AS ESCOLHAS DE JOANA
(Colaboração
da leitora Silvana. Belíssimo conto, quatro laudas. Espero o seu texto também,
tá? Envie para tcarneirosilva@gmail.com)
Dormi
mal. Certamente estava ali a razão do mau humor no café da manhã. Devia ter
sido menos amarga com a jovem que me servira o suco. Ela não tivera culpa de minha
indecisão entre suco de laranja e de caju, tampouco por eu ter optado pela
insípida laranja. Ela trocara pelo saboroso caju, mas meu agradecimento saíra
demasiadamente azedo.
Saboreava
o mamão e pensava em dar uma voltinha nos arredores da cidade. Afinal, iria
ficar um bom tempo sem vir a Natal. A companhia me escalara para voos
internacionais e dera como base Rio de Janeiro e São Paulo.
- Bom dia, srta. Joana. Dormiu bem?
Aborreci-me com a saudação do gerente do hotel. Não
só pela acidez do humor, mas também por birra a certas condutas. O gerente é vezeiro
delas. É muito meloso. O doce de seu cumprimento é puro interesse.
Ah,
como os homens são idiotas. Salvo as exceções, é claro. Basta ficarem diante
duma mulher bonita para escancarar o grotesco. Olham pra mulher como a querer
desnudá-la, tornam-se infantilizados, caricatos. Se estiverem bêbados, o cômico
se acasala com a inconveniência e expelem o ridículo. E esse tipo de homem não
percebe que o exagerado “benzinho” chega pegajoso aos ouvidos da verdadeira
mulher. Sou mais o mais ou menos feioso e autêntico que o extremamente bonito e
sonso.
Na
minha profissão, comissária de bordo, é comum assistirmos ao nascimento do
ridículo. Aos olhos da maioria dos passageiros, nossa beleza apresenta-se
exponencial. Tenho trinta anos, sou morena clara, olhos castanhos, bumbum
arrebitado. Linda e gostosa é a combinação preferida dos homens para me
definir. Não que não goste de me sentir desejada, mas o elogio pegagento é constrangedor.
A
gentileza do gerente, o “dormiu bem, srta. Joana”, é prenhe de segundas
intenções. Ele é até atraente, mas a desfaçatez o joga na vala dos ingênuos.
Prefiro o moço da limpeza: inteligente, direto, perspicaz. Já dei corda ao
gerente, mas tão somente para me divertir. Devolvia-lhe um “dormi bem, obrigada,
Anchieta”, e sorria. Ele logo se sentava e haja conversa boba. Hoje eu não
estava a fim de papo. Não queria ser grossa, mas não podia lhe responder.
Qualquer resposta seria pra ele um fiapinho de corda.
Vali-me
do fingimento, a mais sacana função do celular, e sapequei-lhe um caloroso
bom-dia:
- Bom
dia, Anchieta... Ah, desculpe, o celular... Olá, amor. Há quanto tempo.
Estava...
Lógico
que a educação do Anchieta o fez afastar-se. Saiu sem saber se dormi bem.
Subi
para o apartamento e tirei uma soneca. Acordei, vesti-me comportadinha, pois
não queria chamar a atenção dos homens: trajei-me com um vestido meio
compridão, de alcinha branca. Mas zero de decote. Era meio dia e meia quando apanhei
um táxi
e saí sem destino. Procurava um ambiente em que pudesse saborear uma
bebida e curtir a solidão. A soneca fora insuficiente para inibir meu quê
melancólico. Depois de trinta minutos e a desaprovação de vários barzinhos, pedi
que o motorista me deixasse num bar do Alecrim.
Bar
de canteiro, simpaticíssimo, pedi uma caipirosca e fiquei observando os poucos
clientes: a três mesas da minha, um casal tomava cerveja; no alpendre do bar,
quatro senhores tratavam de negócios, imaginei, e também tomavam cerveja;
também na cobertura, mas distante dos senhores, um rapaz tomava algo. Água,
desconfiei.
Na
terceira caipirosca, estava apaixonada pelo ambiente. Igualmente apaixonada
estava a clientela. Apaixonada por mim, diga-se. Os caras, exceto o bebedor de
água, encaravam-me descaradamente. Inclusive o casal perto de mim. A moça era a
mais insistente. Fiz que não vinha notando aquela ardência carnal. Deliciava-me
com o foguinho da caipirosca. Tirei da bolsa um livrinho de bolso, presente de
meu ex-marido, e me pus a ler. Na primeira página me interromperam:
-
Olá. Com licença. É, me enganei. Bom...
Levantei
a vista. Estava ali quem menos eu esperava. O bebedor d’água. Água, sim, dizia-me
a garrafinha de água mineral. Sorri amarelo e voltei-me para o livrinho.
- Enganei-me,
moça. Daquele canto, você parecia bonita. Agora vejo que não é apenas bonita. É
linda. Você é a mulher mais linda que já vi.
- Mais
um sorriso amarelo, tímido obrigada e retomo a leitura:
- Imploro
sua atenção por três minutos. Depois pode fazer de mim o que quiser. Até chamar
a polícia. Bom, estive preso durante dois anos. Os colegas me resgataram ontem.
Sou assaltante de banco. Ontem mesmo assaltamos um carro forte, pertinho de
Recife. A parte que me coube foi cento e dois mil reais. Gastei quase dois. O
resto, mil notas de cem, está comigo. Escute, só. Estou há dois anos sem ver
uma mulher nua. Então quando você desceu do táxi, senti uma pontada no coração.
A ideia apareceu na hora. A ideia é a seguinte. Vou lhe dar cinquenta mil reais
para você ficar comigo por duas horas num motel. Não precisa ficar completamente
nua. Sutiã e calcinha me satisfaz. Sou um homem justo. Cumprida as duas horas,
cada um pega seu rumo. O que me diz?
O
que falar diante de tamanho absurdo. Fiquei passada. Gaguejei:
- O
senhor se retire e...
-
Esperava tal reação. Ficarei por trinta minutos ali. Como já sabe de meu
segredo, se você usar o celular serei forçado a crer que está ligando pra
polícia. Nessa pressuposição irei embora. Com o coração amontoado de bombeiros,
mas irei. Se quiser conversar, um olhar pra mim será suficiente. Tschuss.
Minha
Nossa Senhora! Que assaltante é esse? Ele viu que o livrinho é alemão, daí ter
me dado tchau em alemão. Não é assaltante coisa nenhuma. Assaltante, cuja
bebida de bar é água? Que fala o português culto e que se despede em alemão?
Quem já viu! É feioso, mas inteligente. Compensa. É musculoso e tem um bumbum
interessante.
De repente
o tédio sumiu e deu-me enorme vontade de tagarelar. Dois anos sem ver mulher contra
dois meses sem ver homem, disse-me, rindo da comparação. Mas se for realmente
assaltante? Não vai rolar. Nem morta! Há uma forma de saber. Peço-lhe que me
mostre o dinheiro. Ou mesmo parte. O dinheiro prova a ilicitude, pois honesto
algum vai andar com essa grana toda. Assim pensava eu quando...
-
Passe a bolsa, vadia. Tenho um revólver apontando pra sua barriga. Rápido,
vamos.
Quase
não deu tempo de sentir medo. O bebedor d’água já estava ali, brutal pistola
apontando para os dois pivetes de moto:
“Um
movimento suspeito e estouro os miolos dos dois. Nem vou ocupar a polícia.
Vamos, deem o fora, peguem o beco”, disse ele, a voz autoritária e o olhar
frio, fazendo-me arrepiar. Jamais me senti tão protegida. Os pivetes voaram,
ele deu duas passadas na direção de sua mesinha.
-
Espera. Muito obrigada. Sente-se. O que o fez chegar tão rápido aqui?
-
Pressenti. Eles passaram olhando pra você e fizeram o retorno ali na frente.
Precisamos estar atentos, Joana, do...
-
Quê? Você sabe meu nome?
“Tive
a certeza agora”, respondeu-me o infeliz.
-
Mas... Não entendo. Quem é o senhor? Como é seu nome?
- Direi
se ao menos me disser que está pensando em minha proposta. Vamos para o motel
ou não? Preciso tirar a dúvida acerca da tatuagem.
Minha
Nossa! Isso é uma pegadinha. Você deve ser um araponga trabalhando para meu
ex-marido. Só assim se explica que sabe que tenho uma tatuagem na virilha. Estou
pensando na proposta, sim, senhor, senhor...
-
Alternativo, Joana. Meu nome é Alternativo.
Não
pude evitar a gargalhada. Fiquei mais de dois minutos rindo. Ele também riu.
Tinha um sorriso lindo.
“Sério?
Por que um nome tão, tão...”, falei, ainda segurando o riso. Você...
-
Coisa de meu pai. A história é longa. Amei ter me tratado por você, Joana. Não
sou araponga nem trabalho para seu ex. Sou mesmo assaltante. “Para Joana”, está
escrito nesse seu livrinho de alemão. Foi fácil deduzir que a Joana é você. Não
disse que você tem uma tatuagem na virilha. Disse que precisava tirar a dúvida
acerca da tatuagem. Dúvida, Joana. Você podia ter tatuagem ou não. Aí você
precipitou-se e revelou até onde ela se encontra, na virilhinha.
Fiquei
fascinada por aquele homem. Iria pra cama com ele. Pouco me importava se tinha
o dinheiro. Mas tinha:
“Você
deve estar se perguntando se é verdade a história do dinheiro. É. Veja”, disse
o danado, tirando do bolso traseiro da bermuda uma maçaroca de cédulas de cem
reais. “Só aqui tem trezentas notas, Joana”.
-
Isso é incrível, Al. Vou chamá-lo de Al, tá? A gente se encontra aqui, sem mais
nem menos, e...
-
Não foi sem mais nem menos, Joana. São as alternativas da vida. Escolhas, minha
querida. Produtos de mentes em sintonia. Entenda, Joana. Apanhei um táxi e saí
sem rumo. Procurava um lugarzinho tranquilo. Passei por vários, mas escolhi
este. Com você deve ter acontecido a mesma coisa, não? Escolha, alternativa,
opção. São essas as palavras chaves, minha querida. Quer ver?
Ao escolher
este bar e me acomodar naquela mesinha, tornei-me várias pessoas. Um solitário
a espera do tempo, alguém a esperar outro alguém, por isso fazia hora tomando
água mineral, um deprimido e por aí vai. Meu observador, que podia ser o seu, é
quem dizia o que sou. Ou o que somos. Isso garante veracidade ao axioma: você
faz suas escolhas e suas escolhas fazem você.
De
boca aberta, eu babava. Babava por todos os cantos onde babar fosse possível.
Adoro homem perspicaz. Al riu e soltou:
-
Vamos?
Peguei
a bolsa, paguei a despesa e respondi:
- Vamos.
Fomos
para um motel na praia. Al pediu que o taxista parasse num sex shop. Voltou
logo. Não deu uma palavra. Não tocou em mim durante a viagem. Entramos no
apartamento. Ficamos frente a frente. Não me beijou nem deu sinais de
excitação. Apenas ordenou:
- Fique
só de sutiã e calcinha e dê umas voltinhas de dança.
“Fetiche”,
pensei, obedecendo. Al, apenas de cueca, me olhava, impassível. Dez minutos:
-
Fique pelada.
Fiquei.
Fiquei e fiquei de orelha em pé, com um pé atrás, com uma pulga coçando a orelha.
Tudo porque a cueca de Al não dava sinais de homem. Era ou não era para ficar
cabrita? Bem que eu não queria conversar hoje. Al pegou a calcinha, o sutiã e o
embrulho do sex shop e foi ao banheiro.
Abri
uma cerveja.
Al
voltou em cinco minutos. Voltou de peruca ruiva. Trajava minha calcinha e meu
sutiã acomodava uns peitinhos duros. Os olhos soltavam faíscas quando pegou a
pistola, apontou pra mim e falou:
- Não
sou saqueador, Joana. Essas notas de reais são irreais. No maço que viu, apenas
a primeira nota é autêntica.
Sou selecionador,
Joana. Seleciono mulheres bonitas que devem abreviar a vida. Você é a
selecionada de número cinco. Seleciono e as silencio. Mas sou justo. Costumo lhes
dar a alternativa de vida. É uma escolha. Morrem as que não sabem escolher,
entendeu? Quatro escolheram errado e morreram.
Por
que riu de meu nome, Joana? Por que, mulher de Nossa Senhora?
Vamos
lá. Acabemos com isso. Veja a morte. Ou a vida. A primeira é destino. A segunda
é a alternativa. Ambas são escolhas. Marque a correta.
Aí ele
ficou se requebrando e cantarolando. Uma gracinha, como diria a outra. Cinco minutos
assim. Depois:
-
Quem dança melhor, putinha Joana? Quem é mais bonita, putinha Joana? Quem,
hein? Você ou eu? Escolha, putinha Joana.
Já
que estou contando a história, é evidente que fiz a escolha certa. Ou, no
dizer, dele, marquei a alternativa correta. O dilema foi a escolha. Ao pé da
letra, eu dançava dez mil vezes melhor. E a beleza? Na verdade, a pergunta era
estapafúrdia, bizarra mesmo. Com o “eu”, eu corria o risco de irritá-lo e daí
uma bala na testa seria o puxar do gatilho. Com o “você”, seria a falsidade
exposta e o risco se aproximava do primeiro. Como ele se dizia justo, talvez o “você”,
a falsidade, fosse pior. Mas por que armar aquilo tudo, senão pela resposta “você”?
Até certo ponto, ficava sem sentido a resposta “eu”.
Decidi
que não morreria de graça. Daria uma resposta, daria um chute nos cunhados dele
e daria uma carreira pra porta. Olhei pra porta. Gelei. A chave não estava lá. Ele
pressentiu minha intenção e ficou brincando com a chave. Mas se ele não era
assaltante e as notas eram falsas, provavelmente a pistola também seria de
mentirinha. O perigo diminuiria bastante. Olhei bem para a pistola. Ele captou
a ideia, rapidamente substituiu a arma por um punhal e comentou:
-
Espertinha, hein? Então! Quem? Eu ou você. Você ou eu, putinha, Joana?
Não
suportei a pressão. Trinquei os dentes:
- Eu,
seu veado, seu pervertido duma porra. Recalcado, filho da puta. Pederasta duma
figa. Seu...
Parei
o rosário de elogios. Al chorava, acocorado, mãos nos olhos. Chorava, não. Berrava.
Jogou-me a chave e o sutiã:
-
Alternativa correta. Adjetivos ainda mais. Vá. Só quero a sua calcinha. A melhor
compra de sua vida. Como a escolheu, Joana?
Silvana
Silva
Fev/15
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