domingo, 11 de janeiro de 2026

A goteira, o cachorro e Jesus

 


O piso molhado não é problema para os alienados: pisam-no papeando e pronto. Passos que seguem. Atrás deles vêm os bem-intencionados: pegam um rodo, um pano de chão, secam o pisam e pronto. Passos que seguem. O piso está molhado quando os pensadores vão passar: olham pro teto, veem a goteira, retiram-na e pronto. Passos que seguem.

É hora de confessar, informar e lembrar:

A confissão: a historinha do piso é eloquente metáfora criada pela premiadíssima filósofa brasileira Lúcia Helena. A informação: do pano secar o piso nasceu a expressão “passar pano” para camuflar situações cujas providências exigem mais do que atitudes paliativas. A lembrança: a lei-mor dos humanos. Não há efeito sem causa. Essa lei prova a existência de um Criador imaterial e onipotente. Procure a causa de tudo o que não é obra humana. Não a encontrou em certas obras? Pode apostar que o “certas” é obra do Criador.

É bem legal ver causa virando efeito, que vira causa, que vira efeito, que... Na verdade, são coisas prendendo e soltando coisas. Chamo essas coisas de lei puxa-puxa.

Como uma coisa puxa outra,

o prender das coisas me puxou para a prisão/ sequestro do Maduro feito pelo Trump no 3 do 1 deste 26. Puxou e logo puxou-me para a causa do sequestro:

 “A rebeldia desse cabeça dura em não comparecer a um tribunal americano para ser interrogado sobre a acusação de terrorismo e narcotráfico”, disse o Trump, que também disse detestar teleconferência.

Então tá. Interrogado o “cabeça dura”, morreu maria preá, pensei. Pensei errado. A brutalidade não acabou. Maria preá não morreu. Nasceu, na verdade. Nasceu ao ter nomeado o Trump CEO da Venezuela.

Como uma coisa puxa outra, corri para os noticiários e articulistas a fim de conhecer a causa real do sequestro, já que a do interrogatório enraivecia o bom senso. Petróleo do Maduro associado à megalomania do Trump, essa foi a causa, segundo os articulistas. Escutei um psiu. Vinha do Instagram. Mandei-me pra lá. Queria conhecer a opinião dos especialistas dele. Apareceu uma causa nova: solidariedade. Segundo parcela dos comentaristas, o Trump sequestrou o Maduro para libertar os venezuelanos da ditadura. Ocorre que essa causa fez os comentaristas do Instagram brigarem feio.

Destaco as foiçadas entre o arrouba Saldanha e o arrouba Messias. Saldanha de esquerda, Messias de direita. A direita do Messias dava cafunés na cabeleira do Trump com o argumento de que os venezuelanos estavam nas ruas comemorando a invasão libertadora do Trump. O Saldanha respondia dizendo que os venezuelanos não comemoravam a invasão trumpista. Comemoravam a derrocada do Maduro. Foiçada vai, foiçada vem, o Saldanha alega que os venezuelanos têm amor-próprio, dignidade, história, patriotismo, essas coisas, daí que não iriam aceitar viver sob o cabresto de um megalomaníaco americano.

A briga terminou assim:

Tás nessa, Saldanha? Os venezuelanos estão fugindo do país pra não morrerem de fome. Dignidade, patriotismo, essas coisas, não enchem a barriga de ninguém, Saldanha. Saldanha rebateu forte: Vai te foder, Messias. Muuu. Messias deu o troco: Vai te foder tu, esquerdista comunista fuleiro. Não vejo a hora de o Trump expulsar o comunista 9 dedos da presidência.

Como uma coisa puxa outra, o “esquerdista fuleiro” levou-me direto pra França da Revolução Francesa. 9 de julho de 1789, Robes é o primeiro deputado a chegar ao parlamento para a abertura da Assembleia Nacional Constituinte. Chega, pensativo, cabeça baixa, vai se encaminhando para a direita do auditório quando vê um cachorro com a língua de fora. O Robes (Robespierre, né, pessoal?) tinha medo adoidado de cachorro. Então ele retrocede e vai se sentar no lado esquerdo do auditório. Minutos depois chegam o Marat, o Danton e juntam-se ao Robes. Quase ao mesmo tempo, chegam o Brissot e a madame Roland. Como não se bicavam com o Robes, acomodam-se no lado direito. E assim o auditório foi se enchendo de acordo com quem bicava com o Robes ou com o Brissot.

É preciso informar que a França vivia num miserê dos diabos. Cachorro faminto nas ruas não faltavam. Além do mais, o francês adora cachorro. É preciso informar, ainda, que o Brissot, sentado à direita, era respeitado líder girondino. Os girondinos defendiam a manutenção da monarquia e da hierarquia. Do deixa quieto, por assim dizer. Conservadores, portanto. Os girondinos tinham bastante apego ao rei Luís 16 e à rainha Antonieta. Já o Robes, sentado à esquerda, era festejado líder dos jacobinos. Os jacobinos defendiam o fim da monarquia, queriam um governo centralizado e lutavam pela igualdade social. Buscavam a transformação. Progressistas, portanto.

Pois é. Não fosse aquele vira-lata no caminho do Robespierre, e ele teria se sentado à direita do auditório. Entendeu? O Saldanha e o Lula seriam da direita. E o Messias e o Bolsonaro seriam da esquerda. História, sua danada.

Como uma coisa puxa outra, a busca pela transformação social da esquerda do auditório francês levou-me para Yeshua, ou Jesus. Sou fã desse cara. E não dou a menor importância à versão histórica - a de Jesus ser filho legítimo de José e Maria - ou à versão religiosa - a de Jesus ser filho adotivo do casal, posto ter sido obra do espírito santo. A verdade é que a sabedoria de Jesus venceu a apatia cognitiva reinante na sua época. Tanto que a história se sentiu obrigada a criar o termo sapiência, que nada mais é do que sabedoria divina ou superior, e a contar o tempo para antes e depois de Jesus. É mole! É o cara ou não é? História, sua danada.

Ilustro a sapiência. Na metáfora da filósofa Lúcia Helena, os pensadores se valem do segundo olhar - prática que todo mundo devia cultivar - sobem no telhado, eliminam a goteira e pronto. O que faria o sapiente Jesus? Eliminaria a goteira, é claro, mas sabe Jesus que o telhado é inocente. E sabe que foi um humano o responsável pela primeira causa dos úmidos efeitos. Então Jesus conversaria com esse humano, falaria de certo princípio e lhe diria que foi a quebra desse princípio o causador da goteira.

E foi a quebra de tal princípio, gente, que derrubou o avião da Chapecoense, incendiou centenas de jovens naquela boate gaúcha e matou mãe e filho numa piscina de Maragogi na semana passada. Sabe de qual quebra de princípio Jesus falou? Não? Pense. Jesus, seu danado.

Sabe, pessoal, não me entra na cachola o porquê de alguns religiosos ficarem trombudos quando se diz que Jesus foi baita revolucionário de esquerda. Ora, Jesus peitou o império romano para quebrar a ordem estabelecida. Queria igualdade de tratamento para sua gente. Tão forte a sua iniciativa/pregação que Pilatos mandou crucificá-lo. Tenho certeza de que Jesus estaria sentado no lado esquerdo da assembleia francesa.

Jesus é caridade, harmonia, equilíbrio, sapiência, compreensão, tolerância, compaixão. Agora, existe uma palavra, raramente citada, que melhor define Jesus. Essa palavrinha é justeza. Justeza significa preciso, exato, legítimo, imparcialidade. Significa “tal como deve ser”. Justeza está neste belo pensamento de Jesus:

“Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

Tem muita coisa aqui. Muita. Muita mesmo. Tô me coçando pra falar de uma. Vou falar. Da romântica visão de um Jesus contra a riqueza. Jesus não foi contra de nada material. Ele só queria que o trajeto da materialidade ou da riqueza fosse percorrido com legitimidade e merecimento. Ele só queria o “tal como deve ser”.

FAZER JUS. Já ouviu essa expressão? Pense nela. Jus, justeza e Jesus, tudo a ver.

Como uma coisa puxa outra, a justeza de Jesus acaba de me levar ao IBGE. Vivo, confesso, em eterno êxtase. Vejam. Segundo o IBGE, 83% da população brasileira é cristã. Isso quer dizer que 83%, cerca de 185 milhões de indivíduos, praticam a caridade, harmonia, equilíbrio, compreensão, honestidade, tolerância, compaixão, fidelidade. Numa palavra: bem-estar coletivo. Orgulho nacional. A pesquisa do IBGE, aliás, foi um desperdício de recursos, haja vista as redes sociais e a imprensa escancararem diariamente o fraterno comportamento brasileiro. É lógico que nesses 83% existem cristãos só de pesquisa, os da boca pra fora. Mas são exceções raras. Raríssimas. Conta-se nos dedos da mão direita.

Lembro-me daquele deputado, daquele pastor, daquele banqueiro, daquele jornalista, daquele padre, daquele senador, daquele ex, daquele médico, daquele governador, daquele empresário, daquele sindicalista, daquele, daquele, daquele. E me lembro daquelas também.

São seres fora do fazer jus de Jesus. Não atino como Jesus, o cara, administra esses efeitos, mas, com certeza, fica procurando a causa do desvio da carruagem.

Como uma coisa puxa outra, a carruagem de Jesus acaba de me fazer tomar uma decisão:

Vou puxar o carro.

 

No 1 do 26,

TC

 

 


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