AMOR, SEU DANADÃO, CADÊ VOCÊ?
Vicente
Serejo, arretado cronista de o Jornal de Hoje, daqui de Natal,
gosta de amar. Do contrário, não teria namorado o “O Amor acaba”,
clássico de Paulo Mendes Campos, e nos acariciado com a publicação em sua Cena
Urbana. Em seguida, afagou-nos com a exposição de “O amor começa”,
contraponto de José Carlos Oliveira. Achou pouco o cronista Vicente e nos
brindou com a “Crônica do amor que começa”, brincadeira de Xico Sá com a
prosista dupla de escritores. Isso na semana passada e em edições consecutivas.
“O amor acaba.
Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova”, diz Paulo Mendes Campo. “O
amor começa à
noite, por exemplo, numa festa, embriagada mais pelos sentimentos
contraditórios que lutam em seu coração do que pela quantidade de uísque que se
permitiu beber”, afirma
Carlinhos Oliveira. “O amor começa, por exemplo, em uma noite de
sesta-feira, a noite do pecado por excelência”, afirma Xico Sá. O trio é foda
na matéria amor, não?
Escreveram
mais: “Para recomeçar
em todos os lugares e a
qualquer minuto o amor acaba”. “O amor começa, poeta, obedecendo à mesma
lei que o liquida”. “Quem nasceu primeiro: o amor acaba ou o amor começa?” Por
óbvio, quem
é quem nas citações é irrelevante.
Ah se um Ovídio eu fosse, Serejo.
Diria que o amor não acaba. Tampouco começa. Mas
houve um começo, da mesma forma que haverá um fim e que será eterno enquanto
durar. Houve um começo, sim. Começou com o danadão Adão e a danadeva Eva.
Começou, puseram-no sob as asas de certa dama, que logo logo lhe arrumou um
parceiro e os fez se amancebarem. O amor – esse aos quais se referem os
cronistas - é imune à culpa, isento de euforia, hostil à vaidade, inimigo da
indecisão. Esse amor pertence à índole do sapo e do escorpião, é empregado das
nuvens de Tancredo Neves e produto da visão dum amaleitado. É intempestivo,
inquieto e desclassificado. O abençoado adora passear. É sobretudo um pau
mandado. Bendito pau mandado, diga-se.
“No
sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; a qualquer hora
o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba”. Não, cronista! Não acaba.
Recolhe-se, tal qual uma daquelas nuvens, espera dar o bote, a exemplo do
escorpião, ou está pensando em mudar de cama, feito um febril. Não acabou,
portanto.
Assim
como o azul não é cor e sim distância (não é François?), o acabar não é o fim
do amor e sim o início da lembrança. A vitória da saudade.
A
sentença sempre será proferida por certa dama. O amor é simples pau mandado.
Mas é danado de bom.
“Quando
voltamos de um fim de semana e uma janela fechada, no outro lado da rua, parece
sorrir. Quando reconhecemos alguém que vimos certa vez num lugar onde não temos
o hábito de ir. Cuidado. O amor pode estar começando”. Não, cronista! Não está
começando. Está simplesmente se acomodando, tal qual uma daquelas nuvens,
esperando se dar bem, a exemplo do escorpião, e mudando de cama, feito um
febril. Não começou, portanto.
O
começar não é o início do amor e sim o fim da expectativa. A vitória da
esperança.
A
sentença foi de certa dama. O amor é simples pau mandado. Mas é danado de bom.
“E
quando você menos espera, o amor começa. Sabe onde? No joelho de Camila
Pitanga. Um amigo meu, muito tempo atrás, viu que a nega sentia dores no
joelho, talvez de um mau jeito na pista de dança. Pegou o gelo do uísque e
botou nas dobradiças da deusa. Se aquele amor não deu certo, problema do amor.
Santa fagulha!” Não, cronista. Não começou. Acaba de chegar ao amor as
primeiras ordens, tal qual uma espreguiçada das nuvens, ele pensa em se dar
bem, a exemplo do escorpião, e planeja mudar de cama, feito um febril. Não
começou, mas se estabeleceu. Você está certo.
A
sentença de certa dama está sendo redigida. O pau mandado do amor está
esfregando as mãos.
Há
uma química no amor, disse alguém. É verdade. O caráter mutante do amor é tão
somente a versão sentimental da química lei de Lavoisier. É ou não é?
E a dama? Ovídio era íntimo dessa dama, Serejo.
Todos somos, a rigor. Quem a concebeu e deu-lhe a missão de falar com o amor?
Desconheço. Desconheço, mas desconfio. Mas de uma coisa tenho certeza. A
criatura foi criativa e camaradíssima conosco. Juntou amor e prazer, fugiu da
mesmice e... Ah, isso não vem ao caso. Ou vem?
Será que sem o parceiro - o prazer -, o amor dos
três cronistas teria futuro?
Será que sem esse concubinato, na ausência da
completa liberdade da duplinha, a mesmice não se tornaria amante do tédio e
adeus tia chica?
Será que sem uma dama a lhes dar ordens, amor e
prazer, conquanto amasiados, não morreriam de inanição?
Será que sem a poderosíssima dama - D. Imaginação –,
o amor se faria presente à noite festiva de Carlinhos de Oliveira e estaria a
perambular nas festanças das sextas-feiras de Xico Sá? Teria o amigo de Xico Sá
posto gelo nas dobradiças da deusa Camila, caso D. Imaginação tivesse lhe dado
as costas? Melhor: haveria deusa?
Ah, a imaginação. Levanta montanhas, junta oceanos,
alavanca a ciência. E ajuda a fazer menino.
“O amor é um crime que não se pode realizar sem
cúmplice”, disse Baudelaire. Estaria o poeta francês se referido ao amante do
amor, o nosso amigo Prazer? Acho que sim.
Prazerosos e literários abraços,
Tião
Nenhum comentário:
Postar um comentário