A CARRASPANA DE CERTO FOLIÃO
Foi
o Benjamim quem primeiro desconfiou. Não disse uma nem duas, mas o olhar do
cara pra cima do negrão dizia tudo. Nisso, o Miguel caiu na risada. Aí não deu
outra: em segundos estávamos todos rindo. Tudo começou...
Bom,
estávamos em Muriu, domingo de carnaval, cerca de nove horas da noite. Só amigos.
De fora apenas a moça que cuida do jardim da casa. Jogávamos umas pra dentro, jogávamos
bingo, jogávamos conversa fora. Exceto a dupla Benjamim/Miguel. Esses dois,
aliás, são esquisitões: não bebem, não fumam, nem são de jogar conversa fora. O
negócio deles é observar e distribuir gozação com o olhar. Daí que o Benjamim
não deixou passar em branco o “carnis levalle”
do negrão. Percebemos a fala erudita do cara, estranhamos a eloquência, mas
ficamos na nossa. Mesmo porque ainda estávamos sóbrios, inclusive o negrão. Mas
a gargalhada do Miguel nos contagiou.
“De
que tão rindo, seus bucéfalos?”, indagou o negrão, naquele jeito baixinho de
falar. Falou e pirou. Vejam como o danado falou:
Fiquem
sabendo que “carnis levalle” é a
origem do carnaval. Significa jogar fora a carne. Seja a mastigável, seja a
carnal, se é que os ignorantes bucéfalos estão me entendendo.
Fiquem
sabendo que carnaval é subversão da ordem social, troca de papéis
consuetudinários. Na babilônia, por exemplo, o rei escolhia um prisioneiro para
assumir o seu reinado durante os três dias de carnaval. O felizardo passava os
três dias numa boa, com direito a dormir com as esposas do rei, só que na
quarta-feira de cinzas o infeliz era enforcado e empalado.
Fiquem
sabendo que o triângulo amoroso entre Pierrô, Arlequim e Colombina...
Empolgado,
o negrão gesticulou e a mão esquerda derrubou o copo de cerveja. A esposa, a
Van, logo pegou um pano e... Prestou não. O negrão ficou transtornado. Ficamos
apreensivos. A moça do jardim, então! Era uma tristeza só. Tudo porque o negrão
viu um jota no pano e conheceu a cueca dele. O bicho ficou fora de si e deu
aquela brigada com a mulher. O negrão, pessoal, não quer que a Van beba. E a
Van já não fazia um quatro. Tão desorientado o cara ficou, que achou que a moça
do jardim era a mãe dele. Soltou o verbo:
Eu
mato. Eu mato quem pegou minha cueca pra fazer pano de prato. Ô jardineira por
que estás tão triste? Mamãe eu quero mamar.
“E
agora?”, perguntou o Miguel, reconhecendo a doidice do negrão.
O
negrão saiu pra rua, deu um tropeção na Chiquita Banana e derrubou a lata
d’água que a pobre carregava na cabeça. Saímos na cola dele. Logo o negrão
tirou onda com o Zezé, o garçom do barzinho do Zé Pereira, nosso vizinho:
“Olha
a cabeleira do Zezé. Será que ele é”? Jogou a indireta, ficou sassaricando e
cantando “eu bebo sim”. De quando em quando o danado olhava pra trás, dizia que
ia lavar o pé do sapo e zombava da gente, dizendo que o cordão dos puxa-sacos
cada vez aumentava mais. O negrão desistiu de lavar o pé do sapo e
entrou num
clube. Apanhou uma máscara negra e caiu na gandaia, cantando alalaô. Não passou
três minutos, gente, o negrão criou uma confusão. Uma jovem, a Margarida,
acusou o bicho de ter jogado pó de mico nela. Tentaram botar o negrão pra fora.
Ele ficava repetindo o “daqui não saio, daqui ninguém me tira”. O jeito foi
chamar a polícia. Fomos todos pra delegacia. Afinal, somos amigos do
arruaceiro. Mas não ficou preso, não. A esposa, a Van, chegou com uma bandeira
branca e deu um puto beijo no negrão. O delegado Lamartine Babo ficou
sensibilizado com a cena e soltou o negrão.
Voltamos
pra casa. Entramos em casa, o negrão cantando “Quem sabe, sabe e é dos carecas
que elas gostam mais”.
O
Miguel olhou pro negrão e soltou a piada:
“Cachaça
ainda mata o infeliz desses”.
Foi
assim ,sim.
Domingo
de carnaval de 2015 em Muriu,
TC
Nota:
Muriu,
belíssima praia, fica a 40 quilômetros de Natal. O negrão é Jean, amigo da turma
que estava na casa de praia. Como o Jean gosta de zoar com todo o mundo, achei
por bem dar um tempo na leitura de “Azar o seu!”, divertido livro da Carol Sabar,
e escrever estas besteiras para tirar onda com o negrão.
O Benjamim
é irmão do Miguel. Benjamim tem sete meses. Miguel vai completar dois anos.
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