terça-feira, 1 de abril de 2025

Resposta a um comentário malcriado

 


Resposta a um comentário malcriado

            “Numa ditadura, você não pode fazer uma passeata pela democracia. É crime. Numa democracia, você pode fazer uma passeata pela ditadura. É liberdade”.

            Num templo religioso, você não pode fazer uma manifestação pelo ateísmo. É heresia. Na literatura, você pode fazer uma manifestação pela racionalidade religiosa. É libertador.

            O primeiro pensamento é do filósofo MSC. O segundo é do bestólogo TCS.

            Não.  Não sou ateu. Não apenas acredito em Deus. Eu o sinto. E sentir é mais do que acreditar. Emparelhei os dois pensamentos acima não só em razão do paralelismo literário, mas também para exibir o comportamento entre extremistas religiosos e políticos. Intensos na defesa de seus dogmas, tais indivíduos sequer admitem inocentes “mas ou porém” de seus contestadores: já fecham a cara e abrem a ironia.

            Esse arrazoado é para me referir à postagem abaixo (Ela faz e acontece). Nela, há um trechinho em que Deus testa o homem para saber se o homem recebeu o que a Deus foi pedido. Escrevi:

 “O indivíduo pede à Deus sabedoria, compaixão, solidariedade, amor. Aí Deus apresenta um humano – ou mesmo um animal – em extremada situação de carência. O indivíduo vê a carência e passa ao largo de mãos dadas com a indiferença. Por que ele me pediu amor?, deve ter se perguntado Deus”.

            Alguns leitores discordam desse trechinho. A Claudete, por exemplo, usa letras maiúsculas para comentar aos gritos:

“Deus é amor. Deus jamais criaria situações do mal a fim de testar o homem. O senhor, por acaso, já assistiu a uma pregação evangélica? Já ouviu, mesmo pelo rádio, uma homilia católica? Deus não é cientista de teste, senhor. O senhor deve ser parente do coisa-ruim. Veja o que escreve, senhor. Deus fazendo teste! Era só que faltava. Vade retro, satanás. Misericórdia”!

            Vou comentar o desaforo da cordial Claudete só depois de lhes contar certa historinha. Aguardem. Antes, permitam-me caminhar no bom senso. Tudo bem, Claudete. Deus não cria situações do mal. Mas o ser humano convive com elas minuto a minuto, concorda? Então, querida. Se Deus não cria situações do mal, sou forçado a admitir que tais situações são criadas pelo ser humano. Se assim é, por que o ser humano vive pedindo que Deus os livre delas? Não seria mais prático o próprio ser humano não ficar criando essas situações?

Imagine você, Claudete, criando escorpiões em sua casa. Tem sentido você pedir a Deus que os livre da picada deles? Por que está criando, mulher de Nossa Senhora?, Deus pode lhe perguntar, concorda de novo? Aí você responde. Mas não crio escorpiões. Eles aparecem no quintal.  É coisa da natureza. Aí eu pergunto. Mas o que é a natureza? Quem cria a natureza? Donde vem a natureza? Perguntas, respostas, perguntas, respostas...

Agora curtam a historinha introdutória pra eu rebater o atrevido comentário da amável Claudete. A historinha se passa no Araçá, lugarejo distante 40 quilômetros de Natal-RN. Testemunho

tudo. Estou começando a usar calça comprida. O povo se alimenta de preá, rolinha, batata, macaxeira, manga, mangaba. Abastado é quem tem o leitinho da coalhada. O povo nem se dá conta da riqueza que corre a dois quilômetros dele: o Rio Ceará-Mirim cheio de peixe. E no caminho pro rio o mangue carregado de caranguejo-uçá e guaiamum. Até que...

Até que chega ao Araçá um meia-idade contador de histórias e apreciador de pitombas. O meia-idade fala da riqueza do rio e começa a ensinar como se beneficiar dela. Então ele improvisa apetrechos de pesca, tipo anzol, landuá, covo, tarrafa e fica ensinando o povo a pescar. Na primeira leva, o meia-idade leva pro rio Ocrido Caridade, João da Serra e Antônio do Sertão (também vou, curioso que era). Certo é que o Araçá aprende a pescar. Curimatã, cará, traíra, camarão não faltam nas mesas. Empreendedores (diligentes, naquela época) riem à toa com a venda de guaiamum e camarão em Natal. O Araçá vive eufórico. Tanto que planejam uma solenidade para agradecer ao barbudinho (é assim que o povo chama o meia-idade).

Ocorre que o barbudinho percebe o zunzum e vai embora sem dizer nada a ninguém. Mas deixa este bilhetinho:

“Para o povo do Araçá. Entendo que queiram me agradecer. Não precisa disso, gente. O que fiz aqui nasceu da coessência, da consciência e do coração. Nasceu de meu infinito amor por vocês, enfim. E amor não exige, não espera e não aguarda recompensa de natureza nenhuma. Qualquer forma de me recompensar – qualquer, vejam bem – torna-se uma desfeita pra mim, pois fica implícito, mesmo sem minha anuência, uma troca econômica em razão do amor. Relevo atitudes compensatórias de quem por ingenuidade imagina estar me agradecendo, mas condeno os que por solércia induzem os ingênuos à prática de agradecer me recompensando. Amar é um olheiro da consciência. Se no olheiro quanto mais água se tira mais água aparece, no amar quanto mais amor se dá mais amor se tem. Então se querem me agradecer, basta dar o amor recebido de mim a outra pessoa, que deve dar a outra, que deve dar a outra, que deve dar a outra...

Beijos do barbudinho”

Esse bilhete fica bolando na casa de minha tia Aurora por bom tempo. Até que o junto aos meus trecos. Estou com ele a disposição de quem não quiser ler.

Então. O barbudinho vai para uma comunidade próxima chamada Poço. Lá, repete os procedimentos. Inclusive o de ir embora deixando o bilhetinho. Do Poço, o barbudinho vai para um lugarejo mais ao norte por nome de Estivas. Mesmos procedimentos.

Aqui surge comum fenômeno social nos três lugarejos. O povo passa a viver triste, apático, indiferente. Atentos, lideranças desses lugarejos percebem o retraído comportamento.  Reúnem-se quatro: Seu Quixaba, Seu Bião, Seu Jaime e D. Cláudia da bodega. Palavras de encerramento de Dona Cláudia:

“O povo tá sentindo falta do barbudinho. Urge fazer alguma coisa antes que um qualquer faça as vezes do barbudinho. Se um barbudinho pirata aparecer por aqui e se candidatar a prefeito de Ceará-Mirim, a gente não terá nem o voto do gato ou do cachorro da gente”.

Sabe, pessoal, fico me comichando ao me reportar a líderes. Tenho de falar deles. É que o homem é o único animal que precisa de líder para viver. Essa história de o leão liderar na floresta é balela. Para fazer o leão se borrar de medo, basta um formigueiro descontente com uma decisão fora do bem-estar coletivo da floresta. Mas, acomodado no condicionamento imposto pela falta de senso crítico, o homem mamulengo fica levando fumo e mais fumos do manipulador perito no papel de líder.

Pronto. Passou a coceira. Então. O diagnóstico do quarteto é fazer alguma coisa. E o “alguma coisa” é sensacional: os líderes constroem um quartinho de taipa em cada comunidade e botam nele uma estátua de barro representando o barbudinho. Genial, não? Os líderes estão eternizando o barbudinho. Quem ousa substituí-lo? Sim, quem faz as três estátuas do barbudinho, recordo-me bem, é o artesão Sirvo de Minervina do Ocrido.

Deu bom a estratégia dos líderes. O povo agora está alegre. Os quartinhos ficam pequenos. Inventam cânticos, criam rituais, discursam louvores, memorizam palavras de adoração, botam flores nos pés do barbudinho. Mas falam do barbudinho coisas que ele nunca falou. Fico puto quando ouço o Chico da Jumenta pregar, a baba escorrendo: o barbudinho odeia ladrão, rapariga, saboeira e fresco. Porra! Como é que o cara inventa um negócio desse, meu Deus do céu? O barbudinho nunca olhou enviesado pra ninguém na hora de nos levar pro rio.

Bom. O povo vive extasiado. Bião, Quixaba, Jaime e a Cláudia da bodega brigam pela paternidade da ideia dos quartinhos.

Não faltam fanáticos pelo barbudinho. Aí acontece:

O povo não sabe mais pescar.

O povo desaprende por falta de prática.

As lições do barbudinho vão por água abaixo.

O povo tem esquecido os ensinamentos do barbudinho.

 

Ah, o texto se alongou. Daí que não vou me defender da malcriação da amável Claudete. Fica pra outro momento.

 

No 4 do 25

Do barbudão de barba branca TC


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