O REI DA COCADA PRETA
É
comum aos bons cronistas fazer da falta de assunto o assunto dum texto. Comportam-se
assim na esperança de que o puxa-puxa de palavras termine por lhes dar um
assunto. Às vezes a coisa dá certo. Mas se não der não haverá problemas, já que
ele é especialista no assunto texto sem assunto. Por óbvio, não sei usar tal
expediente. Aqui, por exemplo, eu poderia enrolar linguiças e comentar sobre questões
gramaticais do primeiro período. Estaria apropriada a concordância? Seria
cabível trocar o verbo fazer por outro mais adequado? E valer-se do “de um” em vez
do “dum”? Mesmo que fosse bom de linguiça não usaria tal expediente, pois seria
o mesmo que fazer da falta de assunto o assunto do texto.
A
vantagem do mau cronista é não lhe faltar assunto. No anseio de aprender, o mau
cronista não se preocupa com a substância da prosa, escreve a respeito de tudo
e respeita tudo o que lhe ensina o bom cronista. Foi com os bons cronistas que
aprendi:
Aprendi
a fugir de sentenças longas, intercaladas com asneiras, cheias de vírgulas,
ainda que necessárias para o entendimento, e mesmo que se apresentem melódicas.
Aprendi
a correr de tolos, enfeitados, presunçosos, espetaculares e harmoniosos
adjetivos.
Aprendi
a me livrar de viciosos pleonasmos. Subo em cima deles e os encarro de frente.
Aprendi
a ficar refém da voz ativa e a não ser contaminado pela voz passiva.
Aprendi
a descrever certas cenas, a exemplo da do sujeito que não briga com as circunstâncias.
Mas
não aprendi a escrever sentenças curtas. Sou prolixo.
Mas
sou incapaz de adjetivar uma mulher. Menos para rotulá-la de linda.
Mas
sinto dificuldade de enfatizar uma expressão. Coisa minha. Própria de mim
mesmo.
Mas
sofro para dizer que agradeço aos meus pouquíssimos leitores.
Mas
me engasgo com as cachimbadas na direção dos circunstanciais empecilhos e me
machuco com as cambalhotas dadas para as censuras humanas.
A
desvantagem do mau cronista
é o bom cronista. Se ele, o bom, não existisse,
todo o mundo iria ler o mau e classificar o cara de cara.
Outra
desvantagem do mau cronista agasalha-se na suposição de que não será lido. Por isso
se torna relaxado e escreve textos tortos. Ele teria o público leitor acrescentado
em cem por cento se se reciclasse. Passaria de dois para quatro leitores. Ou até
mesmo para cinco. Falo em tese, já que o negócio pode ocorrer ao contrário,
como aconteceu com o Bião. Ao invés de sair ganhando, Bião terminou perdendo,
coitado, os dois leitores.
Bião
aperfeiçoou a escrita, passou a escrever divertidos textos culinários, criou um
blogue, saiu da crônica para o conto. Em pouquinho tempo estava escrevendo em
jornais. Doce de Leite, Pizza de Mocotó e Dindin de Remela são memoráveis
textos do Bião. Dindin de Remela não existe mais. Trocaram dindin por fruta, remela
por polpa e hoje só o que se vê é polpa de frutas. Polpa de jaca, então! Mas permanece
a expressão “caraca!”, representativa de algo excepcional. Assim como permanece
“cacilda!”, exclamação advinda do saboroso doce de leite criado pela desatenção
da cozinheira Cacilda.
Agora,
antológico mesmo foi o conto Cocada Preta, escrito pelo Bião. Antológico, mas
desgraceiro. Bião fez do conto um romance, vendeu feito água, ficou
famosíssimo, enriqueceu. O Cocada Preta abocanhou prêmios e mais prêmios. Uma delícia.
Aí o danado começou a se achar. Pôs-se a olhar empinado, desrespeitar a Lei
Seca, quebrar tudo que era norma. A imprensa caiu de pau e as redes sociais começaram
a chamá-lo do rei da cocada preta. O apelido pegou e hoje há reis e rainhas da
cocada preta por tudo que é canto. São malas e mais malas cheias de cocadas.
Certo
é que nunca mais Bião se aprumou. Quis voltar para a crônica, mas aí a literatura
balançou o dedinho do não, escondeu a inspiração e tirou-lhe a máscara de
escritor.
Como
não tinha sido bom cronista, Bião não sabia fazer da falta de assunto o assunto
dum texto.
Assunto
que é bom já era. O pobre dançou. E ficou barato.
Todo
o castigo pra “ele” é pouco.
Novembro/14
TC
Nenhum comentário:
Postar um comentário