sábado, 26 de abril de 2025

O papa e os papangus

 


“Francisco se foi um dia após a Páscoa. Não acredito que isso seja coincidência. Agora é hora de reerguer os pilares que foram sendo esfarelados. Que venha um papa conservador, que coloque Cristo – e não o comunismo – no centro”.

“Menos um comunista na terra. E já vai tarde”.

“Mais duas idiotices brasileiras. E já chegam podres”.

Existem mais falas fedorentas sobre o papa Francisco na Folha de São Paulo, mas bastam essas duas podres para o que pretendo desenvolver. A primeira estragada é de uma vereadora de Porto Alegre, Mariana Lescano (Progressistas). A segunda bichada é de dois policiais paraenses. A terceira, a cheirosa da creolina, é deste escrevinhador. É bom dizer que a vereadora tem completa liberdade de expressar idiotices num contexto de política partidária. E os eleitores/ leitores, por óbvio, de contestá-la com base na fidedigna história cristã.

E o que diz essa história? Diz que incomodado com a opressão de sua gente pelo império romano, Jesus saiu dizendo aos patrícios que eles tinham a capacidade de fazer escolhas conscientes. Com isso, Jesus dava propósito de vida e poder à sua gente. Jesus sabia que não devia fazer concessões, passar pano, essas coisas, para o autoritarismo do império romano. Precisava ser firme. Então Jesus usou a parábola “Não convém usar pano novo como remendo para vestes velhas, já que o remendo logo ficará imprestável” e enfrentou a tirania romana com destemor.

Chama-se de revolucionário o indivíduo que é favorável a transformações radicais no campo político e social. Chama-se de subversiva a pessoa que subverte uma ordem estabelecida. Daí que Jesus foi revolucionário e subversivo. Contudo, certas lideranças do cristianismo fazem beicinhos para as duas palavras. Mas predicativos não são dados pelo que querem, e sim pelo que requerem as atitudes. Jesus, na linguagem de hoje, foi esquerdista, socialista, comunista, progressista.  Istas esses que a nobre vereadora (progressista?) não quer do novo papa. Mas quer Cristo no centro do poder religioso. Cristo conservador? Contradição ou idiotice?

Convém

nos atermos a expressão “fazer escolhas conscientes” utilizada por Jesus para colher a adesão dos patrícios. Ali, Jesus dizia que amor, solidariedade, compaixão, acolhimento, empatia, perdão, gratidão, essas coisas – e outras – eram atos conscientes que lhes dariam propósito de vida e poder.

Que acha de mudar o patamar do texto, meu nobre? Política, então.

Patamar político, mas no contexto cristão. A fim de livrá-lo de enfadonhas teorias, vou eleger representante da classe política o ex-presidente Bolsonaro. A figura pública Jair Bolsonaro, entenda, meu nobre. Veja esta memória. Em 2003, o então deputado federal Bolsonaro, em discurso na tribuna parlamentar, falou assim para a colega Maria do Rosário: “Não te estupro porque você não merece”. Em 2016, no processo de impeachment da Dilma, o então deputado Bolsonaro manifestou assim o seu voto:

“Pela memória do Coronel Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”.

Conhece a história do torturador Ustra, meu nobre? Pois!

Pois bem. Em 2018, o cristão de carteirinha Bolsonaro foi eleito presidente da República. Graças, claro é, aos votos dos cristãos de carteirinhas.

Estuprar, torturar e verbos correlatos, meu nobre, passavam a ser preceitos cristãos no país da maior população cristã do mundo.

Relembremos a eleição presidencial de 2022.  Mas, antes, recordemos a pandemia da covid-19. É arrepiante recordar a atenção, a dedicação, a consternação e a compaixão mostrada pelo presidente Bolsonaro ante o terror dos governados durante a pandemia.  Mas deixemos de lado esses pavorosos arrepios, meu nobre, e fiquemos diante do Jornal Nacional do 29 de março de 21:

“Hoje foi o dia mais letal da pandemia covid-19 no nosso país. 3541 irmãos e irmãs nos deixaram devido a impiedosa”, anunciou o Bonner.

Quando uma repórter perguntou ao presidente – e candidato à reeleição - se ele sabia desse número, uma voz desumana respondeu: “Não sei. Não sou coveiro”.

Lascou-se.  Só vai ter o voto dele, pensei, emborcando uma lapada de 51com tira de caju. Enganei-me: a frase síntese da coisificação do choro, da submissão ao instinto cruel do presidente e da dominação de sua insanidade rendeu-lhe 58 milhões de votos no segundo turno da eleição.  Sei bem que o voto popular está longe de ser racional, mas 58 milhões são 58 milhões, não é, meu nobre?

“O problema do mundo de hoje é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas, e as pessoas idiotas (tal qual a vereadora gaúcha) estão cheias de certezas”. Falou assim o filósofo britânico Bertrand Russell. E o Russell alertou pra isso há mais de 70 anos, meu nobre.

A verdade é que a indiferença, a insensibilidade, a irreverência e a insensatez acabavam de se incorporar aos ingredientes cristãos.

Mas atente-se para especialíssimo detalhe, meu nobre. O ilustre Bolsonaro é um político autêntico. Sabia ele que o impiedoso comportamento podia derrotá-lo, mas do impiedoso não abriu mão. Agora, cara, o que me deixa puto é a carona de uma penca de candidatos na carruagem do Bolsonaro. Aqui mesmo em Natal- RN – onde voto – políticos, que, na minha conta, eram sinceros, sensíveis e solidários, de uma hora pra outra passaram a rezar na cartilha do Bolsonaro. Cadê o caráter cristão? Ou só fingiam tê-lo? Não voto nesse povo. Como votar em quem não sei quem é?

Isso posto, como diria o outro, somos forçados a admitir que o cristianismo fracassou na missão de suprir o povo de consciência. Máscaras e fantasias tornam muita gente autênticos papangus.

Permitam-me transcrever certo trecho de uma das homilias do papa. Francisco contou que uma pessoa se queixou de que ele falava muito dos pobres e pouco da classe média. O papa rebateu, disse que falava pra todos e concluiu assim a homilia:

“Mas não pode subtrair-se à centralidade dos pobres no Evangelho. E isto não é comunismo. É puro Evangelho. Não é o papa, mas Jesus, que os coloca no centro, nesse lugar. É uma questão da nossa fé e não pode ser negociada. Se não aceitardes isso, não sois cristãos”.

Será que o papa estava se dirigindo aos policiais paraenses e à vereadora? Agora vou me dirigir a você, minha nobre. Por que parte dos cristãos manipula a fé? E por que grande parte se deixa manipular? Por que, enfim, o egoísmo está ganhando do fraterno?

A resposta está na filosofia. Num poderoso palavrão. Unzinho apenas.  Posso só revelá-lo no próximo encontro, minha nobre?

Combinado?

No 4 do 25,

Tim – Tim com abraços e beijocas do TC

 

 

 

 


Um comentário:

Anchieta disse...

Perfeito, Tião! Mais uma vez nos brindando com uma reflexão certeira. Já fico no aguardo do 2° tempo, curioso.