Insisto. Mande-me
um texto pra gente curtir, meu nobre. Até ontem, apenas o Zé Alves e a Carmen
Lobbo deram o ar da graça. Hoje, recebi uma supimpa prosa da leitora Silvana
Bezerra. “Um continho, Tião”, escreveu ela. Continho uma píula. Um contão,
gente. Leia e diga que estou mentindo, se tiver coragem.
Obrigado, Silvana
e boa leitura a todos,
Tião
PEGAÇÃO MENTAL NO
METRÔ
Olhou para as sonolentas axilas do esposo e sorriu.
Não o costumeiro, o vermelhão da espontaneidade, e sim um amarelão protocolar.
Havia dias estava nas nuvens da insegurança, como a provar que o toque no ombro
e o “moça” daquela moça tivessem bombardeado seu clima emocional. Tentava tirar
aquilo da mente, mas chover no molhado era o que acontecia.
O marido se
remexeu, ela acariciou-lhes as cabeludas coxas. Quis beijá-las, refugou. Aquilo
não estava acontecendo. Seu homem ao lado, desnudo, em que singela carícia na
orelha soltaria as rédeas do prazer e faria os cavalos da volúpia relincharem,
e ela, ali, encurralada pelo sussurrado aviso de solidária ruiva. Como não
beijar o Afonso, galã global, cobiçadíssimo pela mulherada? Desaprovou-se, foi
ao banheiro, visitou as recordações. As lágrimas deram-lhe as boas vindas.
Depois do respiro oceânico e da fungadinha básica, a volta para a cama. Na
companhia, quinze dias atrás:
Apanhara o
metrô na Estação da Luz. Minutos depois,
o toque no ombro:
“Sua bolsa
está aberta, moça”.
Uma oração foi
o suficiente para a moça pontilhar o ponto do pecado. Apenas uma, porém as
incontáveis rezas estavam sendo incapazes de afastar Marlene dos demoníacos
pensamentos. Se é que devemos denominar de demoníaco os devaneios da mais
deslumbrante diversão do dia a dia. Pouco importa se à duas, à dois ou em
duplas.
Marlene já
lera sobre o poder da entonação vocal e da força cavalar do sorriso, mas só
naquele momento, aos vinte e seis anos, conseguia prová-los. Marlene balbuciou
um “muito obrigada”, devolveu o sorriso, fechou a bolsa. Sentaram-se frente a
frente. Marlene não tirava os olhos da simpática e protetora jovem ruiva. Não
era uma simpatia passageira. Algo tremendamente veloz empurrava para a moça o
olhar de Marlene. A empatia, a simplicidade das vestes – jeans e blusa solta,
verdinha – e até o olhar fugidio da ruiva, como se envergonhada estivesse,
compunham o libertino algo de Marlene.
Marlene
assombrou-se, pois, descaradamente, estava dando em cima da garota. Logo ela,
ambição dos homens, e inimiga das carícias homossexuais. Secretamente, é
verdade, já que, em público, era a maior defensora da liberdade sexual. Disfarçadamente,
Marlene pegou o celular e tirou uma foto da moça.
Estação
Pinheiros, o metrô se abre. A jovem desce, Marlene pensa em acompanhá-la, quer
se abrir. Hesita. O metrô se fecha. Fechada em si, Marlene visita o poeta: “O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na
intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas
inexplicáveis e pessoas incomparáveis".
Intensidade
era o entalo na garganta; inesquecível, o apaixonado olhar da moça, como a
querer açoitá-la com beijos; inexplicável, a sensação do que estava sentindo.
Aquilo só podia ser amor.
Marlene sacode
o cabelo, afasta o passado, senta-se na cama, devagarzinho, pois não queria
despertar Afonso. Ou estaria ele acordado e fingia, bom ator que era?
Tinha razão
Marlene:
- O que está
havendo com você, querida? Faz pouquinho tempo, você alisou minhas pernas, mas
não me beijou, como sempre faz. Agora, fica uma eternidade no banheiro e
deita-se sorrateiramente, como se ao lado estivesse um vazio saco de pipoca.
Está rolando alguma coisa?
- Está rolando
nada, Afonso. Amo você, amor.
“Sei disso,
Marlene. Mas há dias você vem se mostrando insegura”, disse Afonso, aninhando
nos peitos a cabeça da mulher, remexendo-lhe o cabelo, beijando-lhe os olhos,
nessas alturas, molhados.
Marlene
desmoronou com tamanho carinho do marido:
- Aquela moça.
No metrô. Faz quinze dias. Foi surreal, Afonso.
Pode falar,
amor. O que aconteceu?
Marlene contou
tudo. Da bolsa aberta, passou pelas portas fechadas do metrô e chegou ao aperto
luxurioso que estava experimentando. Abriu-se, por fim.
Afonso ouvia
calado, impassível. Nem sequer um músculo mexia. Fechadão, enfim. Acabada a
confissão:
- Quer dizer
então que você ficou apaixonada pela ruivinha?
- De certa
forma, sim. Não posso negar, querido. Desculpe.
Afonso
assentiu e um riso começou a se rascunhar, de nervosismo, dava a entender. Daí
os olhos se avermelharam, as bochechas engravidaram e pariram estrondosa
gargalhada. Afonso foi apanhar algo na gaveta do criado mudo.
Apavorada,
Marlene pensou em correr. No criado mudo, Afonso guardava uma pistola. Ele
tinha um histórico de violência. Batia na primeira mulher, diziam. Por que me
abri, Senhor? Essa gargalhada é de ciúme, tensão, ódio. O Afonso vai me matar.
Minha Nossa!
Pálida,
Marlene viu o esposo abrindo a gaveta. Reconfortada, notou que ele lhe apontava
um pen-drive, acoplava-o na tevê e se expressava da maneira mais orgástica do
mundo:
- Sabe, filha,
acho que conheço a ruivinha. Veja se é esta.
Aparece então a ruiva atrás de Marlene, abrindo-lhe
a bolsa na porta do metrô.
Mas... Como
pode, Afonso. Eu...
“Assista,
minha filha”, divertiu-se Afonso, pondo-se às costas da esposa, enlaçando-a,
beijando-lhe o pescoço.
A fita,
obviamente, reproduz o testemunho da Marlene afogueada, ansiosa, inquieta. Mas
que, agora, apresentava-se surpresa, desatinada, boquiaberta. E monossilábica:
mas, mas, mas.
A ficha caiu,
e Marlene caiu no choro, quando a filmagem mostrou Afonso no carro da
Televisão, livrando-se da peruca ruiva.
- Meu Deus,
amor. Você... A moça era você. Nossa! Mas por que abriu a bolsa?
Tudo é segredo
ainda. Mas, na próxima novela das oito, farei uma ruiva ladra. Daí que a
produção julgou por bem ensaiar meu papel. Escolhi você, porque vai que eu me
atrapalhasse e a vítima abrisse o bocão? Com você estaríamos em casa, entendeu?
Rindo e
chorando, Marlene jogou na cama o marido, pôs-se por cima, desvencilhou-se de
inutilidades e sentenciou:
- Vou
mastigá-lo todinho, seu negrão ruivo.
SB.
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