O piso molhado não é problema
para os alienados: pisam-no papeando e pronto. Passos que seguem. Atrás deles vêm
os bem-intencionados: pegam um rodo, um pano de chão, secam o pisam e pronto. Passos
que seguem. O piso está molhado quando os pensadores vão passar: olham pro teto,
veem a goteira, retiram-na e pronto. Passos que seguem.
É hora de confessar, informar e
lembrar:
A confissão: a historinha do
piso é eloquente metáfora criada pela premiadíssima filósofa brasileira Lúcia
Helena. A informação: do pano secar o piso nasceu a expressão “passar pano”
para camuflar situações cujas providências exigem mais do que atitudes
paliativas. A lembrança: a lei-mor dos humanos. Não há efeito sem causa. Essa lei
prova a existência de um Criador imaterial e onipotente. Procure a causa de
tudo o que não é obra humana. Não a encontrou em certas obras? Pode apostar que
o “certas” é obra do Criador.
É bem legal ver causa virando
efeito, que vira causa, que vira efeito, que... Na verdade, são coisas prendendo
e soltando coisas. Chamo essas coisas de lei puxa-puxa.
Como uma coisa puxa outra,
o prender das coisas me puxou para a prisão/ sequestro do Maduro feito pelo Trump no 3 do 1 deste 26. Puxou e logo puxou-me para a causa do sequestro: “A rebeldia desse cabeça dura em não
comparecer a um tribunal americano para ser interrogado sobre a acusação de
terrorismo e narcotráfico”, disse o Trump, que também disse detestar
teleconferência.
Então tá. Interrogado o “cabeça
dura”, morreu maria preá, pensei. Pensei errado. A brutalidade não acabou. Maria
preá não morreu. Nasceu, na verdade. Nasceu ao ter nomeado o Trump CEO da
Venezuela.
Como uma coisa puxa outra, corri
para os noticiários e articulistas a fim de conhecer a causa real do sequestro,
já que a do interrogatório enraivecia o bom senso. Petróleo do Maduro associado
à megalomania do Trump, essa foi a causa, segundo os articulistas. Escutei um
psiu. Vinha do Instagram. Mandei-me pra lá. Queria conhecer a opinião dos especialistas
dele. Apareceu uma causa nova: solidariedade. Segundo parcela dos
comentaristas, o Trump sequestrou o Maduro para libertar os venezuelanos da
ditadura. Ocorre que essa causa fez os comentaristas do Instagram brigarem feio.
Destaco as foiçadas entre o
arrouba Saldanha e o arrouba Messias. Saldanha de esquerda, Messias de direita.
A direita do Messias dava cafunés na cabeleira do Trump com o argumento de que os
venezuelanos estavam nas ruas comemorando a invasão libertadora do Trump. O Saldanha
respondia dizendo que os venezuelanos não comemoravam a invasão trumpista. Comemoravam
a derrocada do Maduro. Foiçada vai, foiçada vem, o Saldanha alega que os
venezuelanos têm amor-próprio, dignidade, história, patriotismo, essas coisas,
daí que não iriam aceitar viver sob o cabresto de um megalomaníaco americano.
A briga terminou assim:
Tás nessa, Saldanha? Os venezuelanos
estão fugindo do país pra não morrerem de fome. Dignidade, patriotismo, essas
coisas, não enchem a barriga de ninguém, Saldanha. Saldanha rebateu forte: Vai
te foder, Messias. Muuu. Messias deu o troco: Vai te foder tu, esquerdista comunista
fuleiro. Não vejo a hora de o Trump expulsar o comunista 9 dedos da
presidência.
Como uma coisa puxa outra, o “esquerdista
fuleiro” levou-me direto pra França da Revolução Francesa. 9 de julho de 1789, Robes
é o primeiro deputado a chegar ao parlamento para a abertura da Assembleia
Nacional Constituinte. Chega, pensativo, cabeça baixa, vai se encaminhando para
a direita do auditório quando vê um cachorro com a língua de fora. O Robes
(Robespierre, né, pessoal?) tinha medo adoidado de cachorro. Então ele
retrocede e vai se sentar no lado esquerdo do auditório. Minutos depois chegam
o Marat, o Danton e juntam-se ao Robes. Quase ao mesmo tempo, chegam o Brissot
e a madame Roland. Como não se bicavam com o Robes, acomodam-se no lado direito.
E assim o auditório foi se enchendo de acordo com quem bicava com o Robes ou
com o Brissot.
É preciso informar que a França
vivia num miserê dos diabos. Cachorro faminto nas ruas não faltavam. Além do
mais, o francês adora cachorro. É preciso informar, ainda, que o Brissot,
sentado à direita, era respeitado líder girondino. Os girondinos defendiam a
manutenção da monarquia e da hierarquia. Do deixa quieto, por assim dizer. Conservadores,
portanto. Os girondinos tinham bastante apego ao rei Luís 16 e à rainha
Antonieta. Já o Robes, sentado à esquerda, era festejado líder dos jacobinos. Os
jacobinos defendiam o fim da monarquia, queriam um governo centralizado e
lutavam pela igualdade social. Buscavam a transformação. Progressistas, portanto.
Pois é. Não fosse aquele vira-lata
no caminho do Robespierre, e ele teria se sentado à direita do auditório. Entendeu?
O Saldanha e o Lula seriam da direita. E o Messias e o Bolsonaro seriam da
esquerda. História, sua danada.
Como uma coisa puxa outra, a
busca pela transformação social da esquerda do auditório francês levou-me para
Yeshua, ou Jesus. Sou fã desse cara. E não dou a menor importância à versão
histórica - a de Jesus ser filho legítimo de José e Maria - ou à versão religiosa
- a de Jesus ser filho adotivo do casal, posto ter sido obra do espírito santo.
A verdade é que a sabedoria de Jesus venceu a apatia cognitiva reinante na sua
época. Tanto que a história se sentiu obrigada a criar o termo sapiência, que
nada mais é do que sabedoria divina ou superior, e a contar o tempo para antes
e depois de Jesus. É mole! É o cara ou não é? História, sua danada.
Ilustro a sapiência. Na metáfora
da filósofa Lúcia Helena, os pensadores se valem do segundo olhar - prática que
todo mundo devia cultivar - sobem no telhado, eliminam a goteira e pronto. O que
faria o sapiente Jesus? Eliminaria a goteira, é claro, mas sabe Jesus que o
telhado é inocente. E sabe que foi um humano o responsável pela primeira causa dos
úmidos efeitos. Então Jesus conversaria com esse humano, falaria de certo
princípio e lhe diria que foi a quebra desse princípio o causador da goteira.
E foi a quebra de tal princípio,
gente, que derrubou o avião da Chapecoense, incendiou centenas de jovens naquela
boate gaúcha e matou mãe e filho numa piscina de Maragogi na semana passada. Sabe
de qual quebra de princípio Jesus falou? Não? Pense. Jesus, seu danado.
Sabe, pessoal, não me entra na
cachola o porquê de alguns religiosos ficarem trombudos quando se diz que Jesus
foi baita revolucionário de esquerda. Ora, Jesus peitou o império romano para
quebrar a ordem estabelecida. Queria igualdade de tratamento para sua gente. Tão
forte a sua iniciativa/pregação que Pilatos mandou crucificá-lo. Tenho certeza
de que Jesus estaria sentado no lado esquerdo da assembleia francesa.
Jesus é caridade, harmonia,
equilíbrio, sapiência, compreensão, tolerância, compaixão. Agora, existe uma
palavra, raramente citada, que melhor define Jesus. Essa palavrinha é justeza. Justeza
significa preciso, exato, legítimo, imparcialidade. Significa “tal como deve
ser”. Justeza está neste belo pensamento de Jesus:
“Daí a César o que é de César e
a Deus o que é de Deus”.
Tem muita coisa aqui. Muita. Muita
mesmo. Tô me coçando pra falar de uma. Vou falar. Da romântica visão de um
Jesus contra a riqueza. Jesus não foi contra de nada material. Ele só queria
que o trajeto da materialidade ou da riqueza fosse percorrido com legitimidade
e merecimento. Ele só queria o “tal como deve ser”.
FAZER JUS. Já ouviu essa
expressão? Pense nela. Jus, justeza e Jesus, tudo a ver.
Como uma coisa puxa outra, a
justeza de Jesus acaba de me levar ao IBGE. Vivo, confesso, em eterno êxtase. Vejam.
Segundo o IBGE, 83% da população brasileira é cristã. Isso quer dizer que 83%,
cerca de 185 milhões de indivíduos, praticam a caridade, harmonia, equilíbrio,
compreensão, honestidade, tolerância, compaixão, fidelidade. Numa palavra: bem-estar
coletivo. Orgulho nacional. A pesquisa do IBGE, aliás, foi um desperdício de
recursos, haja vista as redes sociais e a imprensa escancararem diariamente o
fraterno comportamento brasileiro. É lógico que nesses 83% existem cristãos só
de pesquisa, os da boca pra fora. Mas são exceções raras. Raríssimas. Conta-se
nos dedos da mão direita.
Lembro-me daquele deputado,
daquele pastor, daquele banqueiro, daquele jornalista, daquele padre, daquele
senador, daquele ex, daquele médico, daquele governador, daquele empresário,
daquele sindicalista, daquele, daquele, daquele. E me lembro daquelas também.
São seres fora do fazer jus de
Jesus. Não atino como Jesus, o cara, administra esses efeitos, mas, com
certeza, fica procurando a causa do desvio da carruagem.
Como uma coisa puxa outra, a
carruagem de Jesus acaba de me fazer tomar uma decisão:
Vou puxar o carro.
No 1 do 26,
TC
Nenhum comentário:
Postar um comentário