Olá, gente,
A história a seguir me foi contada por Bião. Contou-me o episódio, é
claro. Passou-se com ele. Meu trabalho foi transformar o fato em literatura.
Mas não acrescentei nada. Juro. Bião é meu primo. É o filho caçula de tio Arão
com D. Avião. A família “ão” é grande, gente. Sou eneneto do Abraão.
Vamos nessa, então?
Luizinho, o Galo e o Coronavírus
O inusitado começa com D. Viviane e o filho, Luizinho.
Luizinho tem treze anos de sapequices. Tanto que é conhecido como Seu Danado:
Luizinho, meu filho, não tenho como fazer o almoço.
O Bolsa Família só deu pra pagar a bodega de Seu Lira. Seu Lira tá muito
cu-doce, meu filho. Disse que não vendia mais fiado a gente. Bom. Pegue esse
galo, veja se vende por aí, e compre um quilo de feijão, um quilo de farinha,
um quilo de arroz, um pacote de café, um quilo de açúcar e uma bandeja de ovos.
O galo é difícil de vender, mãe. O bem-te-vi é bem mais
fácil. O povo até me chama de mentiroso quando eu digo que a gente cria um
bem-te-vi. Dizem que bem-te-vi não se acostuma com gaiola. Morre de desgosto.
Então se eu sair com ele...
O bem-te-vi não, meu filho. O finado seu pai é
capaz de se levantar do túmulo só pra brigar comigo. Venda o galo. Vá. Mas venha
logo. Não vá ficar aglomerando por aí não, viu? Leve umas máscaras. Quem sabe
não consegue vender algumas.
Dessas que a senhora faz não vende não, mãe. Depois
que o filho do homem mandou o povo socar máscaras de pano no rabo, só... Ah,
mãe, tô cansado de dizer a senhora: bote quenga de coco no lugar de pano e bambu
ensebado no lugar de elástico que tem um bocado de gente que vai adorar a compra.
Vamos vender feito água. Mas a senhora é uma mula de teimosa.
Misericórdia! Deixe de coisa e vá, meu filho.
Luizinho balançou a cabeça do sim, botou algumas
máscaras no bolso da bunda e saiu. Na mão esquerda o galo, na direita uma garrafinha de álcool em gel..
Aí, ao passar no oitão duma casa, vê uma janela
aberta e escuta uns gemidos estranhos. Luizinho para, assuntando. O danado dá
uns pulinhos, apoia-se no parapeito da janela e fica de boca aberta com a
presepada. Um homem aglomerando com uma mulher:
Mas óia só! Caramba! Puxa-vida, eu pensava que essa
arrumação só acontecia de noite. Então o pestinha coça o queixo, ri, olha em
volta. Não dá pra subir na janela com o galo. Mas isso é café pequeno pra ele.
Chama um menino que passava do outro lado da rua:
Ei, boy. Chamo, chamo e mãe não atende. Me ajude a
subir aqui. Aí depois tu me dá o galo, tá ligado?
Em segundos, Luizinho está sentado no beiço da
cama. Bate duas vezes no ombro do homem:
Moço, me compre esse galo, vá lá!
Mas que porra é essa! Como entrou aqui, moleque? Tá
maluco?, berrou o homem, subindo a ceroula.
Entrei
pela janela, moço. Quem manda deixarem aberta? E não tô maluco não, viu? Quem tava maluco era o senhor e a senhora aí. Estavam até estrebuchando.Aberta pra entrar vento devido ao corona, seu
merdinha. Sai daqui, fedelho. Isso é lá hora de vender bexiga de galo,
esbravejou a mulher, ajeitando a calçola e colocando as mãos sobre os seios.
Vai! Vaza!
Nisso, a mulher, D. Messalina, escuta a zoada da
moto do marido:
Meu marido. Meu Deus! Ele tem a chave. Pra debaixo
da cama. Os dois. Rápido! Leve a roupa, Bião.
D. Messalina dá a ordem, veste-se, suja de batom a
página três de um livro, deita-se e pega no sono. Mas o marido, o Cornélio,
demora um pouquinho a entrar. Está tirando a roupa na área. Entra nu no quarto.
Tosse. D. Messalina acorda:
Nossa, amoreco? Tá assim, é? Por que entrou pelado?
Tô com uma puta dor no pé da barriga, Messalina. Se
não for por causa dos ovos que comi com batata é a peste da covid. Então, pra
não pegar em você, tirei a roupa na área. Mas daqui a meia hora o laboratório
me manda o resultado do teste pelo Zap.
Tá toda assanhada e com os beiços borrados de
batom. E esse livro de quem é? Me dê ele aí. “Por uma Taça de Vinho”. O título
é bonito. É ensinando a tomar vinho, é?
Não sei. Foi a Fernanda que trouxe pra mim,
Cornélio. Comecei a ler deitada de bruços, mas logo peguei no sono.
Nossa, Messalina. Capotasse, mulher. Sujou até o
livro de batom.
Enquanto isso, debaixo da cama, Luizinho e Bião
sussurram:
Que é que tá olhando, moleque? Tá doido? Bote a
cabeça pra debaixo da cama, infeliz.
Fui ver se ele tava peladão mesmo, tá ligado? Ele
tá com duas pistolas, moço. Uma dependurada, pixototinha, e uma grandona em
cima do criado-mudo. Ainda bem que o bicho é mudo, viu? Ele se sentou na cama.
Tá com a bunda mesmo na sua cara, moço. Tenho máscaras aqui. Pegue. Bote na
cara. Catinga de ardido da porra. Tenho álcool em gel também. Tome. Passe nas
mãos e no rosto.
Ele é um policial famoso, moleque.
E é? Pois diga! O senhor vai comprar o galo, não
vai? Ele canta que é uma beleza. Só num tá cantando agora por causa que eu tô
segurando o pescoço dele, tá ligado? Vendo bem baratinho. Uma galinha morta.
Eu quero
lá comprar bexiguento de galo, cabrito.
Então eu vou afrouxar
o pescoço dele e botar álcool no bico, tá ligado?
Espera! Espera!
Quanto é a merda desse galo?
É cem real.
Cem reais! E você
ainda diz que é uma galinha morta? Toma! Mas segura o galo aí. Não solte o
pescoço dele. Quando a gente sair daqui você me dá.
Se a gente sair,
né, moço? Falta cem real, moço.
De quê?
Três cheringadas
de álcool dá 60, mais 40 da máscara.
Ladrãozinho,
você, viu?
Enquanto
isso, em cima da cama, D. Messalina dá uma sugestão ao marido, seguida duma
indireta pro Bião:
Acho melhor você tomar um banho, Cornélio. E segure
a onda aí embaixo.
Que droga de
banho, Messalina. Já visse cacete de banho servir pra bucho inchado? Agora tá
até me dando uma dor na testa. Parece que a testa vai se abrir. Faz um chá de
boldo aí.
Enquanto isso, debaixo da cama, o cochicho corre
solto:
Sabe, moço. Esse troço da testa do homem não é da covid
não. É o chifre fazendo força pra sair. A mulher mandou o senhor segurar a
onda, entendeu?
Ei, moço, moço. Tá ouvindo, moço?
Que foi agora, porra?
Sabe, moço, já que eu tô segurando o seu galo, quer
vender ele?
É claro! Pra que eu quero bexiga de galo? Me dê os
cem reais que o galo é seu.
Dou dez real, tá ligado?
Tá biruta, moleque? Você acabou de me vender por
cem e agora quer me comprar por dez? Nada feito.
Então eu vou afrouxar o pescoço dele e pingar
álcool no bico, tá ligado?
Tá bom, tá bom. Tá vendido, seu bexiguento. Mas
pare com essa porra de tá ligado.
O moço tira de cem? Tem noventa real aí?
Tenho não, idiota. A gente troca o dinheiro quando sair
daqui e você me dá os dez.
Se a gente sair, né, moço? Sabe moço, acho que vou
fazer um finca pé e pular a janela. Não aguento mais a peidaria do homem não,
moço! Mas aí eu não posso levar o galo, tá ligado? O senhor quer comprar o galo
de volta ou quer que eu solte ele aqui? Vendo baratinho. Uma galinha morta.
Mas que droga! Isso é um inferno! Compro pelos dez
que vendi, seu ladrãozinho.
É cento e dez real, moço. O moço desconta os dez
que eu devo e me dá cem real.
Enquanto isso, em cima da cama...
Beba o chá, Cornélio. É boldo com ameixa. Santo
remédio pra limpar as tripas.
Durante o tempo em que Cornélio espera pelo efeito
do chá, a compra e venda do galo continua. O moleque já estava embolsando
seiscentos reais quando Cornélio corre pro banheiro:
Vou abrir a porta. Saiam, saiam logo, ordenou D.
Messalina.
Mas esse seu marido peida, viu D. Messalina, disse Luizinho,
pegando o beco, ao mesmo tempo em que Bião tentava alcançá-lo a fim de pegar a
grana de volta.
!!!!!!!!
Não consegui alcançar o moleque, Tião.
Mas se vão os anéis e ficam os dedos, né, Bião? Nunca
topasse com o menino por aí não?
Uma hora depois, primo.
Sério? E aí? Ele te devolveu a
grana.
Só cem reais. Indiretamente. Foi
assim.
Bião contou-me o resto da história:
!!!!!!!!
Topei com o danado no estacionamento
dum mercadinho, Tião. Ele estava enchendo de compras a mala dum táxi. Amoleci
com a cena, rapaz. Mesmo assim fui até ele. Acontece que quando começamos a
conversar, estaciona um carro pertinho da gente. Sabe quem era? Messalina e o
marido, Tião.
O moleque ri, pega o galo e vai puxar conversa com
a Messalina, mal ela desce do carro:
Me compre esse galo, senhora.
Não é possível. Largue de meu pé, seu infeliz das
costas oca, respondeu ela, falando de dentes cerrados.
Então o marido sai do carro. O moleque manda ver:
Me compre esse galo, senhor. Vendo baratinho.
Pra que
diacho eu quero galo, guri?
Prum
bocado de coisa, senhor. Sabe, Sr. Côrnélio...
Cornélio,
menino. Preste atenção na pronúncia. E como você sabe meu nome?
O senhor
não é aquele famoso policial? Vi o senhor na TV. Acho que no Papinha. O senhor
não sabe, Sr. Cornélio, mas o senhor também é...
Vamos
comprar, cortou D. Messalina, numa palidez só. Dá pra gente jantar e almoçar
amanhã.
Quanto é
esse bicho, menino?
Só cem
real, moço. Uma galinha morta, né não?
Dou nada.
Você é doido? Quem já viu um frangote desses por cem reais! E eu não sei, mas
sou também o quê? Você falou isso
Compre,
querido. O galo tá até gordinho. Acho que vale. E eu... Eu... Eu, nem queria
falar nisso agora, mas ando meio enjoada, Cornélio, e quando vi esse galo me
deu uma vontade danada de...
Ah,
Messalina! Tá desejando, é? Meu Deus! Que bom, Messalina! Vou comprar, mas não
vá saindo por aí dizendo que pegou um trouxa não, viu? Pegue o dinheiro. Agora
me diga, moleque: sou também o quê?
Aí,
Tião, o Luizinho pediu que eu guardasse o dinheiro:
É seu
pai?
É meu
tio, Sr. Cornélio. Tio Bião. É ele quem sabe o que o senhor é. Fala pra ele,
tio.
Não
brinca, Bião. O moleque botou você num imprensado, não? Como se saiu?
Tião,
rapaz. Nunca vou esquecer das boticas de olhos da Messalina pra mim. Só Deus
explica como consegui me sair:
O senhor
não se lembra, Sr. Cornélio. Mas, faz um tempão, o senhor me livrou de boa. Os
bandidos estavam me assaltando, então a polícia chegou, o senhor no comando,
trocou tiros com os caras e me livraram da pior. O senhor, além de famoso, também
é meu herói, Sr. Cornélio.
Só fiz
meu dever, Sr. Bião. Bom, só não estou entendendo, Messalina, é como vai fazer
pra matar o galo. Você vive dizendo que não tem coragem...
Eu mato,
Sra. Messalina. Mas tem que botar na geladeira pelo menos daqui a uma hora. Me
dê uma faca, Sr. Cornélio. Chave de fenda serve também.
Tião,
primo, o Cornélio trouxe uma chave de fenda. Adivinhe o que o peste do menino
fez?
Sabe, Sr. Cornélio. Saí de casa escondido com esse galo. Minha mãe vai
me matar quando der pela falta dele. Me venda o galo.
Quê? Porra é, menino. Minha mulher...
A Sra. Messalina dá os pulinhos dela, não dá, senhora?
É. A gente compra outro, Cornélio. Venda o galo ao menino.
Então tá. Me dê os 100 reais, moleque.
5 real, senhor. Dou 5 real.
Aí, Tião, o Cornélio pegou ar:
Quê? Você é um ladrãozinho, seu filho da puta. Vou levá-lo pro Juizado.
Falou e quis pegar no braço do moleque. O moleque se esquivou, correu e
entrou no táxi. Mas antes jogou o galo nos pés da gente.
Espalhou
gesso pra tudo o que era canto, Tião.
É isso,
gente.
Angustiante
03 de 21,
TC
Nota – A
história continua, mas vou ficando por aqui. Depois talvez eu conte o resto.
Agora não dá. Terminei a vara e a remo. Desculpem os erros. Não revisei a prosa.
Já vou na quinta Heineken.
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