A CRIAÇÃO DO
BAFÚMETRO NAS DIVAGAÇÕES DUM FUMANTE
Não sou certinho. E, acreditem,
nunca quis sê-lo. Correios, feiquecebuque, zapzap e afins passam longe de minha
rotina. E só bato parabéns para criança. Sou da roça, do contra e de doze. Por essas
e outras, passaram a me tachar de antissocial. Mas não sou. Antissociais são
desnutridos de aventuras. Não se alimentam de prazeres. Desde que criei penas
que jogo, bebo, fumo, danço e sou perdido por mulher. Mesmo sem o copiar/colar
– que detesto -, sou igualzinho ao Moisés Sesiom, porreta personagem da poetíssima
cidade de Açu.
Jogar, beber, fumar, dançar constitui
minha ração diária. E comer, que ninguém é de ferro. Se interajo com tais
verbos, como posso, então, ser antissocial? Apenas detesto pressões para nadar
em certas marés. Minha lagoa é discordar e improvisar. Já no madureza, fórmulas
e concordâncias não me seduzia (estão vendo a rebeldia?).
Tem mais uma coisinha. Desconfio
dos todos certinhos. Tem muitos errinhos embaixo desses todos. De quando em quando
vemos algum toldo se desparafusar e a camuflada sonsice aparecer toda faceira,
a espantar o caritó. A sonsice mora debaixo dos panos, adora pessoas certinhas.
Mas não há censura nisso. Cada um age como quer e ponto final. Retrair-se ou
exibir-se é o que dá consistência a axiomática inconsistência humana. Inconsistência
que dá consistência à afirmação de que os indivíduos não mudam. Eles simplesmente
nunca foram como imaginávamos, ainda que jamais tenhamos a prova disso. Mudamos
os atos externos, é certo, mas somente o próprio indivíduo pode afirmar se a
mudança decorreu de conveniências ou proveio da natureza inconstante. Como sei
disso? Ora, ora! Sou um indivíduo.
O homem apagou os pensamentos,
acendeu um cigarro, deu duas baforadas e tornou a ligar para o Bião, amigo e
advogado dele. Dissera ao Bião que
estava andando no Alecrim, na avenida 9,
entre a 5 e a 4, pertinho da Igreja de São Sebastião. Bião prometera chegar em
cinco minutos, mas estava atrasadíssimo.
“Chego já”, disse o Bião. O homem
não guardou o celular. Um pivete encostou-lhe um 38 na cabeça e levou o
aparelho. Restou ao homem cair na risada.
“Já vi que está feliz. Por que a
conversa na rua, meu nobre?”, disse o Bião, apeando-se do carro.
- Estou felicíssimo, Bião. Um moleque
acabou de me levar o celular, mas deixou-me as células do ar. Porque... Escuta
só. Vamos sentar naquela calçada ali. Deixei de jogar sinuca, cara. A Lei Limpa
não permite fumar no barzinho onde eu jogava. A Lei Seca já havia me expulsado
dos bares longe de casa, pois a grana não dá pra ficar pegando táxi. Tomava
minhas cervejinhas nos botecos perto de casa, mas a Lei Limpa proíbe fumar
neles. E beber sem fumar não dá, né, Bião? Fumar em casa a mulher não deixa. Só
me sobrou a rua. Mas sou um idiota feliz, apesar dos pesares. E dos assaltos. Tenho
dois assuntos a tratar com você, Bião.
- Isso quer dizer que você é contra
as duas leis.
- Não bote fumaça alcóolica na
minha boca, Bião. Sou a favor, conquanto julgue algumas regras exageradas. Bom,
quero que vá a Brasília e patenteie esse negócio aqui.
- Que danado é isso, homem?
- É... Seguinte. A Marluce, dona do
boteco defronte da minha casa, aceita a gente fumar. Mas aumenta a conta em
10%. Diz ela que o dinheiro fica num fundo. Será utilizado caso seja multada.
Jeitinho brasileiro de roubar, entendeu? Até porque nunca será autuada. A
gerente dela, a Cíntya, criou um pinicão no quintal, espécie de cinzeiro
coletivo, então o fumante joga a piúba num caninho e a bicha vai morrer nesse
pinicão. Jeitinho de enganar a fiscalização, compreendeu?
Aí, Bião, bolei essa pecinha.
Chama-se tabaqueira ou bafúmetro. O sujeito dá uma chupada nessa abertura,
então esse pinguelinho aqui mede quantas inalações de tabaco foram expelidas. Quero
ver ludibriar a fiscalização! Já tenho mil bafúmetros apalavrados com um
militar daqui. Por isso tenho pressa em patenteá-lo.
O outro assunto é aquele seu prédio
das Quintas. Quero alugá-lo pra botar um barzinho.
- Barzinho? Tá maluco, é? Um prédio
daquele tamanho!
- Tô maluco não. Vou botar 4
mesonas de sinuca, 4 mesas de pife-pafe e 3 radiolas de ficha. E vai ter strip-tease
da quinta-feira ao domingo. O nome do bar será Fumo Dentro. Só entra fumante
lá, entendeu, Bião. Vou encher de faixas dando esse aviso. Vai ser um bar e
tanto, cara.
- Bar? Isso não é bar. É um
puteiro, homem.
O homem olhou fixamente para o
Bião, deu três puxadas seguidas no cigarro, abriu a boca. Mas não falou nada. A
dona da calçada onde a dupla conversava abriu uma janela e soltou os cachorros
pra cima dele:
- Não pode fumar aí não, meu
senhor. Tá enchendo de fumaça aqui dentro. Pode se retirar. Se não sair, chamo
a polícia. É a lei nova, meu senhor.
- Mas minha senhora, o vento tá
levando a fumaça pro outro lado da rua. Não tá indo aí não. Além de estarmos
distante de sua porta, a residência estava fechada, minha senhora. E tô fumando
na rua, tá entendendo?
- O senhor não tá na rua não. Tá na
minha calçada. Portanto...
O homem levantou-se, passou a mão
na bunda e continuou conversando. E fumando:
- Agora estamos na rua, não é,
advogado Bião?
O nome do homem? Raciocine, homem.
Tião Carneiro
Dez/14
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