Oito de março. Dia Internacional da Mulher. Textos e mais textos em homenagem às mulheres se deitarão nas redes sociais. Este, contudo, não será mais um do justo oba-oba. Ou será?
DIA INTERNACIONAL DA BEATRIZ
Bezerra ficou de mutuca nos quatros cantos da piscina para ver em qual deles a Beatriz
iria aparecer. Dificilmente errava o ponto. Tinha o faro bom para essas coisas.
Apostara no canto do barzinho. Bezerra errou feio: Beatriz apareceu na quina em
que mergulhara:
“Dado seu olhar de decepção, perdeu a aposta, não
foi, meu nobre, Bezerra?”, gritou Beatriz, sorrindo.
Bezerra deu uma coçadinha na cabeça, estirou a
língua e ficou a admirá-la. Quis ir lá, mas preferiu deixar a Beatriz com os
pensamentos dela.
Se quisesse papo, a Bia teria vindo aqui, matutou.
Beatriz caminhou até à mesinha do pé de palmeira,
seu sítio predileto. Gostava daquele cantinho porque era ali que os amigos
bem-te-vis tinham o hábito de saudá-la. Acomodou-se, ligou um sonsinho, beijou
o buquê que de manhãzinha o marido lhe aninhara nos seios, descascou uma banana
e se pôs a saboreá-la. O ser humano é engraçado, pensava Beatriz, referindo-se
ao comportamento dela e ao do marido naquele oito de março, Dia Internacional
da Mulher e o de seu aniversário.
Em todos os anos, naquela data, o casal largava as
obrigações profissionais e abraçava o amador ritual de ficar na cama até tarde.
Obrigavam-se tão somente em agradecer a graça divina de se amarem. Depois
isolavam-se na piscina, onde brincavam de tica, beliscavam petiscos, dançavam.
Curtiam-se, enfim.
Beatriz releu a releitura da mensagem de
aniversário anexada ao vermelhão do buquê:
Pessoas nobres recebem, em dias de aniversário,
auras cósmicas que as iluminam. Simultaneamente, porém, repassam essa
irradiação divina aos amigos que delas se aconchegam. Porque aconchegado já
vivo, sinto a cada segundo o resplendor dessa dádiva.
Parabéns, Beatriz. Pelo aniversário e pelo seu dia
que é todo seu.
Beatriz queria palavras
para descrever o amor pelo marido. Escrever e estilizá-las, posto que, desprotegidas, as palavras podem esmaecer com o tempo. Mas inexistiam palavras cujos significados exibissem a seiva da entrega incondicional. Amo-o mais do que tudo na vida diziam apenas o óbvio. E Beatriz fugia de obviedades.Ouvir e não dar ouvidos a certas falas é escutar a sabedoria.
Esse é o lema da Beatriz. Mas a sábia surdez não é a voz da alienação. Beatriz
diverge do marido, sim. Divergências, discórdias, desacordos, discussões e
outros danosos dês existem na convivência deles, sim. Brigam, é verdade. Mas,
passados minutos, estão se abraçando e brigando de verdade.
“Do todo seu e somente seu” fez Beatriz chorar.
Chorando e sorrindo, fez finca-pé e mergulhou na piscina.
Bezerra viu o vulto correndo e ficou alerta.
Tremenda gazela, falou consigo, depois de mais uma coçadinha na cabeça. Ah se
meus pensamentos chegassem aos ouvidos dela. Diria que a amo, que a venero, que
a idolatro
Bezerra adorava os franzidinhos dos olhos da
Beatriz, aplaudia o jeito de ela jogar o cabelo pra trás, arrepiava-se com a
maciez das mãos dela em seu corpo. Nada lhe faltava. Parecia que a Beatriz
adivinhava os secretos pensamentos dele. Tinha por ela uma fidelidade
canina, ainda que ficasse meio chateado em razão da exclusividade amorosa que a
Beatriz exigia dele. Ela confundia fidelidade com exclusividade. Ele era
exclusivo no instante em que estava dando atenção a ela, mas a exclusividade se
dirigia para pessoa distinta tão logo a atenção mudasse de foco. E isso Beatriz
não queria entender. Achava que a exclusividade a alguém implicava infidelidade
a ela ou então...
Beatriz apareceu no centro da piscina, acenou pro
Bezerra, como se o estivesse chamando, e voltou a mergulhar. Bezerra apostou
que ela sairia no local em que ele estava e voltou a mergulhar nos pensamentos:
Em dadas ocasiões, fico de venta acesa por causa das
tretas do esposo da Bia pra cima dela. Evangélico intransigente, para ele
amarrar o bode basta vê-la tomando vinho ou cerveja nas habituais discussões
filosóficas com as amigas. Se tiver homem no meio, então... Ele peita a Bia
assim que a galera vai embora. Vê-la arrumando a mala para encontro de trabalho
da Receita Federal também é o bastante para deixá-lo emburrado. Engraçado que a
Bia até faz a mala dele para os festivos seminários médicos. Não entendo. Ele
diz amar a Bia, mas logo quebra o primeiro fundamento do amor, a liberdade. A
liberdade de ela fazer de forma legítima o que gosta. Amor sem liberdade? Quem
já viu? Ele a ama pro mundo, é certo, mas, espiritualmente, fica dizendo que a
Bia só tem a plenitude de seu amor se ela se comportar igualzinho a ele. Liberdade
condicionada, nossa! Escuto essas coisas, mas não solto sequer um grunhido. O Felipe
ainda fica se coçando, mas o Bem fecha o bico e sai de fininho. “A Bia é uma
gata santa, Bezerra, mas tô vendo a hora ela transbordar com o marido”, brinca
comigo o Felipe.
Idiotas certos humanos. Não é possível que não
conheçam o princípio número um da vida. Deviam assistir à primeira e única
reunião que temos com o camarada leão, o nosso rei. Fala assim:
Camaradas, usem o princípio número um do
criador-mor: a liberdade. São livres, camaradas. Assim como o criador-mor, não
cobro nada de vocês. Não caiam na lábia de contribuir com rações para picaretas
como o camarada tigre e a camarada cobra. Não imitem a postura dos humanos de
humilhar a natureza. Como sabem, covardes opressores humanos pegam uma corrente
d’água, colocam barreiras nos lados e tiram a liberdade de a água caminhar como
a ela convém.
Bezerra breca o fluxo libertário, já que as ondas
da piscina sinalizam o aparecimento da Beatriz no canto apostado por ele. Tiro
e queda. Beatriz surge molhada de beleza e luxúria. E de outras coisinhas.
Bezerra ri. Ou melhor, mostra os dentes.
Beatriz senta-se ao lado de Bezerra, alisa-lhe o
focinho, abre a boca a fim de soltar uma graça, mas um barulho faz os dois
desviarem a atenção para aquela direção.
“Meu gatão”, diz Beatriz, pondo Felipe, o gato dela,
sobre a toalha que lhe cobria as coxas.
Bezerra presencia o afago, finge indiferença, mas
fica rosnando de ciúme. Mas rapidamente o tange. Assim como não sou exclusivo
dela, ela também não é exclusiva minha, pensa, sorrindo. Ou melhor, mostrando
os dentes.
É nesse clima que o Dr. Rafael, o marido da Beatriz,
encontra os quatro - já que o Bem acaba de juntar-se a eles - quando chega do
mercadinho:
“Maçã pra você, querida, peixe abiscoitado para o
nobre Felipe e ração de cordeiro para o nobre Bezerra. Não encontrei nada pra
você, Bem. Vê se acha alguma coisa no pé da palmeira ou na romã”.
Bem libera um te-vi, te-vi e dá um rasante pro pé
de romã. Beatriz serve-se duma banda de maçã, serve-se dos “nem me pega, nem me
pega” para atiçar o marido e pula na piscina. Dr. Rafael mergulha atrás.
Bezerra e Felipe se entreolham. Conjecturam.
Bezerra aposta que o casal aparecerá no pé da palmeira. O faro de Felipe não é
lá essas coisas, mas ele tem certeza de que surgirão realmente na palmeira. Já
assistira àquele filme várias vezes. Aparecem e começam a chupar língua. Dali a
minutos a Bia começa a gemer. Não dá outra: o casal sai no pé da palmeira. E se
danam a chupar língua.
“Sabe, Bezerra. Ainda dou umas unhadas nesse doutor
que é pra ele deixar de machucar a Bia”, jura o Felipe.
Jura e corre para o pé da palmeira. Bezerra também.
O Bem já estava lá. Mas ficam de boa. Apenas conferem os machucados de línguas.
O te-vi do Bem, o miau do Felipe e o latido do
Bezerra, todos repetidos e ao mesmo tempo, revelam a certeza de que o trio
estava dando duplo parabéns para a Beatriz.
É isso.
Junto-me ao humanizado trio para lhes dar os
parabéns, garotas.
No 8 do 3 do 25,
TC
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