O FLIN DAS COISAS
Pra
mim
a coisa funciona assim, mas nem sempre com essa tina de rima: o pau-mandado do
cérebro obedece à mente, que obedece a gente. Somos o dono do pedaço. Do contrário,
a coisa desbandaria e sairíamos mundo a fora fazendo tudo o que a mente quisesse.
Mente e cérebro vivem nos testando, doidinhos por emoções. Não estão nem aí para
as consequências.
Então
essa coisa de que nasci assim, sou assim, assado e não posso mudar é papo
furado. No mais das vezes contrariamos coisas concebidas pela mente, damos uma
banana pro cérebro e mudamos de atitude. Mas coisas há com que a gente se emburra
e não mudamos nem a pau. Coisa, por exemplo. Tinha uma raiva da bexiga dessa
palavra. Hoje acho um encanto de expressão. Coisar e coisando são altamente gostosas
e semânticas. Quer ver uma coisa? Andou coisanho de ontem pra hoje? Não coisa
mais não, é? Deixe de mentira. Quero ver o culto ou a culta que não coise sequer
uma vez no dia. Pense numa palavrinha metida! A gente a pronuncia no
automático. Ela é amigada com a língua. Vai e vem, vira e mexe e falamos sem
querer.
Mas
existem umas coisinhas de que não gosto e que embirro em me mudar. Ou seria “em
não me mudar”?
Shopping
serve de ilustração. Implico com ele. Não com o prédio em si, é evidente, mas com
o jeitão de certos visitantes. Não circulam lascados por ali, tampouco
endividados, tal a imponência dos gestos. A maioria anda reto, a cara por
acolá, a simpatia também. Teve um tempo que isso me divertia. Hoje me condói. O
hoje é exagero. Faz cinco anos que não vou a um.
Já
de aeroporto eu gosto. Há ali muita soberba e importância, mas, no íntimo, dá
pra intuir um quezinho de submissão. Houve um tempo que isso me condoía. Hoje me
diverte. O hoje não é tão exagerado assim. De quando em quando vou deixar ou
apanhar alguém lá.
Gosto
igualmente de barzinhos. Gosto, não, adoro. Adoro, entendam, observar a galera.
Neles não baixam lascados, endividados, nem coisas do gênero. Pode até baixarem,
concordo, mas com meia hora tá todo mundo rico, andando maneiro, atencioso, a
cara por aqui, a simpatia também.
A
exemplo de shopping, há outro trocinho de que tenho aversão: celular. Ando com
um forçado pelas circunstâncias. Uso um nóquia, modelo não sei das quantas. Tão
borocoxô que até a peliculazinha que cobre os algarismos já está caindo. Já caíram
o 4 e o 5, e o 1 e o 3 estão cai não cai. Não passam quatro anos, creio. Mas,
por segurança, vou comprar um moderninho. Vai que sou assaltado! Quando o cara vir
o peste vai me cobrir de porradas. E com razão.
Agora
deixe-me falar dum tema do qual me eximia de arbitrar. Refiro-me a feiras
literárias. Feira, festa, festival, tanto faz. Pois bem, de seis a oito deste
onze de quatorze foi realizado o Festival Literário de Natal (Flin). Passei lá.
Pela primeira vez compareci a um evento desses. Achei legal, devo voltar. Dizem
que há muito oba-oba nas palestras, mas a elas não assisti. Não convém opinar.
Mas
opino e dou nota dez acerca deste papo. Sucedeu de eu me encostar num quiosque e
pedir um suco de laranja. Duas senhoras saboreavam uma salada e conversavam:
-
Estás a ver a minha situação...
-
Sim, realmente. Devias mandá-lo bugiar.
-
Isso é muito fácil de dizer.
-
Também é verdade.
-
O pior é que depois chega à noite, na cama, e quer que eu sirva mini pratos.
-
Mini pratos?
-
Dar uma de borla. Tu sabes.
-
Ah, sim, claro.
(Essa
delícia de conversa se dava entre duas senhoras lisboetas. Provavelmente acompanhavam
o poeta português Gastão Cruz, que falava sobre o Século de Ouro da pátria poesia.
Brincadeirinha, gente. O poeta dissertou no Flin, é verdade, mas a conversa eu
roubei da genial escritora portuguesa Patrícia Reis, de quem me penitencio de
mãos estiradas. A postagem é de três do onze e chama-se Mini Prato.)
Novembro/14
TC
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