O LAVA JUMENTO E A MINA DO MELANCIA
No meu tempo de menino sambudo o
pau comia. Hoje a rapaziada não tá nem aí. São autênticos bundões. No Araçá,
quando um moleque botava apelido no colega, logo aparecia um terceiro e fazia
dois riscos no chão: “A mãe de fulano e a mãe de sicrano”, apresentava o
infeliz beltrano. Um pirralho apagava a mãe do outro com os pés e pegue
porrada. Hoje apelido tá fora de moda. Indignação também. Tanto coisa digna de
indignação neste país, mas os bundões ficam chupando o dedo e dando rabanadas.
Vi muita troca de bofetes. Dois colegas
eram famosos. Dudu de Bijane, o melancia, e Chico da Serra, o eucalipto.
Chamavam Dudu de Melancia porque, por
dentro, o cara torcia pelo América (camisola vermelha), mas, por fora, torcia
pelo Alecrim (camisa verde).
Chico tinha o DNA de empreendedor. O
sonho dele era fazer óleo de eucalipto, árvore comum na região. Daí veio o
apelido de Eucalipto.
Agora eu adorava quando as meninas
me chamavam de Tigrão. Por óbvias razões, já devem ter entendido vocês.
A gente tinha entre treze e quinze
anos. Só brigávamos para não levar o desaforo pra casa. Mas no dia seguinte
estávamos jogando bola juntos e tomando banho no rio do governo.
Como estava dizendo, Eucalipto estava
determinado a extrair óleo de eucalipto. Até que um dia ele convidou a mim e ao
Melancia para colocarmos a ideia em movimento. Ficamos, eu e o Melancia, encarregados
de elaborar o projeto. Eu por ter fama de intelectual, Melancia por ter uma
queda para assuntos químicos. Eucalipto captaria os recursos. Com um mês o
projeto estava pronto. Pelo projeto original, em dois anos tiraríamos o
investimento. Original porque o Melancia baixou o prazo para um ano, já que a
partir dali seria misturado no produto o óleo do araçá, frutinha também comum
nos nossos tabuleiros. Só faltava o dinheiro para adquirir os equipamentos. Principalmente
as prensas. Pensamos em alugar prensas de casas de farinha, mas os donos riram
na cara da gente.
Eucalipto teve um encontro com um prospector
de negócios, o cara interessou-se, disse que levaria o assunto a uma estatal do
ramo, mas exigiu uma grana a fim de que as assinaturas de certos diretores
ficassem mais legíveis. Eucalipto ofereceu 10% dos lucros, mas o abre portas
não concordou. “Vai que a coisa dá pra trás”, disse, na maior cara de pau.
Ficamos nesse impasse, até que...
Até que as cinco horas da manhã
duma segunda-feira, o Melancia e o Eucalipto me acordavam para uma reunião. Fomos
para o lava jumento, na croa, onde ficava o escritório da gente. Lava jumento,
mas lá também lavava bicicleta, fazia-se uma fezinha no jogo do bicho, apostava-se
em futebol, jogava-se sinuca, tomava-se umas e outras e via-se de pertinho a
mulherada batendo roupa. O lava jumento era do pai de Eucalipto, Seu João da
Serra. Família empreendedora, aquela.
“Temos
a grana”, disse o Melancia. Aí ele detalhou. O bisavô aparecera em sonho e lhe
dera uma mina. A mina, um cachote de dinheiro, estava enterrada no pé do décimo
terceiro eucalipto, ao norte, contado a partir do lava jumento. Melancia
deveria arrancá-la aos treze minutos da próxima sexta-feira. E assim se deu. Não
se deu, aliás. Deu mas não se deu.
Melancia
arrancou o caixote, mas dentro só havia molambo. Quer dizer, foi o que ele nos
falou. Eucalipto ainda desconfiou, achando que Melancia não quis trocar o certo
pelo duvidoso. Discordei. Esse negócio de mina é segredo. Dá furo se a história
vazar. Como Melancia havia nos contado, a grana foi por água a baixo. Certo é
que nosso projeto de ficar rico acabava ali. Fui vender jogo do bicho,
Eucalipto foi pra Marinha, Melancia foi vender banana nas feiras.
Por que
estou relatando este episódio? Vou justificar.
Sabe
o Lava Jato, o Petrolão, o escândalo da Petrobras? Pois!
Como sabem,
a polícia Federal prendeu um bocado de gente. Aí, li no UOL, sexta-feira, 21/11,
que a Federal tem perguntado à galera... Segurem-se na sela, meus camaradas. Sabem
o que é que a polícia tem perguntado? Tá doida pra saber?
Simplesmente quem são os donos dos
apelidos de Tigrão, Melancia e Eucalipto.
Aquilo foi coisa de meninos bestas,
homens de Deus.
Novembro/14
TC
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