A PESQUISA
A média situa-se entre dez e treze centímetros.
Nesse intervalo não há tanto desconforto, exceto para as iniciantes. Mas nada
que não valha a pena usá-los. Abaixo de dez centímetros, o efeito tende
aliar-se à frustração, notadamente se a expectativa era observar voluptuosos
olhares. Acima de treze, tem que ser muito mulher para encará-los. Usá-los,
quero dizer. A depender do tamanho, machucam, sim. Por vezes fazem sangrar,
deixam umas sequelinhas, mas aguentamos numa boa, pois a sensação poderosa
supera tudo.
Essa é uma amostra do resultado de
minha informal pesquisa sobre sapatos de saltos altos. A propósito, nenhuma das
quinze amigas pesquisadas usam ou usaram saltos acima de dezesseis centímetros.
Tais informações me surpreenderam. Imaginava uma média em torno de dezoito
centímetros. Na minha inocência, não era incomum saltos de vinte, vinte e dois
centímetros.
Ah que tonto sou eu. Comecei a
coisa de trás pra frente. Deixem-me explicar. “Mulheres de salto alto exercem
maior poder sobre homens”. Essa manchete está na Tribuna do Norte de
21/12/2014. A matéria, do Thomas Adamson, Associated Press, exibe a conclusão
de pesquisa feita por cientistas franceses.
Li a reportagem, achei legal e
cismei de aplicar um inqueritozinho similar com algumas amigas, vez que sou
fascinado por sapatos de saltos altos. Fascínio angustiante. Angustiante, mas
delicioso. E safado, confesso. Delicio-me com a gritante sensualidade nascida
do bamboleio dos saltos, angustio-me com o iminente tombo da dona deles e censuro
o instinto safado que me obriga a dela não desprego o olhar. Sobretudo se
estiver de saia, vestimenta apropriada para os ditos cujos.
Estou sem tesão para escrever. Por
isso não vou expor o restante de minha pesquisa. Contudo, pela disfunção
estatística, duas informações do estudo francês se fazem necessárias relatar:
ao deixar cair uma luva na rua, uma mulher de salto alto
- dizem os franceses -,
tem 50% a mais de chances de ser ajudada por um homem, em comparação com a
mulher que esteja de salto baixo. O gentil gesto tem pouco a ver com os
sapatos. Vejo-o mais como o temor masculino de a mulher se esborrachar no chão
caso se abaixe. De salto alto, a mulher espera a metade do tempo no bar para
ser cantada, garante a pesquisa. Aqui, suponho, o viés é o nível alcoólico da
galera. Quanto mais alto, mais propenso a subir nas tamancas da ousadia fica o
paquerador, quer a moça esteja de sandália de dedo, quer esteja de calcanhares
suspensos.
É verdade que vocês são atraídos
por mulheres de saltos altos? Oito das quinze amigas fizeram-me essa pergunta. Sim,
respondi de bate-pronto. Vocês parecem
mais sexualmente confiantes, tornam-se mais alongadas, o bumbum fica mais
estufado. Valiosa ficha no secular jogo da sedução, concluí. Riram. Cinco delas
chegaram a abrir a bolsa. Checavam se o cartão de crédito estava lá, suponho.
Mas nem sempre os saltões tiveram
esse quê de deslumbramento. Lá atrás, bem lá atrás, eles foram usados por
açougueiros a fim de evitar que os pés se sujassem no sangue dos animais. O
deslumbre voltou em Roma, porquanto as meninas de programa adoravam saltos
altos. A moda, é fácil entender, ajudava os romanos a identificarem nas baladas
de fins de semana.
É isso. Mas querem saber duma
coisa? Adoro mulher de salto alto, batom vermelho, unhas também vermelhas. Mas
igualmente adoro as descalças, desabatonadas, desavermelhadas. Vou além. Tenho
uma queda especial por mulher descalça. Nossa! E se tiver acabado de sair do
banho? Aí é nossa duas vezes. E se saiu do banho com o cabelo ensopado? É nossa
três vezes.
Nossa exclamativo, gente. Não o possessivo,
tá? Mas bem que poderia sê-lo.
Selo? Selo de sapato novo. É extasiante
remover selo de sapato, cujos saltos são altos. Dos baixos também.
E aí, meninas? Já compraram os
saltos altos deste Natal?
“Uma mulher com os sapatos certos é
capaz de conquistar o mundo.” (Marilyn Monroe)
Boas festas e feliz Natal. E lindíssimos
sapatos.
Dez/14
TC
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