SABE DE NADA,
INOCENTE!
Pela
primeira vez, Linda pensou na gravidade da situação. Coçou os ruivos,
remexeu-se na cama, foi ao banheiro. Estaria ficando louca? Seria possível
estar consciente da própria loucura?
Linda
riu.
Não.
Não estou pirando. Simplesmente estão tomando um arzinho fresco os meus mais
escondidos pensamentos. Será isso mesmo? Será que todo o mundo vive sujeito a
inconfessáveis aparições mentais? Vou colher a opinião de algumas amigas,
pensou Linda, ao mesmo tempo em que abandonava a ideia, posto ter tido
consciência da definição do termo inconfessável. Com certeza as castiças dirão
que não sabem. Não sei e o parente esqueci são eficientes porta-vozes do
cinismo. Nenhuma delas saberá de nada. São todas inocentes. Inocentes!
Linda
tornou a rir.
Linda
levantou-se do vaso, olhou pra cima,
fez umas continhas, voltou pro quarto,
abriu uma gavetona e tirou erótica calcinha vermelha. Largou na cama a
branquinha, agora encardidinha, e vestiu a sofredora vermelhinha. Já que não
tinha o hábito de lavá-las, Linda mantinha na gaveta uma das minúsculas sofredoras.
Só
de vermelhinha, Linda riu para o enorme espelho do guarda-roupa.
Linda
vive sozinha. É rica. Escreve crônicas e contos para mais de vinte jornais. Os
livros dela, então, nem se fala. Nem se fala é reforço de expressão, entendam
bem. A briga das editoras pelos originais dela também merece outro então.
Então, graças a Linda, o país se tornou top de linha em leitura. Linda é
bissexual. E é aqui que entram as calcinhas brancas e vermelhas dos vinte e
oito aninhos da contista Linda. E as
continhas feitas por ela depois do xixi.
Ah,
quer saber?
Quando
começou a namorar Honória, Linda estava usando calcinha branca havia quatro
dias. Honória cheirou-a, adorou e pediu que Linda passasse mais dias sem trocar
a calcinha. Passaram-se quinze dias de perfumoso xodó. O romance acabou, mas
ficou o costume de Linda só mudar a calcinha de quinze em quinze dias, daí a
razão daquelas continhas e da troca depois do xixi. A mania virou superstição,
pois Linda só arrumava namorada quando usava intimidades brancas e encardidas,
como se delas estivesse continuamente vazando potente química de atração
sexual.
Bom,
ainda desconhecida no meio literário, Linda encontra-se com influente editor
nacional, mostra-lhe alguns manuscritos, entre os quais um autobiográfico em
que ela expõe a crendice pela calcinha surrada. Mas Linda omite a opção sexual
por mulher. Até porque, pela segunda vez sentia-se atraída por um homem.
Conversa vai, conversa vem, rola aquele clima, brota a visita do editor ao
apartamento dela e acontece a libidinosa via de fatos. Feitas as pazes, Linda
segreda tudo ao editor. Até que havia sido ele o segundo homem na sua vida. E
que, não sabia explicar, mas fora ao encontro dele usando a mesma calcinha vermelha
que ela usara com o primeiro, oito anos atrás.
Três
anos depois, Linda se tornava fenômeno da literatura e símbolo do sexo. Para perseguir
as “vítimas”, ora usava intimidades branquinhas, ora, vermelhinhas. Mas sempre
quinzenadinhas. A superstição carnal de Linda passou para outros comportamentos
e transformou-se em obsessão pelo requinte literário. A fim de dar fidelidade
aos textos, Linda morou na rua, usou drogas, quebrou vidraças, assaltou
farmácias. Ninguém sai ileso da leitura da perfeccionista Linda. Todo escrito
dela é superlativo, merece BOs. Seja no distrito da compaixão, seja no presídio
da impiedade, seja na delegacia da indiferença.
Linda
fez ar de dúvida para o espelho, despiu-se da sofredora vermelhinha que acabara
de calçar a causa de sua dúvida, socou-se num folgado bermudão verde e foi
socada por comportada blusinha amarela. Mas desprezou o sutiã. Em seguida falou
em voz alta o costumeiro aforismo. “Sou poderosa. Sei de tudo. Tenho o controle
da situação”. Linda pôs a pistola na bolsa, ligou o carro e flagrou-se
repetindo: estarei ficando louca? Mas rapidamente se confortou: Não. Não estou
pirando. A literatura merece. Literatura precisa injetar inquietação. O leitor
tem que sentir nas costas o real chicote das palavras. O texto de amanhã ficará
na história. Vamos nessa, Linda, falou, sorriu e saiu da garagem.
Dirigia-se
à casa da irmã, onde assistiria a um jogo de futebol.
Mas
o projeto literário de Linda é extremamente satânico, de indiscutível
insanidade. Há tempos, Linda observa o marido da irmã, Lena. O cara olha pra
ela de forma possuidora, embora aja diferente na presença de outras pessoas.
Linda pensa em satisfazer sexualmente o cunhado. Ela quer transar com Laerte,
tão logo o juiz apite o início do jogo. Por isso está trajada de guerreira, sem
a feminina e o masculino. Depois, Linda pensa em descarregar a pistola em todos
que estiverem assistindo ao jogo. Inclusive em Laerte. Ela já tem até o título
do texto: ESPERMAS ENSANGUENTADOS.
Faltam
duas horas para o jogo começar quando Linda estaciona o carro na garagem de
Lena. Animação completa, alguém faz o familiar bolão do jogo. Linda, Laerte e
Lena jogam e tomam a cervejinha de aquecimento. Linda estranha o olhar de indiferença
de Laerte. Seria a ausência da vermelhinha? Não custava nada eu ter dado uma
força e ter vindo com ela. Mas não há de ser nada. Tenho o controle, estou
sabendo do caminho das pedras, pensou a supersticiosa.
Quando
a partida está prestes a começar, a galera na frente da TV, o filho do casal,
Luquinha, quatro anos, acorda e corre para os braços da tia:
“Tia
Linda, paga o meu bolão? Dois palpites”, diz ele, estirando os dedinhos.
“Pago,
meu anjo”, concorda Linda, beijando o sobrinho.
A
sala fica boquiaberta com os dois palpites de Luquinha: sete a um pra cada
seleção, o que enseja o comentário interno da tia: ele não sabe de nada. É
inocente, coitado. E o externo:
“Mude
o jogo, Luquinha. Sete a um não dá nunca, meu rapazinho”.
Luquinha
correu para o centro da sala, botou as mãozinhas na cintura e deixou todos de
queixo no chão, mesmo porque a voz saiu absurdamente amadurecida:
“Ah,
coitada! Sabe de nada, inocente”.
Silêncio.
Espanto. Sorrisos tímidos. Constrangimento. E choro. Choro de soluçar. E obrigada.
Obrigada de embevecimento.
Quem
chora e diz obrigada é Linda.
Luquinha
dera descomunal chicotada na mente de Linda. De repente ela toma consciência de
tudo. Parece tirar toneladas das costas. A visão fica limpa, o coração,
amoroso. O que eu ia fazer, minha Nossa Senhora. E eu pensando que tinha o
controle das coisas. É verdade. Não sei de nada, Senhor. A prosa de ficção não
precisa de prova alguma, porquanto ela se basta. É axiomática. Estados mentais
criminosos não devem se refrescar. Como eu era inocente, meu Deus!
Aos
prantos, Linda sai abraçando e beijando todo o mundo. Ninguém está entendendo
nada. Nada entendem, mas ficam extremamente felizes - mesmo com a derrota da
seleção deles - com a felicidade de Linda. E a de Luquinha, que não para de se
vangloriar:
“Eu
não disse?”
Julho?
TC
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