PRA VOCÊ TAMBÉM
Pretendia
montar uma estatística de postagens, acessos, comentários etc. Fim de ano é bom
pra essas coisas, concordam? Pois então. Sentado numa redinha branca, tinha
acabado de contar os textos aqui postados quando a campainha toca
insistentemente. Corri pro portão. Era meu primo Bião. O Bião e a prima/esposa,
a Vião.
“Imbecis”,
disseram os dois, mal me cumprimentando e entrando de casa a dentro. A bronca
era por causa do riso irônico da rua. A galera se divertia com a disparidade
física do par. O Bião é baixinho, baixinho, gravetos de canelas, verdadeiro
caçador de pulgas. A Vião é altona, altona, maçarandubas de pernas, autêntica
caçadora de tigres. O Bião usava camisão quadriculado, bermuda por acolá. A Vião
trajava blusinha generosa, bermuda por aqui. A Vião é um avião, gente. O Bião
nem minúsculo carrinho de brinquedo é. E ainda querem que a turma não zone com as
mãos dadas deles. A cena tornava-se mais risível, porquanto, acreditem, a dupla
caminhava tomando chimarrão, meio dia em ponto.
Certa
vez, Bião cresceu pra cima de mim só porque perguntei como ele e a esposa namoravam,
já que a Vião dava duas dele. Como vocês namoram, Bião, se tu não dá na cintura
da prima Vião? Se ela dá duas de tu, então a coisa fica complicada. O homem viu
sacanagem na pergunta, pegou ar e sugeriu que eu perguntasse à Vião se ele não
a satisfazia. Fechei a cara e disse que ele estava misturando as coisas. Eu estava
falando de namorar, o ato de olhar com ternura, acariciar, sussurrar, tocar,
beijar. E que, dada a diferença de altura entre os dois, para beijar o rosto da
Vião, por exemplo, ele teria que ficar trepando num tamborete. Falava disso e
não de transar, como estava supondo ele.
Pode-se
namorar sem transar, o que não torna verdadeira a recíproca. Ele confundia
namoro com transa, assim como muita gente não distinguia sensualidade de erotismo.
Sensualidade é ternura, voz, olhar, carisma, atenção, comunicação, postura,
atitude. O indivíduo sensual tem isso aos montes. Erotismo é consequência desse
conjunto. Não precisa ser belo ou bela para ser sensual, da mesma forma que
beleza não garante sensualidade. Aí flechei-lhe o ego com esta mentira. Você,
Bião, é feio pra burro, mas transpira sensualidade.
Brequei
a lembrança, pois a dupla voltava da cozinha, cuia de chimarrão numa mão, copo
de uísque noutra. O Bião
pôs-se de cócoras, uma de suas esquisitices. A Vião
sentou-se numa cadeira, de frente pra mim. Permaneci na redinha branca e
começamos a trocar figurinhas de 2014. Daí a instantes minha mulher, Tânia,
chegou dirigindo um carrinho de bebidas, um alguidar de chambaril e rabada de carona,
e o estacionou num canto da área.
O Bião
e a Vião pareciam estar apostando quem bebia e comia mais. Uma chupada no
chimarrão, uma linguada no uísque, uma lambuzada no chambaril. Empatavam no
elogio ao tira gosto feito por Tânia. Eu tomava uma caninha, ficava curtindo a
cena e brigando com certa vozinha que me mandava rir.
Embriagada,
a Vião começou a me esculhambar, classificando meus textos de devassos, de
sacanas duplos sentidos, extrema apologia da putaria. Não tem lirismo,
reflexão, divertimento. Podre e mosqueiro completo as tuas quilométricas prosas,
cara.
Também
chumbado, disse-lhe que ela tinha a opção de não me ler e que lesse François,
Serejo ou Prata se quisesse prosas livres de moscas. A putaria está na sua
cabeça, Vião. Falei, tomei uma e soltei o verbo: por que você não vai tomar
naquele canto? Vou mesmo, respondeu a voz pastosa, caminhando para o canto onde
estava o carrinho de bebidas.
Que delícia,
Bião, ficou repetindo, sentando-se agora no chão e pondo a cabeça do Bião no
colo. Saturado de tantos elogios ao tempero de Tânia, mudei a conversa e fiz
uma pergunta de bêbado:
-
Pra vocês, qual é a melhor coisa do mundo?
“Depois
daquilo?”, indagou a danada Vião, apontando para a rabada do carrinho.
“Fora
o quê?”, gaguejou o Bião.
Não sei
o que deu no parzinho, certo é que se aperrearam pra ir embora. Deixei-os no portão
e me despedi com votos de saudável 2015. Esperava o chavão de “pra você também”,
mas não veio. Os cambaleantes, lampeiros e risonhos, falaram numa só voz, como
se tivessem combinado:
Boas
entradas pra você.
Nos
últimos suspiros de 2014, um forte abraço,
TC
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