“Segunda-feira, 18 de junho de
1962. Brasileiros ainda pulam de alegria. Afinal, a seleção brasileira é
bicampeã mundial de futebol. No domingo, no Chile, vencera a Tchecoslováquia
por 3 a 1. Nas Rocas, peixeiro bairro de Natal-RN, coisa de nove horas da
manhã, um rapazola bebe água na bodega do Zezão, levanta a vista, vê brilhosa
placa num poste e...
Não, Juquinha, grita o Zezão.
Depois, o Zezão diz que Juquinha
ficara curioso com o vermelhão da placa e fizera menção de dar um pulinho para verificar
se a tinta estava realmente fresca. Juquinha vivia dando pulinhos de
sobrevivência na feira das Rocas, onde botava balaio de compras na cabeça para
deixar nas residências do entorno. Juquinha também estava eufórico: havia feito
o segundo frete. Ia dar um pulinho em casa a fim de deixar o dinheiro pra mãe comprar
o feijão do almoço.
Juquinha não vai pra casa. O apavorante
grito do Zezão chega tarde. Juquinha tinha dado o último pulinho da vida.
ATENÇÃO. NÃO TOQUE AQUI da placa
parecia ao Juquinha tão só um monte de garranchos de tintas frescas. Mas o toque
foi fatal. Seu frescor dos 17 anos desfizera-se em cinzas, já que os reluzentes
garranchos nada mais eram que gravetos jogados no fogo do analfabetismo pelo
poder público”.
São esses os primeiros parágrafos do Jumento Fantasma (Editora Nozes, 1972), histórico livro de R F Fontoura, pseudônimo da escritora potiguar Jakeline Santiago. O livro