Resposta a um comentário malcriado
“Numa
ditadura, você não pode fazer uma passeata pela democracia. É crime. Numa
democracia, você pode fazer uma passeata pela ditadura. É liberdade”.
Num
templo religioso, você não pode fazer uma manifestação pelo ateísmo. É heresia.
Na literatura, você pode fazer uma manifestação pela racionalidade religiosa. É
libertador.
O
primeiro pensamento é do filósofo MSC. O segundo é do bestólogo TCS.
Não. Não sou ateu. Não apenas acredito em Deus. Eu
o sinto. E sentir é mais do que acreditar. Emparelhei os dois pensamentos acima
não só em razão do paralelismo literário, mas também para exibir o
comportamento entre extremistas religiosos e políticos. Intensos na defesa de
seus dogmas, tais indivíduos sequer admitem inocentes “mas ou porém” de seus
contestadores: já fecham a cara e abrem a ironia.
Esse
arrazoado é para me referir à postagem abaixo (Ela faz e acontece).
Nela, há um trechinho em que Deus testa o homem para saber se o homem recebeu o
que a Deus foi pedido. Escrevi:
“O indivíduo
pede à Deus sabedoria, compaixão, solidariedade, amor. Aí Deus apresenta um
humano – ou mesmo um animal – em extremada situação de carência. O indivíduo vê
a carência e passa ao largo de mãos dadas com a indiferença. Por que ele me pediu
amor?, deve ter se perguntado Deus”.
Alguns leitores discordam desse
trechinho. A Claudete, por exemplo, usa letras maiúsculas para comentar aos
gritos:
“Deus é amor. Deus jamais criaria situações do mal
a fim de testar o homem. O senhor, por acaso, já assistiu a uma pregação
evangélica? Já ouviu, mesmo pelo rádio, uma homilia católica? Deus não é
cientista de teste, senhor. O senhor deve ser parente do coisa-ruim. Veja o que
escreve, senhor. Deus fazendo teste! Era só que faltava. Vade retro, satanás.
Misericórdia”!
Vou comentar o desaforo da cordial
Claudete só depois de lhes contar certa historinha. Aguardem.
Antes, permitam-me caminhar no bom senso. Tudo bem, Claudete. Deus não cria
situações do mal. Mas o ser humano convive com elas minuto a minuto, concorda?
Então, querida. Se Deus não cria situações do mal, sou forçado a admitir que
tais situações são criadas pelo ser humano. Se assim é, por que o ser humano
vive pedindo que Deus os livre delas? Não seria mais prático o próprio ser
humano não ficar criando essas situações?
Imagine você, Claudete,
criando escorpiões em sua casa. Tem sentido você pedir a Deus que os livre da
picada deles? Por que está criando, mulher de Nossa Senhora?, Deus pode lhe
perguntar, concorda de novo? Aí você responde. Mas não crio escorpiões. Eles
aparecem no quintal. É coisa da
natureza. Aí eu pergunto. Mas o que é a natureza? Quem cria a natureza? Donde
vem a natureza? Perguntas, respostas, perguntas, respostas...
Agora curtam a historinha introdutória pra eu rebater o atrevido comentário da amável Claudete. A historinha se passa no Araçá, lugarejo distante 40 quilômetros de Natal-RN. Testemunho
tudo. Estou começando a usar calça comprida. O povo se alimenta de preá, rolinha, batata, macaxeira, manga, mangaba. Abastado é quem tem o leitinho da coalhada. O povo nem se dá conta da riqueza que corre a dois quilômetros dele: o Rio Ceará-Mirim cheio de peixe. E no caminho pro rio o mangue carregado de caranguejo-uçá e guaiamum. Até que...Até que chega ao Araçá um
meia-idade contador de histórias e apreciador de pitombas. O meia-idade fala da
riqueza do rio e começa a ensinar como se beneficiar dela. Então ele improvisa
apetrechos de pesca, tipo anzol, landuá, covo, tarrafa e fica ensinando o povo
a pescar. Na primeira leva, o meia-idade leva pro rio Ocrido Caridade, João da
Serra e Antônio do Sertão (também vou, curioso que era). Certo é que o Araçá
aprende a pescar. Curimatã, cará, traíra, camarão não faltam nas mesas. Empreendedores
(diligentes, naquela época) riem à toa com a venda de guaiamum e camarão em
Natal. O Araçá vive eufórico. Tanto que planejam uma solenidade para agradecer
ao barbudinho (é assim que o povo chama o meia-idade).
Ocorre que o barbudinho
percebe o zunzum e vai embora sem dizer nada a ninguém. Mas deixa este
bilhetinho:
“Para o povo do Araçá.
Entendo que queiram me agradecer. Não precisa disso, gente. O que fiz aqui
nasceu da coessência, da consciência e do coração. Nasceu de meu infinito amor
por vocês, enfim. E amor não exige, não espera e não aguarda recompensa de natureza
nenhuma. Qualquer forma de me recompensar – qualquer, vejam bem – torna-se uma
desfeita pra mim, pois fica implícito, mesmo sem minha anuência, uma troca
econômica em razão do amor. Relevo atitudes compensatórias de quem por
ingenuidade imagina estar me agradecendo, mas condeno os que por solércia induzem
os ingênuos à prática de agradecer me recompensando. Amar é um olheiro da
consciência. Se no olheiro quanto mais água se tira mais água aparece, no amar
quanto mais amor se dá mais amor se tem. Então se querem me agradecer, basta
dar o amor recebido de mim a outra pessoa, que deve dar a outra, que deve dar a
outra, que deve dar a outra...
Beijos do barbudinho”
Esse bilhete fica bolando
na casa de minha tia Aurora por bom tempo. Até que o junto aos meus trecos.
Estou com ele a disposição de quem não quiser ler.
Então. O barbudinho vai
para uma comunidade próxima chamada Poço. Lá, repete os procedimentos.
Inclusive o de ir embora deixando o bilhetinho. Do Poço, o barbudinho vai para
um lugarejo mais ao norte por nome de Estivas. Mesmos procedimentos.
Aqui surge comum fenômeno
social nos três lugarejos. O povo passa a viver triste, apático, indiferente.
Atentos, lideranças desses lugarejos percebem o retraído comportamento. Reúnem-se quatro: Seu Quixaba, Seu Bião, Seu
Jaime e D. Cláudia da bodega. Palavras de encerramento de Dona Cláudia:
“O povo tá sentindo falta
do barbudinho. Urge fazer alguma coisa antes que um qualquer faça as vezes do
barbudinho. Se um barbudinho pirata aparecer por aqui e se candidatar a
prefeito de Ceará-Mirim, a gente não terá nem o voto do gato ou do cachorro da
gente”.
Sabe, pessoal, fico me
comichando ao me reportar a líderes. Tenho de falar deles. É que o homem é o
único animal que precisa de líder para viver. Essa história de o leão liderar
na floresta é balela. Para fazer o leão se borrar de medo, basta um formigueiro
descontente com uma decisão fora do bem-estar coletivo da floresta. Mas,
acomodado no condicionamento imposto pela falta de senso crítico, o homem mamulengo
fica levando fumo e mais fumos do manipulador perito no papel de líder.
Pronto. Passou a coceira.
Então. O diagnóstico do quarteto é fazer alguma coisa. E o “alguma coisa” é
sensacional: os líderes constroem um quartinho de taipa em cada comunidade e
botam nele uma estátua de barro representando o barbudinho. Genial, não? Os líderes
estão eternizando o barbudinho. Quem ousa substituí-lo? Sim, quem faz as três
estátuas do barbudinho, recordo-me bem, é o artesão Sirvo de Minervina do
Ocrido.
Deu bom a estratégia dos
líderes. O povo agora está alegre. Os quartinhos ficam pequenos. Inventam
cânticos, criam rituais, discursam louvores, memorizam palavras de adoração,
botam flores nos pés do barbudinho. Mas falam do barbudinho coisas que ele
nunca falou. Fico puto quando ouço o Chico da Jumenta pregar, a baba
escorrendo: o barbudinho odeia ladrão, rapariga, saboeira e fresco. Porra! Como
é que o cara inventa um negócio desse, meu Deus do céu? O barbudinho nunca
olhou enviesado pra ninguém na hora de nos levar pro rio.
Bom. O povo vive
extasiado. Bião, Quixaba, Jaime e a Cláudia da bodega brigam pela paternidade
da ideia dos quartinhos.
Não faltam fanáticos pelo
barbudinho. Aí acontece:
O povo não sabe mais
pescar.
O povo desaprende por
falta de prática.
As lições do barbudinho
vão por água abaixo.
O povo tem esquecido os
ensinamentos do barbudinho.
Ah, o texto se alongou.
Daí que não vou me defender da malcriação da amável Claudete. Fica pra outro
momento.
No 4 do 25
Do barbudão de barba
branca TC
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