A VENDEDORA DE PALAVRAS
A senhora armou o tripé, ajeitou as
plaquinhas e começou a anunciar: tenho beleza, extorsão, amor, propina, sexo,
traição, carinho, hipocrisia, lealdade, delação...
- Tem saúde?
“Tem mas tá faltando”, respondeu
ela à velhinha, na linguagem brincalhona, peculiar aos camelôs.
- Tem segurança?
- Também não.
- Quando chega?
- Não sei, senhora. Faz um tempão
que fiz o pedido de segurança, saúde e educação, fico renovando, mas os
fornecedores estão me enrolando. Vai dum sexozinho?
- Vou. Me dê duas plaquinhas.
Foi só a velhinha sair para o
guarda aparecer e mandar a vendedora se retirar, pois era proibido banquinhas
naquele local. Conversa vai, conversa vem, o guarda aceitou uma gorjetinha e
deixou a senhora e o marido em paz. O marido vendia laranja, vizinho a ela. A
senhora e o esposo ficaram rindo. Dera uma nota falsa ao guarda. Até porque o
guarda era um impostor, deduzira a vendedora.
- A senhora tem honestidade?
“Tenho, senhor”, respondeu a
vendedora, gaguejando. O empaletozado perguntador era muito bonito, sedutor, parecia
de fora, tinha pinta de executivo. Além do mais, fazia anos que ela não vendia
uma honestidade.
- Tem quantas aí?
A senhora abaixou-se, abriu uma
caixa velha, deixou lá uma plaquinha e espalhou o resto na banquinha.
- Tem treze, senhor. Material antigo,
mas da melhor qualidade. Pra dizer a verdade, faz um tempão que eu não vendo
sequer uma honestidade. Veja se lhe serve.
O empaletozado examinou uma plaquinha,
coçou a barba e soltou a voz grave:
- Estão em bom estado. Vou levar
todas. Embale aí. O que é que sai mais aqui, minha senhora? Imagino que seja
sexo. A senhora tem gasolina?
- O que vendo mais é propina e
extorsão. Vende que só água. Sexo quase não sai. Sabe, senhor, parece mentira,
mas hipocrisia está vendendo mais do que sexo. Gasolina não vendo não, senhor. A
gente tem um contrato com aquele posto ali, ó. Lá não vende palavra nem laranja.
Em compensação, a gente não vende gasolina. Muito obrigada. Volte sempre.
O empaletozado balançou a cabeça e
saiu. A mulher balançou a cabeça para o marido, mandando-o seguir o baludo cliente.
Ficara desconfiada. Nunca vendera de uma vez só tantas unidades da mesma
palavra. Pra que diabos aquele homem queria aquela ruma de honestidade? Meia hora
depois o marido voltou.
- E aí? Quem é o bonitão? Onde ele
ficou?
-
Você não vai acreditar, Nilma. O homem foi pra praia. Chegou, abriu o pacote,
beijou as plaquinhas, jogou tudo no mar e danou-se a rir.
- Minha
nossa! Que ecológico. Será que ele notou alguma coisa?
-
Nada! Notou não, Nilma.
O que
o empaletozado, sedutor, bonitão, barbudo e de voz grave não havia notado era
que
faltava o “H” na “onestidade” das plaquinhas.
Dez/14
TC
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