A SORTE DO AZAR
“Setecentos e oitenta reais, senhor. Confira,
por gentileza”, pediu a moça. Rapidamente, Paulinho fez a separação: quatro
notas de cem na carteira, oito de cinquenta no bolso da bunda e oitenta nos
bolsos dianteiros da bermuda. “Em caso de assalto, espero livrar pelo menos um
bolso”, disse, sorrindo para a caixa da Caixa. Mas o precavido Paulinho acabava
de assaltar a jovem. O desonesto - como você notou pela conta das notas – já percebera
que ela estava lhe dando cem reais a mais.
A
grana de Paulinho origina-se da pesca. Ele é pescador no lugar onde
nasceu. Foi, melhor explicando. Explicando
melhor: durante três ou quatro meses ao ano, o governo federal dá um salário
mínimo a cada pescador, pois nesse período, o da desova dos peixes, conhecido
como defeso, a pesca é proibida. O pescador se cadastra em sua comunidade
pesqueira e recebe a grana.
Pois
bem, Paulinho pescava tucunaré e tilápia. Hoje mal distingue tucunaré de piaba,
porquanto viver na capital, na casa da irmã, fazendo bico de servente de
pedreiro, já que tem uma peixada no interior (um parente, o Guilherme). Guilherme,
o parente, o fiscal do Programa auxílio do governo federal, faz o migué e Paulinho
vai ao interior só assinar alguns papéis, chamados por ele, Paulinho, de Seguro
Defesa. A grana, pois, vinha desses papéis, das pastagens do governo, e não dos
pastos das barragens.
Verdade
é que Paulinho é um danado de esperto. Saiu da Caixa, matutou e decidiu voltar de
táxi pra casa. Com tantos assaltos a ônibus, não convinha arriscar. Pensava em
tomar umas cervejas e jogar no bicho, duas de suas três paixões. A terceira é
um bereuzinho. Paulinho adora rabo de saia de beréu.
Bom,
no bairro vizinho ao dele, Paulinho mandou o taxista parar na frente de um bar:
- Dezenove
reais e trinta centavos.
“Pode
ficar com o troco”, disse o mão-aberta Paulinho, dando cinquenta reais ao
taxista. O felizardo motorista deu-lhe sonoro muito obrigado, acompanhado de
não menos sonoro boa-tarde.
Paulinho
olhou as horas. Uma da tarde. Acomodou-se na calçada do bar e pediu uma
cerveja. Tomaria duas, jogaria no bicho e iria almoçar. Deixaria para beber à
noite. Foi só emborcar a primeira copada pra ficha do troco tilintar: porra! Tirara
a nota do bolso traseiro da bermuda. Cinquenta reais, portanto. Dera trinta
reais a mais ao taxista. Por isso o peste foi tão gentil, pensou.
O
bar estava vazio. Apenas um casal, a duas mesas da dele. Também bebiam cerveja.
No extremo da calçada a banquinha do jogo do bicho.
O
bicho vai ser camelo, pensou Paulinho, pensando na polpuda gorjeta. Trinta é
camelo. Quem sabe se o azar não traz a sorte? Paulinho comentou o episódio do
troco com o casal. Mais para puxar conversa, pois a moreninha era muito bonita:
“Ele
percebeu, sim. Foi desonesto, acho. Agora você joga na dezena trinta. Jogue a
placa de minha moto. 7230. De repente...”, aconselhou o rapaz.
Pra
quem já pensava no camelo foi um prato cheio. Mais uma copada de cerveja e lá
estava Paulinho jogando no bicho. Carregou no camelo. Primeiro ao quinto e
tudo. Tirou cem reais da carteira e passou pra cambista.
Paulinho
voltou e voltou a papear com o casal. E a beber. A jovem, Paulinho dava-lhe
vinte anos, ficava mais bonita a cada copo de cerveja que Paulinho chupava. Demais,
parecia tímida, o jeito preferido dele. Paulinho a admirava, mas com extrema
sutileza. Já se metera em inúmeras confusões por causa de sua ousadia com
mulheres. Embora, dissesse pra si, essa não pareça mulher do cara. Se fosse,
estariam juntinhos, não de frente pro outro.
Paulinho
aproveitou uma ida do rapaz ao banheiro para dar uma encarada na moça. Ela riu
timidamente e baixou a cabeça. Paulinho esfregou as mãos. Cinco minutos depois:
-
Estamos conversando de tão longe. Se quiserem sentar aqui... Tragam as
garrafas.
Assim
o rapaz apresentou-se:
- É
um prazer. Meu nome é Cláudio Nogueira, CN para os amigos. Essa é minha irmã,
Bruna Cláudia, a BC.
-
Sou Paulo Brasil. Podem me chamar de PB, então.
Então
começaram a jogar conversa fora e cerveja dentro.
Uma
das manias de Paulinho é beber com um livro, celular na mesa. Pega qualquer
livro da irmã e sai com ele. Não sabe ler, aprendeu tão somente a desenhar o
nome, mas acha charmoso sorver a bebida com um livro nas mãos. Caso tenha por
perto uma mulher, o intelectual prega os olhos na leitura e com uma das mãos
fica procurando o copo da bebida. Concentração total. Melhor, parcial, já que o
rabo de olho fica pescando os femininos homônimos. Naquela tarde, ele lia Cinquenta
Tons de Cinza.
-
Posso?
“Por
favor”, respondeu o solícito, interrompendo a resenha do futebol com CN,
entregando à BC o livro, sorriso de orelha a orelha. As do Paulinho, naturalmente,
não as dos Tons de Cinza ou as da BC.
Saíram
do assunto futebol e entraram no tema insegurança. Paulinho foi ao banheiro,
voltou, disse que havia pedido um tira-gosto de galeto com macaxeira e retomou
o tópico insegurança:
-
Morro de medo de ser assaltado, cara. Escuta só. Saquei há pouco, na Caixa,
setecentos e oitenta reais. Sabe o que fiz, com medo de ser assaltado no
ônibus? Espalhei a grana em tudo o que era bolso. Mesmo assim vim de táxi.
-
Pra gente maceteada como a gente isso não funciona, PB.
- É.
Aí eu pergunto, amigo Cláudio. Quando vai acabar essa onda de assalto, cara?
Todo o mundo vive assombrado. Sei não, viu?
-
Sei lhe responder não, PB. Só sei que pra eu e a BC só acaba quando a gente
morrer. É que tem muito assaltante, bicho. A concorrência tá grande. Pra você
ter ideia, faz duas horas que estou aqui e já vi passar bem uns vintes
assaltantes.
-
Mas por que tem tanto assaltante solto, cara?
-
Ah, PB, porque quase não tem polícia e tem muita arma no mercado do crime. Não
tô preocupado com isso não, PB. Mas eu podia resumir a situação com uma
palavra: risco. Pra gente, o risco é mínimo. Vale a pena.
-
É. Não vai pegar o tira não, Bruna? Pega aí. Pense numa macaxeira boa! O diabo
da cerveja é fogo. Vou no banheiro de novo.
Mas
Paulinho não queria fazer xixi. Pensava nas respostas de Cláudio. O cara dizia
a gente, a gente, a gente, como se ele e a irmã pertencessem àquela gente.
Disse até que tinham passado mais de vinte assaltantes ali. Como danado ele
sabia disso? Além do mais, Paulinho vira algo como um cabo de revólver na
cintura de Cláudio. Achava melhor pegar logo o beco. A jovem agora lhe causava
medo. Tomaria a saideira e daria o fora. Pensando melhor, melhor seria esperar
eles irem embora. Caminhou pra mesa com essa dúvida.
Enquanto
isso, Cláudio confabulava com Bruna:
- O
mané começou
a se borrar, Bruninha. Tá na hora de agir. O babaca tá a fim de
tu, gata. Tá ligada? Visse a conversa da macaxeira gostosa?
Paulinho
voltou e entendeu de soltar uma brincadeira para a Bruna. Queria gravar bem a
voz dela:
- E
aí, Bruna? Você parece desanimada...
- Nada
demais, PB. Apenas uma contrariedade numa parada que fizemos há pouquinho
tempo. O doidinho fez um gesto suspeito quando enquadrei ele, mas acabei não estourando
os miolos dele. Deu tudo certo, mas devia ter atirado. Esse era o protocolo
naquele caso. Sou muito exigente, PB. Sempre fico assim quando não sai tudo
perfeito.
“Quê?
Vocês foram assaltados?”, desconversou o trêmulo Paulinho.
-
Não, cara. Nós assaltamos. Somos assaltantes, PB. BC não é minha irmã. É minha
mina. Gostosa toda, não é? Vi teu olhar pra ela, bicho. Mas é muita areia pro
teu caminhozinho.
- Mas
homem! Deixe de brincadeira.
-
Sério. Vamos trabalhar. Pensava que você só tivesse aquela mufunfa. As notas de
cem da carteira. Uns quatrocentos, acho. Vi você tirar uma de cem e dar pra
cambista. Mas você tem mufunfa por tudo que é bolso, né, PB? Escuta. Queremos tua grana.
-
Mas homem!
-
Porra de tanto mais homem. Fica calmo e presta bem atenção, babaca. Tô com um
ferro na cintura. BC tem uma quarentinha na bolsa. Se quiser saber se tô
falando a verdade, basta olhar pra esquerda de minha cintura. Dá pra ver o cabo
do três oitão.
Então
é o seguinte. Nada de pedir mais nada. Nada de ir ao banheiro. Nada de nada
suspeito, entendeu? Fique com as mãos na mesa. Do jeito que a BC tá invocada...
Quero a grana, PB. Esvazie os bolsos sem pressa, tá? Faz de conta que tá me
pagando uma dívida. Se tu fizer um escândalo agora, a gente não atira, mas te
dou uma punhalada, entendeu? Agora, se o escândalo sair quando a gente tiver na
moto, aí eu te derrubo, está entendendo, PB? Olha só. Tem um carinha encarando
a BC, ali, na terceira mesa, querendo paquerar ela. Olhe pra ela, sorria e
alise as mãos dela. Mostre-se apaixonado. Isso! Assim mesmo. Outra coisa, PB, como
as mulheres são remansosas, é natural que BC fique mais um pouquinho contigo. Então,
eu vou primeiro pra moto. Sorria quando a BC estiver saindo daqui, tá? Está
tudo entendido, PB? Bom menino! Você é um mané legal, PB.
E
assim foi feito. Tudo como planejado pelo Cláudio, o CN. Paulinho só ficou mais
chateado foi com o “perdeu, boy” de Bruna:
“Vou
levar teu celular, PB. E o livro também”, disse ela, pondo os objetos na bolsa.
Aproveitou o embalo e fez questão que Paulinho visse o cano da ponto quarenta
apontado pra ele. Paulinho não aguentou aquilo e um xixizinho começou a escorrer
de leve. A parceira do xixi só não veio junto porque estava ainda se arrumando.
“Perdeu,
boy”, disse a Bruna, caminhando pra moto.
Puta
que pariu, ficou repetindo o desolado Paulinho.
E agora?
Como pagaria a despesa? Alguém acreditaria que ele fora assaltado ali? O xixi
convenceria o dono do bar? Se, ao menos, tivesse alarmado em seguida, mas,
agora, vinte minutos depois? Porra! Que azar!
O pobre
do Paulinho baixou a cabeça. Pensava. Procurava uma saída para o “perdeu, boy”.
Nisso, Paulinho quase cochilando, a saída trajou-se de cambista, entrou e
deu-lhe carinhosa tapinha no ombro:
-
Ganhou, boy.
-
Quê?
-
Ganhou, boy. O bicho foi camelo. 7230. Ganhasse cinco mil e quinhentos reais no
milhar e novecentos no camelo. Daqui a pouco eu pago os novecentos. Os cinco e
quinhentos você tem que receber na banca. Boa sorte, não foi?
- Minha
Nossa!
A sorte do azar.
Fevereiro/15
TC
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