Gandhi, o cambista e o por quê
Tive leve arranca-rabo
com uma nobre leitora, a Claudíssima, em razão da última postagem desta
Pocilga, a Pontos de Vista e Pontos de Ativista. Escrita sem o
“que”, a postagem fez a nobríssima leitora calçar as tamancas da ironia:
“Modéstia e singeleza têm pra dar e vender na
simplicidade de seu texto”.
E, pra não deixar duvidosa
a descortesia:
“Cavalar pedantismo, vizinho”.
A nobre vizinha falou
assim, gente, mesmo eu tendo dito no rodapé da postagem que a ausência do “que”
era tão somente uma tentativa de amolar os neurônios da criatividade. Mas ela só
começou a amansar, aquiescer, emudecer, essas coisas, e outras, quando lhe
disse que a minha rixa com o “que” era antiga e que havia 11 anos eu hospedara
no Amazon um escrito de 222 páginas sem usar o “que”. E que dera ao livro o
título de QUÊ?!” Nisso, ela entra no ebooks Kindle/Amazon e compra o QUÊ?! Sim,
a vizinha, agora empolgada, compra também as minhas mais recentes criações, o COISAS
e a Sisi Confidencial. Saí no lucro.
A verdade, gente
, é que a minha rixa é com o “por que” e não com o isolado “que”. Se bem que julgo de tremenda anemia literária 7 ou 8 quês num parágrafo de 4 ou 5 linhas.Virei inimigo do “por
que”, gente, ainda na escola do jogo do bicho. Escola, sim. Vou ilustrar. A
pessoa jogava no 6 (cabra) e no 8 (camelo). O cambista falava: “Por que não
joga também no carneiro (7), já que ficou imprensado? A pessoa dava de ombro e
ia embora. Esse “por que” é agressivo. Não agrega nada. Tá mais pra oportunismo
do cambista, pensava eu. Nessa hipótese, eu dava na jugular imaginativa do
jogador:
“Jogo do bicho é o cão, fulano. Vamos torcer
pro bicho não ser carneiro, já que imprensasse o marrento. Mas sou daqueles que
acham menos doloroso se arrepender do feito do que do não feito”. O jogador
sempre ficava matutando. E sempre funcionava.
A cada dia, o “por que”
ficava mais incomum no meu linguajar. Até que em certa tarde, num livrinho de
bolso, dou de cara com instigante historinha sobre o “por que”. (eu tinha de 18
pra 19 anos. Já era viciado em leitura, gente). A historinha falava de Mahatma Gandhi.
Vocês devem conhecer a versão histórica dessa historinha. A versão verdadeira,
contudo, é praticamente desconhecida. Relembrem a versão histórica:
Agora vejam a versão
verdadeira, segundo o bendito livrinho:
Gandhi está sentadinho no
trem quando um rapazola entra, irado, e joga a alpercata pela janela. Já visto
na Índia como emergente líder espiritual, Gandhi decide estudar o episódio e
pergunta ao jovem o que teria levado à atitude tão inusitada:
Porque fiquei só com uma
bosta no pé (o tradutor usou essa palavra mesmo), porque me deu vontade, porque
a janela estava aberta. Gandhi escuta os impropérios com espaçoso sorriso. Por fim,
fala:
Não usei o por que interrogativo,
meu rapaz. Perguntei o que levou você a se desfazer da alpercata. O que,
intimamente, o fez...
E que diferença faz,
moço, rebate o rapaz.
Toda diferença do mundo,
meu rapaz, responde o Gandhi. Entenda. Mesmo sem eu usar o por que, você já
ficou arredio, pois me viu querendo me meter na sua vida. Mas a indagação do que
levou a se desfazer da alpercata não tinha...
Nesse ponto, o livrinho gasta
21 páginas para descrever o diálogo entre o Gandhi e o rapaz. Umas 10 só para demonstrar
as armadilhas no uso do “por que”. “Mas óia só”, foi essa a minha reação ao perceber
a sintonia entre mim e o Gandhi. Ainda tenho o livrinho, gente. Foi ele, aliás,
que me inspirou a escrever Por uma Taça de Vinho. O e-book também
tá no Amazon, sabiam?
Pra você não ficar
dizendo que sou embusteiro, vou transcrever duas falas do Gandhi pro rapazola sobre
o uso do “por que”:
- Por que não fez isso,
por que fez aquilo, meu rapaz, carrega o tom de censura e o viés de confronto.
E faz o interlocutor catar justificativas e procurar desculpas. E, dependendo
do tom de voz, meu rapaz, faz nascer florescente pezinho de intriga.
- O líder verdadeiro sabe
disso, meu rapaz. Ele não usa o “por que”. Ele busca solução e não confusão. O líder
verdadeiro utiliza as variações linguísticas para substituir o “por que” e assim
corrigir rumos sem possíveis atropelos.
É claro que existem líderes
e líderes. Alguns acham que o certo é ter papo reto, ser incisivo, ir direto ao
ponto e coisas tais. Mas aí... Aí ninguém aguenta a catinga do autoritarismo.
Bom, sei que me estendi,
mas preciso relatar este caso. Há uns 15 anos, comprei um Ronda Civic. Um amigo
parente – ou parente amigo – falou-me assim:
Carrão, Tião. Mas, me
diz, por que não comprasse o (aí ele falou a marca de outro carro, mas não me
lembro mais dela. Lembro que era da família do Civic). É um pouquinho menor do que
este, Tião, mas é bem mais em conta e mais econômico. O custo-benefício é
enorme, cara.
O amigo parente acabava
de me chamar de burro, não? Ora, é razoável imaginar que a pessoa que vai
comprar um carro – ou um bem de valor expressivo – faça um estudo e opte por
aquilo que foi planejado, estudado, pesquisado, essas coisas. E outras. O parente
amigo não quis saber disso. Caiu como um patinho na armadilha do “por que”.
É isso, gente.
E aí? Vai fazer uma
fezinha no carneiro, não? O número do carneiro é 7
Não?
POR QUÊ?
No 10 do 24,
Tião Carneiro
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