segunda-feira, 8 de março de 2021

SIMPLESMENTE MULHER

 

 


                                                        Beatriz, minha neta

SIMPLESMENTE MULHER

    Amaro ficou de mutuca nos quatro cantos da piscina pra ver em qual deles a Sylvia iria aparecer. Dificilmente errava o ponto. Tinha o faro bom pra essas coisas. Apostara no canto do barzinho. Amaro errou feio: Sylvia apareceu na quina em que havia mergulhado.

    “Dado o olhar de decepção, acho que dei um quinau em você, não foi, meu nobre?”, gritou Sylvia, num sorriso só.

Amaro deu uma coçadinha na cabeça, estirou a língua e ficou a admirar a sorridente dama. Quis ir lá, mas preferiu deixá-la com os pensamentos.

    Se quisesse papo, ela teria vindo aqui, matutou.

  Sylvia dirigiu-se à mesinha do pé de romã, seu sítio predileto. Gostava daquele cantinho porque era ali que os amigos bem-te-vis mantinham o hábito de vir saudá-la. Acomodou-se, beijou o buquê que de manhãzinha o marido lhe aninhara nos seios, descascou uma banana, pôs-se a saboreá-la e releu a mensagem do marido anexada ao buquê:

    Pessoas nobres recebem, em dias de aniversário, auras cósmicas que as iluminam. Simultaneamente, contudo, repassam essa irradiação divina aos amigos que delas se aconchegam. Porque aconchegado já vivo, sinto a cada segundo o resplendor dessa dádiva.

    Parabéns, Sylvia, pelo aniversário. Pelo aniversário e pelo o seu dia que é também o dia de todas as mulheres. Do todo seu e somente seu.

Seu amor

    Vou mandar essa beleza pelo WhatsApp para as meninas. Pena que elas não estejam aqui, pensou a Sylvia. Pensou, mas em segundos reavaliou o pensamento: “Quer saber? Está sendo melhor assim”.

    O motivo da reavaliação era a mudança de contexto da festa. Ocorre que,

em todos os anos, nesta data, 8 de março, o casal recebia os amigos a fim de comemorarem o Dia Internacional da Mulher e o aniversário da Sylvia. Faziam até um concurso de poesia de enaltecimento às mulheres. Poemas piegas, chegavam a deixar algumas mulheres constrangidas, de tão superficiais. Enaltecer é bom, mas tem limite, falavam algumas em particular. Tamanho a pieguice de certos poemas, que até o ridículo ficava envergonhado com o patético. Hoje, porém, devido à pandemia do coronavírus, faziam a festa apenas a Sylvia e o marido, o Toinho.

    Concordo com a Sylvia. Para enaltecer algo, até um microconto serve. Microconto é.... Ah, vocês sabem. É um enunciado de quatro, cinco palavrinhas, cuja abrangência  contextual fica a critério da imaginação do ouvinte ou do leitor. Por exemplo. “Quando acordou o dinossauro ainda estava lá”. Cabe ao leitor completar a leitura do autor, o hondurenho Monterroso. De idêntica forma que este do Wemingway. “Vendem-se sapatinhos de bebê: sem uso”. Para festejar uma dama, penso, bastariam estas palavras: “Simplesmente Mulher”. Caso queiramos nominá-la, poderíamos escrever: “Simplesmente Beatriz”. Lindo esse nome, não?

    Bom, relida a mensagem, o “Do todo seu e somente seu” fez a Sylvia chorar. Chorando e sorrindo, ela fez finca-pé e mergulhou na piscina. Esperaria o Toinho chegar. Brincariam de tica. De tica e de toques, naturalmente.

    Amaro dá mais uma coçadinha na cabeça. Ela vai sair aqui neste canto, aposta. Amaro deleita-se com o deleite da Sylvia. Tremenda gazela, fala pra si, depois de uma espiadinha pra esquerda, pois ouvira um barulho estranho. Tudo normal. Eram apenas as travessuras da Cecília.

    Amaro volta-se para os pensamentos:

   Ah se meus pensamentos chegassem aos ouvidos da Sylvia. Diria que a amo, que a venero, que a idolatro. Que jamais a trairei, que nunca farei cachorrada com ela, que galinhar não é comigo.

    Amaro adora os franzidinhos dos olhos da Sylvia, aplaude o jeito de ela jogar o cabelo pra trás, arrepia-se com a maciez das mãos dela em seu corpo. Nada lhe falta. Parece que a Sylvia adivinha os pensamentos dele. Tem por ela uma fidelidade canina, ainda que fique meio chateado em razão da exclusividade amorosa que a Sylvia exige dele. Ela confunde fidelidade com exclusividade. Ele é exclusivo da pessoa apenas no instante em que está lhe dando atenção. Mas a exclusividade se dirige para outro indivíduo tão logo a atenção mude de foco. E isso ela não quer entender. Acha que a exclusividade a alguém implica infidelidade a ela. Amaro compreende tudo, afasta a chateação e sorri. Ou melhor, mostra os dentes.

    Agora, sim, a Sylvia sai no ponto imaginado por Amaro: precisamente onde ele está. Sylvia senta-se ao lado dele, fica lhe alisando o focinho,  abre a boca para lhe dizer alguma coisa, mas ciumento miado a faz desviar a atenção:

    “Minha gatona”, exclamou a Sylvia, pondo a Cecília sobre a toalha que lhe cobria as coxas.

    Amaro presenciou o afago, fingiu indiferença, mas ficou rosnando de ciúme. Mas rapidamente o tangeu. Assim como não sou exclusivo da Sylvia, ela também não é exclusiva minha, pensou, conformado, sorrindo. Ou melhor, mostrando os dentes. Gostava da Cecília. Às vezes até brincavam juntos, mas a secular rixa entre cachorro e gato se mantinha.

    Foi nesse clima que Toinho encontrou o trio quando chegou das compras, coisa de uma hora da tarde:

“Maçã pra você, querida, peixe abiscoitado para a nobre Cecília e ração de cordeiro para o nobre Amaro.”

    Sylvia serviu-se duma banda de maçã, serviu-se dos “nem me pega, nem me pega” para atiçar o marido e pulou na piscina. Toinho pulou atrás.

    Amaro e Cecília se entreolharam. Conjecturavam. Amaro supunha seus donos aparecendo no pé da romã. Era bom nessas coisas.

    O faro de Cecília não era lá essas coisas. Mas Cecília tinha certeza de que a dupla surgiria realmente no pé da romã. Já assistira àquele filme. Apareceriam e começariam a chupar língua. E em questão de minutos, a Sylvia começaria a gemer.

    Não deu outra. Quer dizer, saíram no pé da romã e se danaram a chupar língua.

    Amaro sorriu. Ou melhor, mostrou os dentes.

    Cecília também sorriu. Ou melhor, acendeu o bigode:

    “Ainda dou umas unhadas no Toinho que é pra ele deixar de machucar a Sylvia”, jurou.

Março de 21. Março em que gatos e cachorros parecem ter mais empatia do que certos humanos.

TIM-TIM, MULHERES.

TC

 

Obs. Sylvia, Amaro, Toinho, Cecília são personagens do romance !Por uma Taça de vinho”, de minha autoria.

 

3 comentários:

Unknown disse...

Boa noite!

Agradeço em nome de todas as mulheres, amei só em ter a foto de Bia e como também em citar o nome dela. Isso prova o grande amor pela charmosa neta Beatriz💞🥰

Unknown disse...

Olá. Recordo algo dessa data 08 de Março!

Unknown disse...

eu gostei da história eu tinha lido á outra postage