doidão, vê se tem mais sorte”.
Bom, saí do banco, acendi
um veneno, dei umas baforadas, voltei assobiando. Mal vejo o terminal. Pimba!
As três doidinhas começaram a sorrir para os meus dedos. Aprenderam? Devem-me
essa, leitores.
Pois então, com o terminal do BB na cabeça,
levantei-me da tipoia, tomei um cafezinho, acendi um veneno, dei umas
baforadas, voltei assobiando. Mal vejo o notebook... O resto vocês já sabem,
não? Detesto repetir.
Neste momento
ocorreu outra maluquice. Não estou dizendo que escrever é uma danação? A diabinha
da senha lembrou-me outro episódio de senha e me fez abandonar a ideia da
crônica de nosso amigo Algo. Aconteceu quando morri, vai fazer três anos agora
em agosto (desculpe, Brás Cubas).
Foi assim:
Chego à sede
do juízo final, entro numa enorme fila... Sim, ia me esquecendo: havia 6
acessos ao Pocilga. 2 americanos, 2 portugueses e 2 alemãs.
Como estava a
dizer, entro numa gigantesca fila de adultos (crianças não entram em fila), os
homens de cueca, as mulheres de calcinha. Frio de bater o queixo, a fila começa
num enorme salão, pega a calçada do purgatório, enrola no oitão do inferno,
termina no alpendre do céu. Isso em tese, pois a fila encontra uma triagem e se
ramifica, dividindo a galera. Vou explicar como a coisa funciona.
Então! Pego a
fila e vejo uma porrada de gente conhecida. A maioria por meio da imprensa, é
verdade. Vocês nem adivinham quem está na minha frente, arrogante todo. Parecia
o dono do mundo. Bem, a fila andando, daí a pouco o pessoal esbarra num
pente-fino, controlado por um soldado, Santo Antônio. Santo Antônio fica
pedindo que a pessoa ponha o polegar numa maquininha e, a depender do que
observa, dá o comando:
“Limpo. Céu! Vá
para aquele alpendre de flores vermelhas e aguarde as instruções. Difuso.
Purgatório! Vá para aquela calçada de espinho de cardeiro e aguarde as
instruções. Sujo. Inferno! Vá para aquele oitão de prego caibá e aguarde as
instruções”.
No caso de o indivíduo
ir para o céu, existe outra maquininha geradora de senha. O oitão do inferno é
cheio de tobogãs ao lado, gente. Os pestes fedem a enxofre que só a
bexiga. Um vacilinho e o infeliz
desaparece na catinga. Minutos depois Tonhão me dizia que todos terminam na
caldeira 666. Bem, chegou a vez do bossal que estava na minha frente. Santo
Antônio nem precisou da digital do infeliz. Mirou-lhe o focinho, estirou a
língua, acionou um tobogã particular e o cara tibungo no escorrego fedorento.
Uivo ecoando,
dou um passo a frente e quedo-me surpreso com a recepção:
“Toinho, seu
danado. Precisa de uma senha a fim de passar na borboleta do Pedro. Ponha o polegar
naquela máquina e retire a senha. Depois, entre no quarto ao lado e vista um
chambre.
“Valeu, Dr.
Antônio”, agradeci, exultante com o atendimento. Não só pela alegria dele, mas
também pelo carinhoso “seu danado”. A recepção me empurrou para a brincadeira:
- Tonhão,
bicho, você está sendo muito cruel com a moçada. Um frio de arrepiar pinguim,
aí você acha por bem deixar a galera somente de cueca e calcinha, meu? Por quê?
- São ordens
do Homem, Toinho. Ninguém sabe explicar. Nem Freud. O caladão andou a fila todinha
matutando e nada. Quebrou a cabeça em vão.
- Caramba! Escute,
Tonhão, cadê o pessoal que estava na minha frente? Ali atrás não deu pra ouvir
bem pra onde você mandou eles, de forma que... Cadê todo mundo, Tonhão?
- Foram para o
oitão de pregos, nobre Toinho. Você não os vê ou porque já foram recepcionados
ou porque escorregaram e entraram pelos canos, o que dá no mesmo. Ou seja, na
caldeira 666. Qualquer desatenção e o cara apressa o atendimento, Toinho. Agora
vá, seu danado, que a fila está aumentando. Pedro está esperando você.
Próximo...
São Pedro
estava cochilando, mas pressentiu meus passos:
“Toinho, seu
danado. Entre. Tem que digitar a senha, do contrário a borboleta não abre.
Sente-se aqui, seu danado”.
Digitei a
senha, sentei-me, começamos a bater papo. Fiquei atarantado quando ele disse
que no céu todos os santos tinham meu livro, o Intuitor Bião, um Homem de
Palavra. Perguntei-lhe como o livrinho havia chegado lá. Por intermédio
de um brasileiro, o Sr. Mindlin, respondeu. O Sr. Mindlin passou na catraca,
trocou umas palavrinhas comigo, mas não despregava os olhos do livro. Curioso
com tamanho apego, pedi para dar uma olhadinha, li a orelha, interessei-me pela
história e pedi um exemplar, já que o Sr. Mindlin me dissera que tinha um de reserva.
Mostrei o Intuitor ao Mestre, Ele gostou, mandou digitalizá-lo e deu o endereço
eletrônico a todos daqui.
Sobre o porquê
de eu estar sendo recebido tão bem, São Pedro riu e alegou que eu era
bem-aventurado por já ter sido cobrador de impostos e por conversar com
animais. Engraçada foi a resposta ao saber que, ao contrário do céu, na terra
quase ninguém lia meus livros. Gracejou ele:
“Então, seu
danado, você não sabe que santo de casa não faz milagres?” Conversa solta, mas
passados longos minutos, eis que aparece uma jovem senhora:
- Digite a
senha, minha filha. Cuidado para não errar, senão terá que estagiar no
purgatório. Pode fazer três tentativas, filha. Não tenha pressa. Pelo visto
apenas vocês dois entrarão hoje aqui. Aliás, esta catraca está ociosa faz um
tempão.
Desconheço se
a moça conseguiu entrar, pois precisei me retirar assim que potente voz ecoou
no serviço de som:
- Pedro?
- Sim, Senhor.
- Por que não
mandou o Toinho vir a mim?
- Perdão,
Senhor. Começamos a resenhar o livro dele, o tempo foi passando... Mas ele já
vai. Vou mandar o Gabriel deixá-lo aí.
- Assim seja!
Dali a
segundos, eu nas asas do Gabriel, estava sendo recebido por Ele.
- Toinho, seu
danado, como vai você? Como vai é força de expressão, não é, seu danado! Sei
que está bem. Amei seu livro, viu? Você vai voltar para a terra, Toinho. Tem
uma missão lá. É o seguinte, meu nobre danado...
Evidentemente
que não posso lhes revelar tudo de tão sublime confidência. Mas posso adiantar
dois pedidos Dele:
Que, nos meus
escritos, a exemplo do escancarado no livro Intuitor Bião, eu
insistisse em chamar a atenção para o principal dever dos governantes:
proporcionar serviços de qualidade à população. Notadamente na área de Saúde.
Que
permanecesse firme em mostrar a força do sexo, porque soberano, a fim de que as
pessoas o praticassem sem preconceito, e que deixassem para o responsável
livre-arbítrio, porque a imagem Dele, a missão de comandar as iniciativas
sexuais.
Ele foi comigo
até a porta:
- Tome esta
senha. É a senha celestial. Qualquer dificuldade, digite-a mentalmente que
resolvo o problema. Dificuldade, Toinho, e não a intolerância de seus irmãos. Para
a intolerância, digite esta aqui, a senha mundana. Guarde os papeizinhos, só os
abra no retorno a terra. Agora vá e continue escrevendo, seu danado.
- Senhor...
- Diga,
Toinho.
- Bom, é, é..,
bom, vou perguntar. O senhor responde se quiser. Mas... Mas por que o senhor
deixa aqueles pobres só de calcinha ou de cueca no frio infernal daquela fila?
- Você é
danado mesmo. O frio não é infernal, Toinho. É celestial. Preciso
contextualizar a coisa, mas serei breve. Veja. Antes de viajarem pra cá, vocês
tiveram cinco segundos de transição. Todos transitaram naquele espaço cósmico.
Esse tempo lhes serviu para excluir da mente os atos cometidos. Eles foram
apagados, independemente da natureza ou de como vocês os rotulavam. Então vocês
viajaram sadios, limpos, puros. Em estado natural, por assim dizer, exceto num
detalhezinho. Então vocês chegaram aqui pensando serem sadios, limpos, puros.
Está entendendo, seu danado?
- Apenas
balancei a cabeça, todo arrepiado.
- Pois bem. Só
que nos cinco segundos da transição, todos os atos de vocês... Repito, todos,
caíram naquela maquininha do Antônio e geraram uma estatística com gráfico e
tudo. Daí ele olhar o gráfico e dar o encaminhamento apontado. É isso, Toinho.
- Data vênia,
Senhor. Mas o senhor não respondeu...
- Sobre a
variável frio. Tô ligado. Estava testando você. Adoro testes, Toinho.
- Lembra que
disse que vocês chegaram puros, sadios, limpos, em estado natural, por assim
dizer, exceto num detalhezinho?
- É claro.
- Pois! O
detalhezinho, Toinho, é o prazer sexual. Isso não foi apagado de vocês. Vocês
chegaram aqui com ele, portanto. Como a fila da triagem é única, e é única de
propósito, como de propósito são as vestimentas íntimas, precisei criar aquele
frio.
- Agora deu
a... Desculpe. Não entendi nada, Senhor.
- Porque ainda
não expliquei, seu danado.
- O prazer
sexual, Toinho, é a origem de tudo. Vocês precisam dele para fins de reprodução
e a consequente perpetuação da espécie. O sexo é tão somente o instrumento da
operação. Sem o prazer, vocês não se sentiriam atraídos e adeus espécie humana.
Há algo mais horrendo do que um apêndice de cabeça esfolada e um triângulo
cortado? Essa feiura também é explicável, Toinho, mas não precisa ser agora.
Perceba,
Toinho, que vocês estavam na fila com o prazer sexual ativo. De mais a mais – aprendi
essa expressão em seu livro, Toinho -, aquela fila representa o último
resquício cósmico. Logo, é de extrema importância que seus membros estejam
concentrados e que o clima solene prevaleça. Ocorre que vocês deveriam estar
aqui sem sinal algum de onde vieram. Ou seja, despidos. Essa era a ideia
original. Sabe, Toinho, você é um tremendo sedutor. Só encontro essa explicação
para estar abrindo os meus arquivos. Então! Nus, porém, o risco de uma pegada
seria iminente. Por isso, as vestes mínimas.
Com essa providência, reduzi o risco da pegada a meros olhares lânguidos.
O frio de bater o queixo serve para inibir ações de olhares lânguidos mais
afoitos. Entendeu, seu danado?
- Entendi. Uma
equação e tanto. Ninguém perde o tesão, mas ninguém pega ninguém. É muita
cabeça, Senhor. Agora me diga. Por que tamanho cuidado, se todos ali já deram o
que tinham de dar? Deram o que tinham de dar no bom sentido e literalmente,
porquanto ao passarem pela máquina do Tonho, o ambiente que os aguarda, o
inferno para a maioria, não permite usufruir do tesão.
- Aí é que tá,
Toinho. Existe um especial acoplamento naquele instante. Funciona desta forma:
no exato segundo em que alguém põe o dedo na maquininha do Antônio - e os
registros terrenos são expostos – um ser humano acaba de ser gerado na terra.
Com uma particularidade. Tal geração foi a primeira de alguém, seja a da
mulher, seja a do homem, e pode ter acontecido em qualquer lugar. Mais: a máquina
expõe as estatísticas, mas as deleta tão logo o Antônio dá a sentença. Ao mesmo
tempo, ela já coleta o DNA do ente em gestação. É lógico que isso só acontece
se a pessoa estiver ativada sexualmente. É lógico também que para um segundo filho
daquele casal ser gerado não precisa de dedo em maquininha nenhuma, posto a
matriz genética já ter sido desenhada. Entendeu
direitinho, seu danado?
- Entendi,
Senhor. O dedo na máquina do Tonho é o momento crucial. Botou o dedo, fu...
Desculpe, Senhor. Quer dizer, enquanto aqui o cara se acaba para sempre, lá na
terra tem sempre alguém começando.
- É isso mesmo,
Toinho. Tive que proceder dessa maneira para que a humanidade não viesse a
sofrer solução de continuidade. Do contrário, vocês não existiriam. A espécie
teria sido extinta na primeira geração. Ela subsiste apoiada no extremo prazer
sexual. O único prazer que não se esgota por causa da rotina. Entendeu de novo,
seu danado?
- Entendi, mas
não entendi, Senhor. Sou meio burro para certas coisinhas, sabe? O senhor acaba
de dizer, se entendi bem, que a rotina não acaba o prazer sexual. Por que, então,
o senhor permite que a galera fique dando seus pulinhos? Ora, se dão os
pulinhos é porque o prazer foi pro espaço, digamos assim, e alguém enjoou o
parceiro ou parceira. O senhor devia ter bolado alguma coisa nesse sentido. Posto
uma trava, a exemplo do que fez com a turma da fila. Já que não proibiu as
puladinhas, o senhor as permitiu. Concorda comigo?
- Isso é pura
provocação. O prazer é universal, Toinho. No seu discurso, ele apenas trocou de
cama. Permanece, portanto. A pergunta é: por que trocou? Aí entram as variáveis
estritamente individuais. Faltou diálogo, amor, companheirismo etc. etc. etc. Não
vejo problema nessas trocas, Toinho. Bastam que sejam feitas com a verdade e
consenso. E continuo não enxergando problemas, mesmo que não haja consenso. Só vejo
problemas se o norte da coisa tiver sido a mentira, pois ela pode dar origem a sinistros
eventos.
Você falou de
trava e de minha permissão. Entenda de uma vez por todas, Toinho. Coordeno dois
ambientes. O habitado por vocês e este aqui. Aqui as iniciativas são minhas. Daí
eu pôr a trava que me convier. Lá as iniciativas são dos senhores, ainda que de
meu conhecimento. Forneço-lhes as linhas gerais de administração, oriento-os
nas tomadas de decisões, indico-lhes o dia a dia menos espinhoso. Ajo assim,
mas o comando é de vocês. Isso se chama livre-arbítrio, Toinho. Vocês são meus
representantes, de certa forma são eu, mas são autônomos. Já imaginou que
coubesse a mim, e somente a mim, a diretriz sexual de cada um? Isso para não
citar questões mais complexas. Aí vocês não seriam vocês. É difícil de entender
essas coisas, Toinho? Está vendo por que não posso usar nenhuma trava, seu
danado?
- Tô. Mas o
pecado não é uma trava não, Senhor?
- Ah, Toinho. Vai
terminar pirando se eu falar de pecado com você. A conversa está boa, mas está
na hora de eu dar uma esticadinha nas pernas, viu ser danado? Agora vá.
Té mais.
Ele falou,
deu-me carinhoso empurrão e lá vem eu. Na gostosa banguela, abri os papeizinhos
da senha e li. Senha celestial: AMOR. Senha mundana: PRAZER.
Juro por tudo
que não é sagrado que até hoje desconheço o motivo para que todos ali me
chamassem de “seu danado”.
Será que é por
que considero o ato de escrever uma danação?
Julho/14
TC
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