sábado, 8 de março de 2025

DIA INTERNACIONAL DA BEATRIZ

 



Oito de março. Dia Internacional da Mulher. Textos e mais textos em homenagem às mulheres se deitarão nas redes sociais. Este, contudo, não será mais um do justo oba-oba. Ou será?

 

DIA INTERNACIONAL DA BEATRIZ


Bezerra ficou de mutuca nos quatros cantos da piscina para ver em qual deles a Beatriz iria aparecer. Dificilmente errava o ponto. Tinha o faro bom para essas coisas. Apostara no canto do barzinho. Bezerra errou feio: Beatriz apareceu na quina em que mergulhara:

“Dado seu olhar de decepção, perdeu a aposta, não foi, meu nobre, Bezerra?”, gritou Beatriz, sorrindo.

Bezerra deu uma coçadinha na cabeça, estirou a língua e ficou a admirá-la. Quis ir lá, mas preferiu deixar a Beatriz com os pensamentos dela.

Se quisesse papo, a Bia teria vindo aqui, matutou.

Beatriz caminhou até à mesinha do pé de palmeira, seu sítio predileto. Gostava daquele cantinho porque era ali que os amigos bem-te-vis tinham o hábito de saudá-la. Acomodou-se, ligou um sonsinho, beijou o buquê que de manhãzinha o marido lhe aninhara nos seios, descascou uma banana e se pôs a saboreá-la. O ser humano é engraçado, pensava Beatriz, referindo-se ao comportamento dela e ao do marido naquele oito de março, Dia Internacional da Mulher e o de seu aniversário.

Em todos os anos, naquela data, o casal largava as obrigações profissionais e abraçava o amador ritual de ficar na cama até tarde. Obrigavam-se tão somente em agradecer a graça divina de se amarem. Depois isolavam-se na piscina, onde brincavam de tica, beliscavam petiscos, dançavam. Curtiam-se, enfim.

Beatriz releu a releitura da mensagem de aniversário anexada ao vermelhão do buquê:

Pessoas nobres recebem, em dias de aniversário, auras cósmicas que as iluminam. Simultaneamente, porém, repassam essa irradiação divina aos amigos que delas se aconchegam. Porque aconchegado já vivo, sinto a cada segundo o resplendor dessa dádiva.

Parabéns, Beatriz. Pelo aniversário e pelo seu dia que é todo seu.

Beatriz queria palavras

para descrever o amor pelo marido. Escrever e estilizá-las, posto que, desprotegidas, as palavras podem esmaecer com o tempo. Mas inexistiam palavras cujos significados exibissem a seiva da entrega incondicional. Amo-o mais do que tudo na vida diziam apenas o óbvio. E Beatriz fugia de obviedades.

Ouvir e não dar ouvidos a certas falas é escutar a sabedoria. Esse é o lema da Beatriz. Mas a sábia surdez não é a voz da alienação. Beatriz diverge do marido, sim. Divergências, discórdias, desacordos, discussões e outros danosos dês existem na convivência deles, sim. Brigam, é verdade. Mas, passados minutos, estão se abraçando e brigando de verdade.

“Do todo seu e somente seu” fez Beatriz chorar. Chorando e sorrindo, fez finca-pé e mergulhou na piscina.

Bezerra viu o vulto correndo e ficou alerta. Tremenda gazela, falou consigo, depois de mais uma coçadinha na cabeça. Ah se meus pensamentos chegassem aos ouvidos dela. Diria que a amo, que a venero, que a idolatro

Bezerra adorava os franzidinhos dos olhos da Beatriz, aplaudia o jeito de ela jogar o cabelo pra trás, arrepiava-se com a maciez das mãos dela em seu corpo. Nada lhe faltava. Parecia que a Beatriz adivinhava os secretos pensamentos dele.  Tinha por ela uma fidelidade canina, ainda que ficasse meio chateado em razão da exclusividade amorosa que a Beatriz exigia dele. Ela confundia fidelidade com exclusividade. Ele era exclusivo no instante em que estava dando atenção a ela, mas a exclusividade se dirigia para pessoa distinta tão logo a atenção mudasse de foco. E isso Beatriz não queria entender. Achava que a exclusividade a alguém implicava infidelidade a ela ou então...

Beatriz apareceu no centro da piscina, acenou pro Bezerra, como se o estivesse chamando, e voltou a mergulhar. Bezerra apostou que ela sairia no local em que ele estava e voltou a mergulhar nos pensamentos:

Em dadas ocasiões, fico de venta acesa por causa das tretas do esposo da Bia pra cima dela. Evangélico intransigente, para ele amarrar o bode basta vê-la tomando vinho ou cerveja nas habituais discussões filosóficas com as amigas. Se tiver homem no meio, então... Ele peita a Bia assim que a galera vai embora. Vê-la arrumando a mala para encontro de trabalho da Receita Federal também é o bastante para deixá-lo emburrado. Engraçado que a Bia até faz a mala dele para os festivos seminários médicos. Não entendo. Ele diz amar a Bia, mas logo quebra o primeiro fundamento do amor, a liberdade. A liberdade de ela fazer de forma legítima o que gosta. Amor sem liberdade? Quem já viu? Ele a ama pro mundo, é certo, mas, espiritualmente, fica dizendo que a Bia só tem a plenitude de seu amor se ela se comportar igualzinho a ele. Liberdade condicionada, nossa! Escuto essas coisas, mas não solto sequer um grunhido. O Felipe ainda fica se coçando, mas o Bem fecha o bico e sai de fininho. “A Bia é uma gata santa, Bezerra, mas tô vendo a hora ela transbordar com o marido”, brinca comigo o Felipe.

Idiotas certos humanos. Não é possível que não conheçam o princípio número um da vida. Deviam assistir à primeira e única reunião que temos com o camarada leão, o nosso rei. Fala assim:

Camaradas, usem o princípio número um do criador-mor: a liberdade. São livres, camaradas. Assim como o criador-mor, não cobro nada de vocês. Não caiam na lábia de contribuir com rações para picaretas como o camarada tigre e a camarada cobra. Não imitem a postura dos humanos de humilhar a natureza. Como sabem, covardes opressores humanos pegam uma corrente d’água, colocam barreiras nos lados e tiram a liberdade de a água caminhar como a ela convém.

Bezerra breca o fluxo libertário, já que as ondas da piscina sinalizam o aparecimento da Beatriz no canto apostado por ele. Tiro e queda. Beatriz surge molhada de beleza e luxúria. E de outras coisinhas.

Bezerra ri. Ou melhor, mostra os dentes.

Beatriz senta-se ao lado de Bezerra, alisa-lhe o focinho, abre a boca a fim de soltar uma graça, mas um barulho faz os dois desviarem a atenção para aquela direção.

“Meu gatão”, diz Beatriz, pondo Felipe, o gato dela, sobre a toalha que lhe cobria as coxas.

Bezerra presencia o afago, finge indiferença, mas fica rosnando de ciúme. Mas rapidamente o tange. Assim como não sou exclusivo dela, ela também não é exclusiva minha, pensa, sorrindo. Ou melhor, mostrando os dentes.

É nesse clima que o Dr. Rafael, o marido da Beatriz, encontra os quatro - já que o Bem acaba de juntar-se a eles - quando chega do mercadinho:

“Maçã pra você, querida, peixe abiscoitado para o nobre Felipe e ração de cordeiro para o nobre Bezerra. Não encontrei nada pra você, Bem. Vê se acha alguma coisa no pé da palmeira ou na romã”.

Bem libera um te-vi, te-vi e dá um rasante pro pé de romã. Beatriz serve-se duma banda de maçã, serve-se dos “nem me pega, nem me pega” para atiçar o marido e pula na piscina. Dr. Rafael mergulha atrás.

Bezerra e Felipe se entreolham. Conjecturam. Bezerra aposta que o casal aparecerá no pé da palmeira. O faro de Felipe não é lá essas coisas, mas ele tem certeza de que surgirão realmente na palmeira. Já assistira àquele filme várias vezes. Aparecem e começam a chupar língua. Dali a minutos a Bia começa a gemer. Não dá outra: o casal sai no pé da palmeira. E se danam a chupar língua.

“Sabe, Bezerra. Ainda dou umas unhadas nesse doutor que é pra ele deixar de machucar a Bia”, jura o Felipe.

Jura e corre para o pé da palmeira. Bezerra também. O Bem já estava lá. Mas ficam de boa. Apenas conferem os machucados de línguas.

O te-vi do Bem, o miau do Felipe e o latido do Bezerra, todos repetidos e ao mesmo tempo, revelam a certeza de que o trio estava dando duplo parabéns para a Beatriz.

É isso.

Junto-me ao humanizado trio para lhes dar os parabéns, garotas.

 

No 8 do 3 do 25,

TC



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