Pontos de vista e pontos de ativista
Diabinhos
literários tiram plantões, sim, na cachola de escrevinhadores. Havia semanas,
um bando deles me azucrinava por causa de um texto em gestação:
Escreve
essa porra, cara. Escreve fazendo um joguinho com a galera. Escreve. Só tens a
ganhar. No mínimo, zombarias. Pensando melhor. Podes ganhar também pauladas de
lulistas e de bolsonaristas. Vai, escreve.
Então
vou escrever e fazer o joguinho.
Tudo
começa, gente fina, há coisa de dois meses, quando leio um articulista de jornal
e me deparo com este destaque no miolo do artigo:
“Mas
isso é o meu ponto de vista. Não tenho a pretensão de convencer ninguém”.
Passo
dias incomodado com a cautelosa sentença. Pois bem. Agora, no fim de agosto, leio
idêntico enunciado no Estadão - o primeiro foi num jornal natalense.
Entendo
a cautela dos articulistas. Mas, se o ponto de vista não foi para convencer
ninguém, fico me perguntando o motivo de tê-lo exposto. Levantar a bola de um
assunto, fazer alguém refletir, coisas assim, dirá você, gente fina. Isso faz
parte do contexto, é certo, mas a defesa do ponto de vista está escondida no
levantar da bola, no alguém refletir e no coisas assim. Analise a essência de
pontos de vista:
Ponto de vista é postura em relação a algo, enfoque,
opinião, visão, convicção.
Já viu um ponto de vista nascer, gente fina? Bote a máscara. Acompanhe o parto:
Estados
mentais e outras coisinhas invadem a imaginação e transformam-se em pensamentos
de interesse. Em seguida, esses pensamentos procuram a mente. A mente terá duas
opções. Atender na hora o pensamento ou enviá-lo para o cérebro.
Essa
transição funciona assim: um pensamento brasileiro de ir à Paris naquele
momento será atendido na bucha. “Vá”, autoriza a mente. Já o pensamento de
juntar dinheiro a fim de viajar para Paris será enviado ao cérebro para fins de
processamento.
O
cérebro é um idiota pau-mandado da mente. É pau-mandado porque fica processando
sem crítica alguma os pedidos da mente. E é idiota porque fica transformando pedidos
de execuções negativas em positivas. Não existe o “não” na memória do cérebro. Se
a sua mente, gente fina, pedir ao cérebro para fazê-lo não chupar certa laranja,
o cérebro vai esquecer o “não” e processar um pedido de chupar laranja. O
pedido correto seria jogue (ou não jogue) a laranja no lixo.
O
cérebro, pois, recebe da mente determinado pedido de processamento. Processar,
gente fina, significa transformar pedidos em interesse. Então. Acatado particular
pedido, o cérebro transforma-o em interesse e o envia para a central de
execução, nós, no caso. Mas o recebimento do interesse não implica execução
imediata. A execução é prerrogativa nossa. Até porque, e isso aqui pra nós,
gente fina, o idiota do cérebro nos manda muita merda, mano. Na cabeça dele,
tudo processado é de nosso interesse. Então. Recebemos o interesse. E agora? Transformamo-nos
em ação ou não? Depende, depende...
Depende
de especialíssimo personagem. Chamavam-no de talante, depois mudaram para
alvedrio. Hoje o chamam de livre-arbítrio. É o livre-arbítrio quem faz a
avaliação do interesse. Se a execução lhe convier, a liberação chegará a você
assim, gente fina:
Pode ativar isso, irmão. Ou irmã, naturalmente.
Aí
você elabora um ponto de vista sobre aquele interesse e o sai verbalizando,
argumentando, negociando pelo mundo a fora. O mundo é gigantesco shopping de
pontos de vista.
Viu?
Você, gente fina, acaba de parir um ponto de vista e de se tornar um ativista
dele.
Deixe-me
falar mais uma coisinha sobre ponto de vista. Sujeito ou sujeita, você me
parece legal. Vou falar de você, então. Você transporta um ponto de vista preponderante
e milhares de pontos de vista periféricos. Diante um leque de escolhas de
vivências, um ponto de vista periférico consulta o ponto de vista preponderante
a fim de decidir por esta ou aquela vivência. Os mais famosos pontos de vista preponderantes
chamam-se moralidades, éticas, valores e crenças. É bom ter isso em mente,
gente fina, antes de criticar a decisão de alguém. Lembre-se: uma decisão
passou por cansativo processo de escolha. Saber disso, gente fina, não o tornará
perito em bolsa de valores, mas o tornará especialista em filosofias de
botecos.
Bom.
Visitemos os articulistas dos jornais. No caso deles, o periférico ponto de
vista é o da opinião. Agora, ponto de vista fodão é o elaborado com base na
convicção. No jogo da vida, a convicção vive ganhando da verdade. Exceto quando
o ponto de vista foi formado por convicções embusteiras, tendenciosas, essas
coisas. E outras.
Vou
lhe dar, gente fina, dois históricos exemplos de pontos de vista baseados na
convicção. No primeiro, o ativista é um tal de JC. O ponto de vista do JC
ancora-se na fraternidade e na compaixão. Convicto do bem derivado dessas
palavrinhas, o JC peita o império romano, haja vista a ausência desses preceitos
naquele império. Resultado. Empurram pregos no corpo do JC. Mas, graças ao compassivo
ponto de vista - baseado na convicção, repito - até hoje o JC é mundialmente reverenciado.
No
segundo exemplo, o ativista é um tal de AH. O ponto de vista do AH ancora-se na
brutalidade e rejeição. Convicto da prevalência de preconceitos raciais, o AH
patrocina as mais desumanas atrocidades contra os não partidários de seu ponto
de vista. Mas, em repúdio ao insano ponto de vista - baseado na brutal
convicção, repito – até hoje o AH é mundialmente execrado.
Precisa
analisar bem um ponto de vista, gente fina. Ativistas podres existem em banda de
lata neste mundo do meu Deus. Negociantes do ramo da vilania ficam se batendo
no gigantesco shopping da vida. Como identificá-los? Pela infalível leitura do
mundo. Leitura do mundo significa... Ah, já é bem crescidinho, não é, gente
fina? Mas é bom relembrar o princípio 1: ler o mundo é saber se o dito e o escrito
batem com atitudes.
Então.
Dizia essas coisas para os diabinhos literários, manifestava a intenção de
ilustrá-las com dois famosos ativistas brasileiros, o Lula e o Bolsonaro, porém
pensava em desistir por causa da extensão do texto e tal. Mas aí os sacanas me
deram corda e acabou nesta lambança.
Vou
começar a ilustração pelo ativista Lula. Ligadão nas coisas do mundo, gente
fina, você deve ter acompanhado a recente eleição presidencial na Venezuela.
Deve conhecer bastante a postura ditatorial do presidente Maduro. Ditador de
primeira baixeza, garantem os antenados leitores do mundo. Pois bem, no auge da
campanha, falcatruas ditatoriais bombando na Venezuela, imprensa internacional
denunciando, o Lula faz os leitores do mundo taparem o nariz ao ativar um
fedorento ponto de vista ancorado na desfaçatez:
“Não
vejo nada grave na eleição da Venezuela”.
Não
suporto o malcheiroso e solto um porraé, Meus botões botam as mãozinhas na
cabeça e uma amiga libera bem alto a sua expressão predileta para espantos
potencializados: “META-SE”.
Lula
acaba de me chamar de acriançado, ingênuo, infantil, essas coisinhas. E outras.
Dias depois, o Lula acrescenta uma pitada de fedor no malcheiroso ponto de
vista da desfaçatez ao sugerir:
“O
melhor pra Venezuela é o Maduro fazer outra eleição”.
Lula,
gente fina, acaba de acrescentar palerma, desmiolado, leso, babaca na lista de
seus adjetivos pra mim. Como adjetivo pouco é bobagem, Lula se expressa assim,
passados cinco dias de ter aumentado a listagem de adjetivos:
“A
Venezuela não é uma ditadura”.
Boto
as mãos na cabeça, meus botões soltam um porraé e a amiga tasca outro META-SE
antes de um “Agora torou dentro”.
Lula
acaba o estoque do setor de imbecilidades das lojas de adjetivos. Compra e os
larga na soleira de meu discernimento. A desfaçatez do Lula é uma carniça reprovada
pela leitura do mundo.
Chegou
a vez do ativista Bolsonaro, gente fina.
Não
falarei de ditadura. Bolsonaro não é ditador. Mas apresenta todas as
ferramentas para tal, sejamos justos com ele. Truculento, arengueiro, desrespeitoso,
insensível. Diz isso dele a leitura do mundo. Diz mais. Diz ser o autoritarismo
o seu ponto de vista preponderante.
Mas
Bolsonaro, gente fina, só entrou agora aqui por causa de outra coisinha, o
horário eleitoral para a eleição municipal de outubro. Explico. Fico todo
arrepiado quando ouço dois candidatos a vereador encerrarem assim os segundos
deles no rádio: “Sou fulano de tal, número tanto e tanto, o candidato de
Bolsonaro”.
Gente
fina, gente fina, como um candidato tem a coragem de pedir votos usando como cabo
eleitoral um ativista do autoritarismo e da desumanidade?
Como
ousa atacar assim o nosso ex-presidente, dirá você, gente fina. Não estou
ousando nada. É o próprio Bolsonaro, gente fina, quem se declara desumano. E usa
apenas cinco palavrinhas para se declarar. Acontece no auge da pandemia covid-19, no
contexto de assombroso número de mortes brasileiras para um único dia. Ao
responder a uma jornalista sobre esse número, o presidente dos brasileiros
destampa o esgoto da excrecência:
“Não
sei. Não sou coveiro”.
Aí,
gente fina, Soltei um pqp, tapei o nariz e agucei as ouças a fim de ouvir o “meta-se”
de minha amiga. Não ouvi. Minha amiga chorava.
Sugiro-lhe,
gente fina, uma viagem às entranhas da resposta presidencial. Viajou? Percebeu?
O presidente foi desumano não só com as famílias dos defuntos brasileiros, mas
também com as famílias do mundo inteiro. Somos todos filhos de Deus, diz a
religião. Somos todos Homo sapiens, diz a ciência. Somos todos irmãos,
portanto. Apertos de mãos, abraços, bons-dias e beijinhos representam contundentes
gestos de irmandades.
O
presidente tossiu, coçou o nariz e jogou as porcarias nas covas dos irmãos. E
ainda ficava falando. E continua falando: “Deus, pátria e família acima de tudo”.
O
presidente foi à loja de adjetivos - da qual o Lula é cliente - correu pra
prateleira dos “dês”, encheu uma mochila de desdém, desconsideração, desacato, desprezo,
desqualificação e jogou a mochila na fuça do povo.
Questionado
sobre a repugnante resposta, o presidente usou o ponto de vista da liberdade de
expressão para justificá-la. Ponto de vista seguido pelos xeleléus, acrescento.
Liberdade,
gente fina, é a palavra síntese para “grau de independência legítimo”. Esse grau
implica ninguém precisar de autorização de ninguém para fazer algo, seja qual
for a natureza do algo. A condição é o algo ser legítimo. E legítimo é qualquer
coisa justificada pela justeza, pelo bom senso, pela razão, pela cultura, pela
razoabilidade.
Assassinar,
roubar, extorquir, assim como humilhar defunto, ironizar luto, pisotear
compaixão, essas coisas, e outras como incitar intrigas, propagar mentiras,
estimular desordens, e outras mais, levam zero em razão, em bom senso, em
cultura, em razoabilidade. Nada disso é legítimo, gente fina.
Só
teve uma coisinha legítima na resposta do presidente, gente fina: a arrogância.
O grau de independência dele não lhe dava o poder de esvaziar as narinas na
cova de ninguém.
No
meu ponto de vista (sou ativista da razoabilidade, gente fina) a resposta do presidente
passou longe do razoável. Por isso, o presidente não teve – não tem e não terá
- a minha confiança. E a razão salta aos olhos. Ora, se o presidente não
consegue ser razoável em algo tão humano, como posso antever razoabilidade nas
decisões políticas, institucionais e administrativas?
“Nossa,
TC. Pegou pesado com o cara. A vida é assim. Deslizes acontecem. O presidente
não vai ser irrazoável em tudo. Cadê o ponto de vista da razoabilidade, TC? As
coisas sempre funcionaram assim, TC”.
Deve
estar pensando com esses assim, não é, gente fina? As coisas sempre funcionaram
assim, é certo. Mas precisa funcionar sempre assim? Já imaginou se os cientistas
tivessem se acomodados com o “sempre funcionou assim”.
Sobre
o “deslizes acontecem” da resposta do Bolsonaro, pense comigo, gente fina. Nossas
índoles vão sendo forjadas ao correr dos anos. Uma das índoles do presidente é
catarrosa. Então ele vê na pergunta da repórter a oportunidade de exercitá-la.
Só isso. Não houve deslize, gente fina.
Algo
parecido ocorre com um dos mais estúpidos pontos de vista popular. Este. “A ocasião
faz o ladrão”. Mentira, gente fina. O indivíduo já tem a índole delituosa – a
inclinação ruim, como diz aquela amiga - quando avista a “ocasião” e dela se
apodera. A “ocasião” prova a integridade, isso sim. O indivíduo de índole
íntegra vê a “ocasião” e pergunta de quem ela é.
Bom.
Voltemos ao uso do Bolsonaro como cabo eleitoral de certos candidatos. Pensei
assim, gente fina, na época do “não sou coveiro”. Caramba! Com tamanho escárnio,
o Bolsonaro só vai ter o voto dos xeleléus. De 5 a 6 milhões de votos, se muito.
Qual nada. O ponto de vista do autoritarismo gerou 58 milhões de ativistas. Ou
de votos.
Aí
veio o 8 de janeiro do 23, com a leitura do mundo mostrando o dedão antidemocrático
do Bolsonaro. Agora o Bolsonaro lascou-se
de vez politicamente, pensaram os meus botões.
Qual
nada de novo, gente fina. A prova vem dos dois candidatos a vereador alardeando
a preferência do Bolsonaro por eles. E candidatos a prefeito repetindo o “Deus,
pátria e família”. É de dar dó a postura mediática de certo candidato a
prefeito de minha cidade. Rápida leitura corporal mostra o rapaz recitando a
opinião dos outros.
Entenda,
gente fina. A liberdade de votar nesses candidatos é legistíssima. Aplausos
para a democracia. Mas é assombroso o número brasileiro de jejunos – termo comum
nos textos de meu articulista preferido – em questões de política partidária. E
de outras.
Os
ativistas do ponto de vista da razoabilidade estão atônitos com a desenvoltura
dos ativistas do ponto de vista do autoritarismo. E chocados com o descaramento
dos ativistas do ponto de vista da desfaçatez.
Tempos
estranhos, gente fina. Falta-nos bastante leitura do mundo. E de outras.
Só
a educação na causa.
Inté
Ah,
gente fina, lembra-se de minha promessa aos diabinhos literários? Pois cumpri. Tem
um joguinho no texto. Não se trata de exibicionismo ou coisas do ramo. O que acontece?
Meus neurônios têm 74 abris. Não devo dar mole para alguns, entende? Sobretudo os
da criatividade. Esses precisam trabalhar em dobro. Do contrário, ficam
dementes. Não direi qual foi o jogo. Mas vou dizer.
Não
tem o “que” no texto. Tinha notado? Perdeu pra mim, gente fina? Na Sisi
Confidencial e no COISAS tem mais textos sem o que.
No
9 do 24,
Abraços
do TC
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