UM QUÊ DO CHICÃO E DO CEMITÉRIO ENDINHEIRADO
Apresento-lhe dois
trechinhos do romance QUÊ! Se quiser estrangular a curiosidade, vá aqui em cima
em clique na guia e-book QUÊ!
Um abraço e boa
leitura.
6 –O ESCRITOR ARTUR RONAN
DORE E A REPÓRTER VERA
De mais
a mais, meus romances têm o intuito de acabar com a hipocrisia de esconder o
lado erótico da vida. É absurdo o falso moralismo como é tratada a convivência
sexual.
Cheguei à Pousada da Luz ao meio dia e quatro
minutos. Na entrada, numa areazinha recuada, acomodava-se um jovem senhor, de
óculos escuros, ao lado uma bengala. O Sr. Inácio nos apresentou: a ele, como o
renomado escritor Artur Dore; a mim, como o Sr. Paulinho, proprietário da
hospedaria. Trocamos breves palavras. Dali a minutos o Sr. Inácio levava-me ao
apartamento e me convidava para almoçar. Almoçamos na pousada. Falamos sobre
literatura e fizemos recíprocos pedidos: eu o chamar de Inácio, apenas, e ele
me apresentar ao investigador do caso. Despedimo-nos, pedidos satisfeitos,
porquanto eu ter agradecido com um “obrigado Inácio” ao ser apresentado à
delegada Selma.
Vim para o quarto, liguei o gravador do celular e,
por pretender romancear o mistério, comecei a descrever os acontecimentos.
Neste instante, começo a escutar o papo com o motorista Chicão. De Cristal a
São Mateus foram duas horas e vinte e dois minutos de valiosíssimas
informações.
Chicão é tagarela. A princípio receoso, imaginava o
falatório interferindo no senso de dirigir, mas logo o notei perito no volante.
Chicão deu-me ciência de praticamente todos os misteriosos fatos da sexta-feira
de São Mateus. Muitos desconhecidos da imprensa, a exemplo
da fuga do dono (na
hora entendi dono em vez de dona) da pousada aonde eu ia me hospedar. Chicão
falava, eu impingia-lhe reticências, ele se estendia à procura do ponto final.
- O dono da pousada devia muito dinheiro, pois.
Nesse caso...
- Devia nada, doutor. Quem fugiu foi a dona, a
Amélia, a esposa oficial do dono, o Paulo cego. Fugiu com a Neide, a empregada
dela. Foram morar juntas. Duas sapatas 44, doutor. Amélia deixou uma carta. O
doutor vai ler a baixaria. Ela mandou o irmão pregar a pouca vergonha na parede
da pousada.
Sabe, doutor, o Paulo cego é cego, sabe? Cegou...
Essa história é longa, meu amigo. Mas, isso aqui pra nós, doutor. Mas, com a
cegueira, o Paulinho trocou de lado. Dizem, né doutor? Paulinho era
raparigueiro oficial, mas virou as bandas pras bandas do Nicolau. Cabra bom o
finado Nicolau. Fechou a cantina e saiu mundo a fora com o amigo.
- Esse Nicolau, Seu Chicão, é o dos jornais, o...
- É o próprio, doutor... Quero lhe falar uma
coisinha, Sr. Artur. Tenho a mania de
chamar certas pessoas de doutor. Mas longe de mim puxar o saco de ninguém.
Detesto babão. Esse costume começou quando apanhei um funcionário vindo de Androsília.
Tentei entabular conversa, mas chamava o homem pelo nome. Desconfiei do jeito
sério do cara e passei a chamá-lo de doutor. Aí, doutor, o rapaz mudou da água
pro vinho: tornou-se simpático, sorridente, falante. Tem muito pedante oficial
neste mundo velho, doutor. Bom, de lá pra cá...
É o próprio, doutro. Mataram o Nicolau. O enterro
vai ser hoje de tarde. Mataram ele, a filha e a gatinha deles. Agora, falavam,
às caladas, né, doutor, mas falavam. Paulinho tinha um chamego com Nicolau,
sim.
- Verdade, Seu Chicão?
- Dizem, né, doutor? O doutor sabe como é o povo.
Quem vai saber se o boato é oficial?
- Boato oficial é mentira, Seu Chicão.
Segundo trecho:
...Fiquei andando à toa, observando a fisionomia
chorosa do pessoal. Trinta e duas pessoas trajadas de preto, com escritos nas
mãos, faziam-me vê-las colegas dos mortos. Terminado o ato piedoso, aos cinco
para as cinco, saímos a pé, um carro de som a amplificar cânticos ecumênicos e
poemas do grupo enlutado. A nota dissonante, mas necessária, provinha dos
policiais, a escolta dos escritores. Afinal, cinco confrades haviam sido
assassinados de um dia para o outro. O olhar sombrio das nuvens, o ritual
religioso e o silêncio dos circunstantes tornavam a fúnebre procissão um evento
para a memória.
Impressionante como as pessoas queriam ajudar no
transporte do féretro. Dois caixões, 12 alças, eram escassos para as mãos
solidárias. Quanto mais nos afastávamos do centro, mais e mais indivíduos se
uniam à caminhada de lamento.
Avistávamos o cemitério quando o choro virou riso,
apesar do disfarce de mãos na boca. A culpa? Cédulas, muitas, muitas cédulas
espalhadas no trajeto. Agora de cem cruéis. O anônimo doador decidira
inflacionar a doação e dobrara o donativo.
Os chorosos começaram a se embrenhar no matinho
ralo, onde as notas se acumulavam, tangidas pelo vento. Por cinco vezes, dei-me
o trabalho de contar, o caixão da frente quase caía em razão do abaixa-abaixa
dos alceiros. Alceiros agora fixos, dada a ausência de substitutos. Mas, como
se pecado fosse, ninguém falava nada acerca dos cruéis achados.
Chegamos ao cemitério, eu na alça da frente do
primeiro caixão. Rápida prece, poesia final, isolados soluços, o corpo de pai e
filha são enterrados. A chuva ameaçava, a escuridão chegava, a procura
continuava.
Voltei ao centro no carro de som. Inácio me
apresentou à turma de preto, com mesuras à Socorro, a melhor romancista do
Panegírico, segundo ele. Combinamos nos encontrar no Panegírico, na terça-feira
à noite, deixaram-me na pousada e foram embora.
Fui para o meu chalé. Causa-me estranheza o nome
chalé. Nada a ver com o galicismo, conforme os puristas da língua. A palavra
chalé lembra uma construção simples, geralmente de madeira. Mas os chalés da Da
Luz são perfeitos apartamentos, cuja entrada se dá por cartões magnéticos, em
vez de rústicas chaves.
Às sete e sete botei no bornal um tubinho de aguardente e me
dirigi ao refeitório. Pretendia tomar umas e jantar sopa. O restaurante estava
cheio. Vi o painel de avisos e lembrei-me da carta. A dona da pousada escreveu
uma carta de separação e mandou o irmão pregá-la no mural, disse-me Chicão.
Chicão enganara-se, porquanto no mural havia apenas...
Apenas...
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