Acontece terça-feira, na
calçada de eclético barzinho de meu bairro. Faço o aquecimento para
ArgentinaXBrasil. Estou numa mesa de dois. Mas sozinho.
A polarização da
política brasileira rola solta no sobe e desce de copos, mas pego apenas
fragmentos das conversas. Não só porque as paixões políticas atropelam os
contextos, como também porque fico embasbacado com a beleza de uma moça, na
casa dos vinte e cinco anos, que, do setor de bebida e som, não para de sorrir
pra mim. A linda usa bermudão amarelo e blusa verde. E exibe eróticas tirinhas
brancas de sutiã. Lindíssima e sozinha. Quem é essa beldade, meu Deus do céu, penso.
E já começo a imaginá-la.
Então acontece.
A beldade se aproxima
de mim e aponta o indicador para a cadeira vazia. É óbvio que pede licença para
se sentar. E é óbvio que concedo. Aí ela me dá um escrito de celular e se senta.
Leio:
“Prazer conhecer você,
escritor Porco Carneiro. Sou a Stella. Sou surda sinalizada. Poder conversar na
Linguagem Brasileiras de Sinais? Saber que é bom em LIBRAS”.
Levanto e abaixo a
cabeça duas vezes com a mão esquerda configurada em “S”. E acrescento, em
LIBRAS, é claro: fique à vontade, senhorita Stella.
Mesmo com o ambiente
refrescado, a Stella apresenta gotículas de suor no rosto e no pescoço. Vou comentar
sobre isso, mas este nocaute me joga nas nuvens:
“Quero explorar as suas
entranhas, escritor Porco Carneiro. Que tal começarmos com beijos de línguas?”
O que faço? Faço o que
você teria feito, meu nobre. A menos que não aprecie certos sabores femininos.
Línguas apresentadas, vou me acomodando na cadeira, então a Stella configura o
L de “de novo” com a mão esquerda e...
ah, gente, não vou ficar descrevendo as LIBRAS de nossa conversa. Irei
direto para a variante literária do português. Beleza? Bom. Beijo a Stella de
novo e me sento estalando a língua, lambendo os beiços e esfregando as mãos.
- Com esses beijos,
escritor Porco Carneiro, tornamo-nos amantes. Serei fiel a você pelo resto da
vida. Deve estar achando surreal essa situação. Acontece que me apaixonei por
você em virtude de sua Pocilga de Ouro. Adoro os textos em que fala de
liberdade. Seu Silêncio Transcendental é uma paulada e tanto, meu
querido. É óbvio que tenho minhas limitações de escrita e leitura, mas suas
linhas têm o poder de suavizá-las. Agora leia este recorte de jornal. Espere,
espere, espere.
Minha boca quer a sua,
amado. Sem pressa, viu?
É lógico que não tenho
pressa. Leio:
“Acho que a solução vai
vir dos Estados Unidos para resgatar as nossas liberdades no Brasil”.
Constrangido, configuro-me
como conhecedor do canalha contexto da citação:
- Pois é, amado. Tal aleivosia foi dita
por um parlamentar brasileiro, o deputado federal Eduardo Bolsonaro. Não entendo a passividade retórica da sociedade em relação a tamanha demência. O deputado tira zero em apreço pelas instituições do país dele e ganha dez em patriotismo pelo país deles. Mas esse deputado cultiva uma coerência democrática invejável, mozão. Expressa-se assim. E não faz tanto tempo: “Basta um cabo e um soltado para fechar o STF”. No que diz respeito a cabo, aliás, tudo indica que o deputado nutre uma quedinha por certo alemão queimador de livros. Disse aquele. E já faz bastante tempo: “Qualquer cabo pode ser um professor, mas não é qualquer professor que pode ser um cabo”.A verdade, querido, é
que vocês, brasileiros, são...
Vocês.? Você não é...
- Brasileira? Não. Sou
belga, amado. Mas adoro este país. Principalmente os homens. Escute. Tenho 26
anos. Faz 12 anos que moro aqui. Sou uma herdeira bilionária que vive rodando o
Brasil a fim de entender a forma peculiar de como vocês convivem com a
liberdade, bastante divergente do que nós, belgas, praticamos. Stella, amado, quer
dizer estrela, que vem do grego astér, que tem parentesco com o nome próprio hebraico
Ester, que significa o ser talentoso, brilhante, libertário. Sou obcecada pela
liberdade, amor. Então. Chego ao Brasil e me torno acompanhante de luxo de
empresários, políticos, administradores, porquanto pressentir nessa gente o
caminho para compreender a liberdade brasileira. Que foi? Que carinha é essa,
amado? Ciuminho?
Beije-me. Um minuto sem
intervalo, tá?
Delícia, não? Acompanhante
não é ficante, amor. Entenda. Já me comunicava legal em VGT, linguagem gestual
de parte da Bélgica, quando venho para São Paulo. Começo a estudar LIBRAS,
providência inadiável para o meu propósito. Bem avançada nos estudos, uma colega
de turma e caixa no mercadinho onde eu compro frutas me informa da intenção de
trabalhar numa empresa agenciadora de intérpretes de LIBRAS. Vou livrá-lo dos
detalhes, amor, mas certo é que dou ciência à colega de minha situação econômica
e da ocupação de pesquisadora da liberdade brasileira. Também é certo que eu e
a Sabina Syrah continuamos trabalhando na agência SP Comunicação Gestual.
Duas particularidades
nessa história, mozão. Uma risível, outra,,,
Sua boca tá seca, amor.
Molhe-a na minha.
A risível é que não tem
nada de LIBRAS nesses encontros. Os caras, na maioria coroas, só querem a
companhia de mulheres lindas a fim de servi-los e de comê-las com os olhos. Se
bem que a Sabina, amor, adora picx. Eu e a Sabina somos as mais requisitadas da
empresa. Mas não acontece sempre de estarmos juntas. Agora, nossa impressão é a
mesma. Aquela gente tem as narinas defeituosas. Por vezes, precisamos engolir
em seco a fim de brecar o engulho, tamanho o urubu do ambiente. E aquele
cheirinho de finitude, santo perfume para humanizar humanos, nem pensar. E tudo
pensado em nome da cretina liberdade deles.
A segunda
particularidade é ironia das grandes. Assim. Precisa apresentar o atestado de
surda para pegar o emprego na SP Gestual. Tudo o que a Sabina não é. Quando
pergunto que transação ela faz para conseguir tão fácil o atestado, a pestinha
responde: “transação libidinosa”, Stella. Veja, querido. Estou pesquisando o
estilo da liberdade brasileira, aí um médico libertino usa a liberdade que a medicina
lhe nega para atestar que a parceira Sabina é surda sem ser.
Percebo que sua boca
quer a minha. Ajude-a. A pressa é inimiga da perfeição, lembre-se, querido.
Nessas alturas, não é
difícil supor o meu nível de excitação. Curiosidade a mil, embaralho uma série
de perguntas. Stella faz a configuração de surpresa, pois estou quebrando a
regra LIBRAS de uma pergunta de cada vez e de nada responder além do perguntado.
Volto para a regra. Não convém cansá-las, nobríssimas, com certas respostas,
mas algumas sínteses acho oportuno lhes passar.
Stella acompanha esse
povo nos encontros em residências oficiais, casas de praia, hotéis,
restaurantes, pousadas. Suas observações ficam capengas, já que a fonte é tão
só a linguagem corporal dos circunstantes. Repassa seu salário para a Sabina, que
produz relatórios sobre os encontros dela.
Faço-lhe uma pergunta
específica:
Curiosidade Stella. Qual
é a principal característica da liberdade dessa galera pesquisada?
- Posar de vítima, meu
bem. Boa pergunta, pois assim voltamos para a manifestação do deputado, o motivo
de eu ter procurado você. Vocês, brasileiros, desculpe a sinceridade, amor, adoram
se vitimizar. Pense. Por temer punições judiciais em razão de algo que a
Justiça cataloga como ilícito, nosso deputado já abre o bocão para se dizer
perseguido. Mais uma. Determinado órgão fiscalizador autua uma empresa transgressora,
então o empresário abre o bocão para se fazer de vítima, já que sua cretina
liberdade assegura que o país não tem segurança jurídica. E por aí vai.
Agora venha me beijar,
amado.
Ah, glória. Liberdade,
querido, não é fazer o que der na telha. É, isso sim, a capacidade de botar
ética, moral e consciência na telha. Temos que ter liberdade e dignidade para
combater injustiças, parta de quem partir, mas temos que defender a liberdade, condenando
aquele que a estupra em nome do simulacro dela, parta de quem partir também. Agora,
amado, gostaria que relesse a desonra do deputado. Tome:
“Acho que a solução vai
vir dos Estados Unidos para resgatar as nossas liberdades no Brasil”.
- Pois é. Do ponto de
vista do estudo da liberdade, esse enunciado é 10. Por isso estou aqui a fim de
lhe sugerir, mozão, uma postagem destacando os seguintes detalhes do enunciado:
palavras, desconfortos e atitudes. Ligue-se no porquê:
Palavras. Nas palavras
cabem tudo, diz o clichê. Na manifestação em tela coube a liberdade de o
deputado se expressar. Zero de ilicitude, amado.
Desconforto. Grave
equívoco confundir desconforto de alguém com invasão da liberdade desse alguém.
Enorme número de brasileiros se sentiu desconfortável com a manifestação do
deputado. No entanto, nada há de ilicitude aqui, amado. Deixe claro, porém, que
ter a liberdade tolhida acarreta descomunal desconforto, mas que não é todo
desconforto que nasce da liberdade tolhida.
Atitude. Compete à
Justiça acompanhar as atitudes do deputado em relação às palavras dele. Pode
não dar em nada. E pode dar em tudo. Supremo suspense, amado.
Sugiro, ainda, que não
use o termo liberdade. Substitua por grau de independência legítimo. Certo,
amado?
Farei a postagem,
Stella, prometo, beijando-a longamente. Aqui, a Stella já está coladinha a mim,
o que a dispensa de me pedir beijos. Toco-lhe sem pudor algum, assim como sem
pudor acontecem os toques de mesas vizinhas. Mesas que acirram a polarização
política com o tema anistia do 8 de janeiro. Dou sacana provocada na Stella:
Me fala aí, querida. Nesse
trabalho sobre o perfil da liberdade brasileira, você liga liberdade com
democracia?
- Está me provocando,
não é, amor? Democracia não é o mesmo que liberdade, mas uma não sobrevive sem
a outra. Violentar ou proteger uma implica violentar ou proteger a outra. Daí
que quando estudo liberdade estou estudando democracia. Entendeu, querido?
Sim, sim. Me fala outra
coisa, Stella querida. A que você atribui essa discussão esquerda/direita, a
raiz da polarização? Tem alguma coisa além de ideologia nela?
- Como tudo na vida,
tem o interesse econômico, meu bem. Mas o que tem de sobra é maledicência plantada,
amor.
Danou-se. O que é isso,
Stella?
- Bom. Você falou em
ideologia. Ideologia, seja a econômica, seja a religiosa, seja a política, é um
conjunto de ideias, crenças, princípios, essas coisas, e outras, como diz você,
que faz a cabeça de uma pessoa ou do grupo dela. Coisinhas que se alimentam do
tempo. Muitas das quais bem diabólicas para quem não tem o costume de pensar.
Bastante teórico isso,
não?
- Continua me
provocando, amor. Peguemos a liberdade. O ser que não tem ideia da exata
dimensão da liberdade vai ser o primeiro a apoiar a injustiça imposta pela
dominação ideológica da política. O diabólico, mozão, germina da maledicência
plantada. E plantar significa corroer a integralidade do discurso, reciclar
mentiras, simplificar realidades complexas.
Nossa, Stella. Foi
longe, querida. Mas, me diz. Como faz para fazer o ser do seu exemplo não
apoiar injustiças impostas pela ideologia política?
Faço a pergunto e lhe dou
dupla linguajada.
- Pelo pensar, ponderar,
refletir, sopesar. Na prática, mozão, nosso ser precisa mudar de bolha. Pra
isso, vai precisar transformar informação em conhecimento para daí transformá-lo
em sabedoria. Precisa sair da bolha do condicionamento e entrar na do
pertencimento. Nesta, o ser vai encontrar ética, moral e consciência da telha sobre
a qual falei há pouco. Chamou-me de
teórica, amor. Então veja esta comuníssima prática da bolha do condicionamento,
mas nem tão rara assim na bolha do pertencimento. Imagine um casal. O homem
pede tolerância, compreensão e sabedoria à Deus. A mulher também. Deus dá. Dá,
mas lhes apresenta uma circunstância de teste a fim de saber se receberam. Aí o
casal parte para a agressão. Até física, por vezes. Por que pedem?, deve se
perguntar Deus. Outra. O indivíduo pede à Deus compaixão, solidariedade e amor.
Aí Deus apresenta um humano – ou mesmo um animal – em extremada situação de carência.
O indivíduo vê aquilo e passa ao largo de mãos dadas com a indiferença. Por que
pede?, deve continuar se perguntando Deus.
Tem mais... Mozão, pelo
amor de Deus. Essa galera da anistia está bastante agitada. Vai sobrar
garrafadas aqui. Vamos dar o fora, mozão.
Sugiro sua casa. Sua
mulher. Ela... Será que ela não...
Tranquilo, Stella. De
boa. Acho até que ela está na igreja.
Aí a Stella usa o
classificador de estalar o dedo e jogar o braço pro lado: “Vamos embora”, é
claro.
Três caras estão bem
bêbados, realmente. Melhor ir pra casa. Até porque duas de minhas noras devem
estar inventando algo para acompanhar a cerveja no jogo do Brasil. Então pego uma
caixinha com seis, pego um uber e vou pra casa:
Ah, não. Stella, sogro?
Pensávamos que ia trazer Heineken. Essa tal da Stella é muito ruim. Pense numa
cerveja rala e sem graça, diz a lourinha.
Azeda que só ela. Fraquinha,
fraquinha. Nem cócega faz. A gente bebe, bebe, bebe e não acontece nada,
completa a moreninha.
Questão de gosto, meninas.
Acho Stella encorpada e gostosona. E a irresistível me deixa absurdamente
estimulado, se querem saber.
Ela faz e acontece, sim.
Tim-tim
No 3 do 25,
TC
Sim, ia esquecendo. A danadinha
da Stella me levou pra cama logo cedo. Nem assisti ao jogo do Brasil. Felizmente,
né?
Um comentário:
Esta história da 'mudinha' é só pra me fazer inveja, inquilino de Pocilga da peste. kkkkk
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