CINCO A CINCO
Esse era o
placar quando voltei do mato. O jogo estava empatado e, naquele momento,
últimos segundos dos acréscimos, o time dos infringentes tinha um pênalti a
favor, porquanto um novato dos incontinentes metera a mão na bola dentro da
área. Infringentes e Incontinentes, pessoal, faziam o clássico no campinho do
Araçá, distrito de Extremoz. Infringentes, diga-se, não por viverem
infringindo, mas por serem gente de Infrin, lugarejo parede e meia com o nosso,
Contine. Da mesma forma, éramos incontinentes por sermos de Contine, e não por
vivermos mijando nas calças. Por exigência da Sociedade Tutora de Futebol
(STF), o jogo estava se realizando em campo neutro, no Araçá.
Mal chego,
François foi logo esbravejando:
“Bicho burro,
Tião, o Novato. O lance era só dele, cara, aí o prisiaca acha de meter a mão na
bola. Cara experiente,
bicho! Sei não, viu? Pra mim... A sorte da gente é que quem vai bater é
o novato do Decano. O danado, dizem,
é danado pra chutar pra fora”.
- Mas também
dizem que ele bate iguazinho ao Lula: rasteiro e no canto. Aí não tem goleiro
que pegue, meu.
Lula, no caso,
era nosso ponta esquerda. Saiu dos Incontinentes para o Ferroviário de Natal e
de lá pro Fluminense do Rio. Nunca perdeu um pênalti o canhotinha.
Já entenderam,
suponho, que torcíamos pelos Incontinentes. Na verdade, eu e o François éramos
titulares do time. Ele, zagueirão, por méritos; eu, meio-campista, por... Eu
era o dono da bola, gente. Bola de meia, diga-se. Só que, François, contundido,
não estava jogando. Eu, ressacado, morrendo de dor de barriga, também não.
Talvez estejam estranhando a “bola de meia”, não? Mas era de meia, sim. Isso
faz muito tempo, meus nobres.
Aliás, aquele
era um jogo histórico. Marcava a despedida da querida bola de meia. Mandei até
esculpir um pé de meia como troféu. Ficou lindo. De mais a mais, o vencedor
levaria uma bola de couro nº 5, comprada com dinheiro ganho no cachorro, o 5 do
jogo de bicho.
Os
Infringentes, então, estavam na iminência de abocanhar o pé-de-meia e levar a
bola. Bastava o Decano converter o pênalti. Agora tinha um detalhe. Se o
azoreta chutasse pra fora ou nosso goleiro defendesse, os vencedores seríamos
nós, os Incontinentes, pois o regulamento, feito por mim, ficou meio
tendencioso, pra não dizer labrojeiro.
- O Negão tá
apitando bem, François? Tá dando uma puxadinha pra gente?
-
Tá. Mas de quando em quando dá uns volteios pra plateia. Sabe como é, né, Tião?
Bom,
o Decano beija a bola, dá uns passinhos atrás, mira o goleiro, o Aurélio.
Expectativa geral. O juiz olha ao redor, olha o relógio, olha o tempo e apita o
fim de jogo:
-
Tá ficando escuro, excelências. O pênalti fica pra quarta-feira à tarde.
“Isso
pode, Arnaldo?”, brinquei com François, captando a intenção do juiz: o Negão
considerava fraquinha a torcida dos Incontinentes. Achava que na quarta-feira o
maior número de torcedores vaiaria o Decano, pregando-lhe pressão, primeiro
passo para o peste perder o pênalti.
“Pode.
A regra é clara. É clara, mas há controversas, Tião”.
Certo
é que na quarta-feira o Decano bateu o pênalti. Chutou nas nuvens. Vitória
nossa, dos Incontinentes, portanto.
Mas os 11
Infringentes levaram a bola e o pé-de-meia. Fiz que não tinha visto. Haveria de
ganhar novamente no jogo de bicho. E ganhei. Na quinta-feira joguei no 11, cavalo.
Deu na cabeça, gente.
Um abraço e
bom jogo,
Tião
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