ANOTAÇÕES NOSTÁLGICAS NUM
SÁBADO SEM GELA
Mãos
dadas, o homem e a mulher olhavam-se com ternura. Não diziam nada. Mas falavam.
Cultivavam o estranho hábito de pensarem por ordem alfabética. Ele começava
pelo “E”; ela, pelo “A”. Do A, ela conduzia o pensamento para o “S”. Do E, ele
dirigia a mente para o “M”. A coincidência acontecia no “J”. Mas não era
coincidência. O casal tinha apenas essas cinco letrinhas para pensar. Vivia num
autêntico paraíso.
Ele
foi o primeiro ente a distinguir imaginação de visualização.
Ela
a primeira criatura imaginada e visualizada.
Ficaram
por lá, vieram pra cá, vivem a zanzar. E nesse voluptuoso vai e vem a vida
virou varejo.
Hoje,
cada vez menos homem e mulher olham-se com ternura. Mas ainda se olham. E
falam. Mas cada vez menos. Mas cada vez mais se... Entreolham-se e se descobrem.
Cada vez mais perscrutam a árvore do conhecimento. Perscrutam e decidem.
Mas
ninguém mais pensa por ordem alfabética. Pensa-se muito por ordem numérica.
É isso!
É o que penso.
Dou-lhe
uma, dou-lhe duas, dou-lhes três.
DEZ/14
TC
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